Empreendedores do Ano 2017

O ano da virada

Depois de quase três anos seguidos de recessão, as principais lideranças empresariais, artísticas e políticas do País não esconderam o alívio na festa de premiação dos Brasileiros do Ano. Há um consenso de que o ano de 2018 será ainda melhor, mas a eleição é uma fonte de incertezas

1-Celso Athayde, CEO da Favela Holding/2-Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural/3-Paulo Rogério CafFarelli, presidente do Banco do Brasil/4-Flávia Bittencourt, presidente da Sephora no Brasil/5-Guilherme Paulus, presidente do Conselho da CVC/6-Paulo Skaf, presidente da FIESP/7-Frederico Trajano, presidente do Magazine Luíza/8-Antonio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador/9-João Doria, prefeito de São Paulo/10-Carlos José Marques, diretor Editorial da Editora Três/11-Álvaro Dias, senador/12-Arthur Virgílio, prefeito de Manaus/13-Paulo Cesar de Souza e Silva, presidente da Embraer/14-João Carlos Martins, maestro/15-Luciano Huck, apresentador de TV/16-Isis Valverde, atriz/17-Hélder Barbalho, ministro da Integração Nacional/18-Alan Ruschel, jogador de futebol/19-Sergio Moro, juiz federal/20-Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três/21-Michel Temer, presidente da República/22-Eunício Oliveira, presidente do Senado/23-Henrique Meirelles, ministro da Fazenda/24-Moreira Franco, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência/25-Alexandre Baldy, ministro das Cidades/26-Antonio Imbassahy, ministro-chefe da Secretaria de Governo/27-Juliana Paes, atriz/28-João Paulo Barrera, estudante

Nos últimos três anos, as tradicionais premiações BRASILEIROS DO ANO e EMPREENDEDORES DO ANO, da Editora Três, foram realizadas num ambiente econômico recessivo. A retração do PIB acumulada ao longo de 11 trimestres, de abril de 2014 a dezembro de 2016, foi de 8,2%. Ainda assim, os laureados nunca desanimaram e sempre ressaltaram sua confiança no Brasil. Na terça-feira 5, data em que as revistas ISTOÉ e DINHEIRO realizaram mais uma edição do prêmio, o sentimento das lideranças empresariais, artísticas e políticas era de alívio e de até uma certa euforia. A pior recessão da história já é passado e os olhares sobre o futuro são positivos. “Acredito que 2018 nos fará esquecer a crise”, diz Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza, que recebeu o prêmio de EMPREENDEDOR DO ANO 2017 em E-COMMERCE. “As vendas já estão crescendo.”

Anfitrião do evento realizado no Tom Brasil, em São Paulo, o presidente-executivo da Editora Três, Caco Alzugaray, prestou uma homenagem ao seu pai, Domingo Alzugaray, que morreu em julho, aos 84 anos. “Domingo era um grande otimista, que acreditava no Brasil acima de tudo”, disse Alzugaray, salientando que o pai, nascido na Argentina, tinha alma apaixonada pelo Brasil. Saudosas reverências ao fundador da Editora Três foram proferidas no palco por premiados e convidados que desfrutaram de seu convívio, como o presidente da República, Michel Temer . “Eu gostaria de conceder este mesmo título [Brasileiro do Ano] a Domingo Alzugaray, mas não posso fazê-lo. Como tenho esta outra competência, concedo a Medalha ao Mérito Cultural a Domingo Alzugaray”, disse Temer, que entregou o prêmio de BRASILEIRO DO ANO na ECONOMIA ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, um dos cinco ministros presentes no concorrido evento (confira as fotos ao longo da reportagem).

Com um discurso de defesa do legado do governo, o ministro da Fazenda tenta se viabilizar como um pré-candidato à Presidência em 2018. O seu nome era comentado no coquetel que antecedeu à premiação. Com um crescimento do PIB previsto de 1% neste ano e de 3% em 2018, os empresários começam a avaliar o potencial eleitoral do ministro da Fazenda, que tende a ganhar popularidade à medida que a aceleração econômica seja sentida no bolso do povo. “O investimento reflete a confiança dos consumidores, do mercado, que voltou a crescer depois de 15 trimestres seguidos de queda”, disse Meirelles, em seu discurso. Outro premiado da noite que flertou com a disputa eleitoral foi o empresário e apresentador Luciano Huck, eleito BRASILEIRO DO ANO na COMUNICAÇÃO (confira nas fotos os premiados pela ISTOÉ). Sem citar o ex-presidente Lula (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), que lideram as pesquisas, o astro da Rede Globo deu o seu recado: “Acho injusto o Brasil ter de escolher entre o sujo e o mal lavado”.

Pré-candidato pelo Podemos, o senador Alvaro Dias avalia que as pesquisas são “prematuras e essas candidaturas [de Lula e Bolsonaro] não se sustentarão”. Principal nome do PSDB presente à cerimônia, o prefeito da capital paulista, João Doria, que pode concorrer ao governo de São Paulo, parabenizou a Editora Três pela escolha do juiz Sergio Moro, um dos protagonistas da Lava Jato, como BRASILEIRO DO ANO, o principal prêmio da noite. “É uma alegria receber em São Paulo o herói do Brasil”, disse Doria. Aplaudido de pé pela maioria dos convidados, o juiz Moro defendeu a prisão de condenados em 2ª instância e o fim do foro privilegiado. “Não quero esse privilégio para mim”, afirmou.

RECUPERAÇÃO Inflação baixa, geração de empregos, consumo e investimentos são os fatores que começam a dar forma ao crescimento do Brasil. Integrante fundamental na cúpula da equipe econômica, o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, foi homenageado como EMPREENDEDOR DO ANO da revista DINHEIRO em 2017 por sua atuação no combate aos preços altos e no corte dos juros. Ilan, como é chamado no mercado, não pôde comparecer ao evento porque estava em período de silêncio ao comandar a reunião do BC que, na quarta-feira 6, cortou os juros básicos para o menor patamar da história (leia reportagem aqui).

O crédito mais barato impulsionará diversos setores. As vendas de veículos, que acumulam alta de 9,8% em 2017, podem crescer dois dígitos no ano que vem, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Para o segmento de caminhões, que sofreu com a recessão, as perspectivas também são alvissareiras. “Em 2018, as vendas vão crescer 10%”, diz Roberto Cortes, CEO da MAN América Latina. “No ano que vem, vamos injetar a maior parte do ciclo de R$ 1,5 bilhão de investimentos, que termina em 2021.”

Eleito EMPREENDEDOR DO ANO em SERVIÇOS, o empresário Guilherme Paulus, presidente do conselho da operadora CVC e dono do grupo hoteleiro GJP, também planeja colher bons frutos em 2018, diante da recuperação do mercado de trabalho. “Aquela demanda que ficou reprimida durante a fase mais aguda da recessão voltará com força em 2018”, diz Paulus. Com uma renda maior e a confiança em alta, os consumidores estão gastando mais com itens de perfumaria e cosméticos, o que impulsionou as vendas da varejista Sephora. “Estamos otimistas sobre 2018, apesar do ano eleitoral”, diz Flávia Bittencourt, presidente da Sephora no Brasil, que recebeu prêmio de EMPREENDEDORA DO ANO no VAREJO. “É preciso que as reformas continuem.”

A agenda reformista do governo Temer, apontada pela equipe econômica como fundamental para a busca do equilíbrio fiscal, vem recebendo a defesa veemente dos empresários, em especial a reforma que altera as regras das aposentadorias. “É preciso aprovar a reforma da Previdência”, afirma Mario Anseloni, ex-presidente da HP e sócio da In.Business. “O grande risco para o País é de isso não acontecer.” Nos últimos dias, o núcleo político do Palácio do Planalto tem intensificado as articulações com os parlamentares para tentar garantir os 308 votos necessários na Câmara dos Deputados, ainda antes do Natal.

A despeito dos problemas políticos, alguns segmentos industriais mantiveram seus investimentos em inovação. Durante a crise, muitos empresários concluíram que não havia outro caminho para garantir um futuro próspero. “A Embraer investe 10% do seu faturamento em inovação e pesquisa, enquanto a média da indústria nacional é de 0,5%”, diz Paulo Cesar de Souza e Silva, presidente da Embraer, que recebeu o prêmio EMPREENDEDOR DO ANO na INDÚSTRIA. “O cenário é desafiador, mas estou certo que 2018 será um bom ano para a Embraer.” Visão parecida tem o presidente da Schneider Electric, Cleber Morais, que aposta numa trajetória consistente da economia. “Vamos investir em inovação e no lançamento de novas linhas de produtos em 2018 para enterrar, definitivamente, essa angustiante fase de recessão que atravessamos”, diz Morais.

Com uma história de vida que alia a superação com a ousadia, o empresário Celso Athayde, CEO da Favela Holding, um conglomerado empresarial que concentra duas dezenas de companhias, emocionou a plateia no Tom Brasil. “Pouca gente sabe, mas os negros movimentam R$ 1,6 trilhão por ano”, disse Athayde, eleito EMPREENDEDOR DO ANO em IMPACTO SOCIAL. “Ou a gente distribui toda a riqueza que os negros e as favelas geram, ou vamos continuar dividindo as consequências da miséria que a elite vem gerando há muitos anos.” No evento, Athayde anunciou a aquisição de mais uma empresa pela holding, numa demonstração de confiança no País. A mesma confiança que pode ser resumida na fala do presidente-executivo da Editora Três, Caco Alzugaray: “O ano de 2018 vai ser melhor e o de 2019, muito melhor”.