Negócios

O APP dos caminhoneiros

Para profissionalizar um mercado ainda carente de investimentos, a Cargo X redobra a sua atenção às transportadoras pequenas e médias

Crédito: Claudio Gatti

Celular na mão: o argentino Federico Vega, 37, otimiza a jornada de caminhoneiros e transportadoras (Crédito: Claudio Gatti)

Abordo de uma motocicleta, os amigos latinos Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) e Alberto Granado (1922-2011) percorreram a América do Sul nos anos 50 e encontraram inúmeras disparidades econômicas na região. A história do argentino Federico Vega, de 37 anos, guarda semelhanças com a aventura vivida pelo ícone da Revolução Cubana no século passado. Foi em cima de uma bicicleta que Vega, economista de formação, conheceu as dores dos caminhoneiros. Por alguns anos, ele pedalou com sua “magrela” por estradas da Argentina, Brasil e Chile. Com isso, entendeu as complexidades do mercado de transportes. “Eu dormia nas paradas de caminhoneiros porque geralmente são lugares seguros. Assim, comecei a descobrir as necessidades deles”, relembra. As angústias eram de todos os níveis. “Eles reclamavam que estavam sem carga e que tinham que bater na porta das transportadoras para não rodarem vazios. Reclamavam do roubo de cargas e da falta de um serviço bom para o setor”, afirma.

A experiência foi fundamental para que Vega pavimentasse o caminho para a criação da Cargo X, uma startup de tecnologia que conecta caminhoneiros e transportadoras a embarcadores de carga. Fundada em 2016, a Cargo X não demorou para conquistar espaço. Hoje, 300 funcionários instalados na sede da empresa em São Paulo têm a missão de maximizar a operação de quase 8 mil transportadoras, que contam com mais de 200 mil caminhões ativos. “Ficamos conhecidos como a Uber dos caminhões, mas a verdade é que o nosso serviço está mais para um Airbnb dos transportes”, diz Vega.

O negócio funciona por meio de um aplicativo móvel. Como muitas vezes os caminhoneiros que saem de São Paulo rodam longas distâncias sem cargas, o objetivo da Cargo X é otimizar o tempo dos motoristas e das transportadoras, ligando-as a embarcadoras que precisam despachar produtos para outros estados. Boa parte da estrutura tecnológica é desenvolvida em casa, mas há parcerias com outras empresas, como a gigante americana Qualcomm. A ideia é vista como inovadora por investidores e a Cargo X já recebeu US$ 85 milhões em cinco rodadas de captação de recursos. A robustez faz com que a empresa registrasse uma receita próxima a R$ 200 milhões em 2018.

AGRONEGÓCIO Para conquistar de vez o mercado brasileiro, onde as pequenas transportadoras sofrem com roubo de cargas e o calote de embarcadoras, a Cargo X acaba de lançar uma linha de financiamento de R$ 100 milhões para transportadoras do agronegócio. “Vamos expandir para outras indústrias no ano que vem”. A tendência é que até o fim de 2020 a startup empreste mais de R$ 300 milhões. Em período de testes, a empresa está fornecendo crédito com capital próprio. Uma próxima etapa visa o lançamento de um sistema de pagamentos semelhante ao Mercado Pago, do Mercado Livre, para assegurar que a transportadora receba a quantia acordada pelo frete na data certa. “É uma medida bastante ousada, porque a empresa já está entrando no processo de operação financeira”, diz Daniel Domeneghetti, CEO da Dom Strategy Partners. “Ela está criando um ecossistema completo. O desafio vai ser organizar a complexidade disso tudo.”