AS MELHORES DA DINHEIRO 2021

O ano em que o Brasil descobriu a bolsa

Uma combinação inédita de educação financeira e juro baixo levou 3,2 milhões de pessoas físicas a investir no mercado de ações no Brasil em 2020. O número supera em 1,5 milhão o total de investidores da bolsa no ano anterior. Atender a esse volume recorde de novos clientes foi uma prova de fogo – que a B3 tirou de letra.

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O cenário otimista desenhado já em 2019 reforçou a importância de antecipar os investimentos em capacidade operacional. A companhia elevou o Capex em 30% no ano passado. A maior parte desse valor foi para tecnologia. (Crédito: Divulgação)

Em 2018, havia no mercado um certo temor de que mais nenhuma empresa iria abrir o capital no Brasil. Elas o fariam fora. A sensação havia sido causada pelo êxito de IPOs (a oferta inicial de ações, na sigla em inglês) de unicórnios brasileiros do setor financeiro, como PagSeguro e Stone. A primeira abriu o capital na bolsa de Nova York (Nyse), em janeiro daquele ano, levantando US$ 2,3 bilhões. Ao escolher a Nasdaq, também em Nova York, e não a B3, em São Paulo, a Stone levantou US$ 1,2 bilhão. Embalada por esses números, a XP Inc. escolheu o mesmo caminho. “De 2019 para cá, isso mudou muito”, afirmou o CEO da B3, Gilson Finkelsztain. Ele atribui essa mudança a uma combinação de educação financeira e juro baixo. “Esse vento soprou muito favoravelmente. Foi acelerado em 2020 com a Selic a 2%, mas já vinha de antes”, disse. Como se sabe, o Banco Central baixou a taxa básica de juros para 2% como resposta à pandemia. Mas, segundo o CEO da B3, mesmo com juros a 5% – bem abaixo da nossa média histórica –, surge a demanda por renda variável. “E a gente deu um show em relação a 2018. Bons empreendedores o Brasil sempre teve. Eles conseguiram juntar esse momento de mercado com bons projetos”, afirmou.

Em 2019 houve 42 IPOs na B3. Em 2020, um pouco mais: 53. “A gente consegui trazer para mercado empresas menores, com muita diversificação de setores: tecnologia, agribusiness, saúde, varejo”. Além dos IPOs, houve operações bilionárias de follow-on, que é a oferta de ações subsequente, quando empresa já abriu o capital e volta à bolsa para acessar volumes financeiros muito altos — o que é possível por ela já estar listada. “Talvez o mercado brasileiro não imaginasse um follow-on de R$ 5 bilhões, como foi o do Magazine Luiza, ou de R$ 4 bilhões, da Rede D’Or, que fez o maior IPO da B3 em 2020”, disse Finkelsztain.

GILSON FINKELSZTAIN EMPRESA: B3 – Brasil, bolsa, balcão. CARGO: CEO. PRINCIPAL REALIZAÇÃO DA GESTÃO: Capacitar a infraestrutura para suportar o crescimento das operações e da entrada recorde de investidores. (Crédito:Divulgação)

Segundo ele, isso abriu as portas para o empresário brasileiro acessar novas fontes de captação, ao mesmo tempo em que criou demanda para bons ativos. “A grande demanda do ano passado veio dos investidores nacionais, tanto pessoas físicas quanto institucionais. Os estrangeiros não adicionaram muitos recursos. Isso mostra o potencial que a gente tem para o futuro”, afirmou.

O cenário otimista desenhado já em 2019 reforçou, na B3, a importância de antecipar os investimentos em capacidade operacional. A companhia elevou o Capex (investimento em bens de capital) em 30% no ano passado. A maior parte desse valor foi para tecnologia. “Tivemos que inovar nos processos para ganhar agilidade”, afirmou o CEO. Segundo ele, isso permitiu atender melhor o enxame de novos investidores que buscaram o mercado de ações para tentar compensar a queda de rendimento das aplicações em renda fixa, na maior parte atreladas à taxa de juros.

“A grande demanda do ano passado veio dos investidores nacionais, tanto pessoas físicas quanto institucionais. Os estrangeiros não adicionaram muitos recursos. Isso mostra o potencial que a gente tem para o futuro” Gilson Finkelsztain, CEO da B3.

Tão necesseario quanto a tecnologia que simplifica a jornada do investidor é o conhecimento que ele precisa ter do mercado. “É importante que esse mercado vá crescendo e que o investidor esteja preparado. Que ele entenda o funcionamento do mercado financeiro, o linguajar”, disse Finkelsztain. Para isso, a B3 criou, em 2020, um Hub de Educação. O CEO o define como “um local onde o bom conteúdo possa ser compartilhado para todos os investidores”. A empresa também investiu em um programa para que os corretores desenvolvam iniciativas de treinamento e de fomento à educação financeira.

Em julho deste ano, a B3 fez um aporte de R$ 600 milhões na TFS Soluções em Software, uma subsidiária da TOTVS. A participação é minoritária, com uma fatia de 37,5% do capital social da empresa. “A gente fez esse investimento com o olhar de expansão. Nosso corebusiness é de infraestrutura de mercado. A TFS presta serviços de software para entes do mercado financeiro. Olhando para o futuro, queremos entrar em atividades próximas ao core mas que não sejam exatamente o que já fazemos”, disse Finkelsztain. Segundo ele, o plano estratégico da B3 prevê os segmentos de dados, analytics, indústria de seguros, e mercado de energia no Brasil. “São exemplos de possíveis áreas de expansão da nossa atuação, com uma flexibilidade maior, com outras formas criativas de crescer o nosso negócio”, afirmou. Outra frente, ainda em estudo, é a de ativos digitais, como criptomoedas. “Dentro do planejamento estratégico da companhia existe a visão de ampliar nossa atuação no mercado”.