Tecnologia

O ano da vertigem

Uma temporada para corações fortes, 2019 deve ser marcado por extremos no campo da tecnologia. O lado bom: avanços que nos farão viver mais e melhor. O ruim: mecanismos de propagação de fake news serão aprofundados

O ano da vertigem

Velocidade máxima: tecnologias como blockchain e áreas como a de saúde vão liderar a inovação em prazos acelerados

Existe uma espécie de piada interna entre as pessoas que lidam com inovação, tecnologia e outras fronteiras da disrupção. Ela diz que prever qualquer coisa para daqui 25 anos é fácil — difícil é prever o que vai acontecer em 12 meses. Risco aceito, dividimos as previsões para este ano em três grandes áreas: softwares, segmento econômico e cultura digital. Dentro delas, elegemos os temas que deverão viver em 2019 aquele momento decisivo, o equivalente a uma temporada marcante. Nossos candidatos a protagonistas são blockchain & inteligência artificial – porque se você pensa que já se falou muito sobre isso, acredite, mal começou –; o segmento de saúde e, por fim, deepfake vídeos. Um denominador comum escolta nossas escolhas. Todas mudam de forma radical o comportamento humano. Porque, como diz Jonah Peretti, o americano por trás do The Huffington Post e do BuzzFeed, o desafio intelectual é entender “como e por que as coisas se propagam”. À lista.

1. Inteligência Artificial & Blockchain
É fato. Você já ouviu falar das duas coisas. Mas ainda não é fato que o uso delas vai se expandir para áreas aparentemente inesperadas. Primeiramente, a inteligência artificial. Definir IA (ou AI, na sigla em inglês) pode exigir algumas horas de discussão. Mas a essência é que se trata de uma máquina preparada – talvez seja mais preciso chamar de objeto ou dispositivo – para aprender e a realizar tarefas que, em tese, somente humanos poderiam executar. A expressão nasceu em 1956, numa conferência feita pelo cientista de computação americano John McCarthy (1927-2011). Ele acreditava que “todos os aspectos da aprendizagem ou qualquer outra característica da inteligência podem, em princípio, ser descritos com tanta precisão que uma máquina pode ser feita para simulá-los”.

McCarthy estava certo. No fim de 2018, o Google Lens, aplicativo de reconhecimento de imagens, já era capaz de identificar 1 bilhão de itens, lista que só aumenta. Google Lens já compara pessoas com obras de arte e pode ver nomes de redes WiFi, ou diferenciar raças de cães ou espécies de plantas. “À medida que os computadores começam a enxergar o mundo como nós, a câmera se tornará uma interface poderosa e intuitiva”, diz a vice-presidente do Google Lens e Realidade Aumentada, Aparna Chennapragada. “Um visor de inteligência artificial que coloca as respostas no lugar das perguntas, destacando os produtos que procuramos nas prateleiras das lojas ou traduzindo instantaneamente qualquer palavra à nossa frente em uma cidade estrangeira.” Um app desses deve recolucionar o segmento de varejo, por exemplo, ou mesmo áreas como o turismo, pela capacidade exponencial de criar experiências.

Já o blockchain está na base da criação da criptomoeda bitcoin. E foi a simplicidade da inovação que a tornou tão poderosa. É como um livro de registros abertos em que cada transação é validada por terceiros e tudo fica não apenas documentado e revisado, mas também aparente. É isso que garante a autenticidade. Vale ouro em transações comerciais, e até aqui são as instituições financeiras que se apropriam da tecnologia. Em dezembro, o Itaú fez uma inédita operação na América Latina de captação (de US$ 100 milhões) usando blockchain, numa parceria com os bancos Standard Chartered (Inglaterra) e Wells Fargo (Estados Unidos).

Segurança e vulnerabilidade: Yasmin Green, da Jigsaw, teme pelos estragos que deepfakes provocarão. Em contrapartida, blockchain trará garantias a mais segmentos, além do financeiro

Todos os níveis da operação – autenticar, fazer uploads, revisar e autenticar documentos, envolvendo diferentes áreas, como os departamentos jurídicos e de regulamentação dos três bancos – se basearam na tecnologia. A novidade em 2019 será o uso cada vez maior de blockchain em outros segmentos, como o bilionário mercado de arte, sempre envolto em falsificações, ou a crítica área da saúde, em que os diagnósticos e prontuários são como rastros. A publicação MIT Technology Review, no dia 2 de janeiro, definiu a jornada blockchain da seguinte maneira: “Em 2017, foi uma revolução que deveria perturbar o sistema financeiro global. Em 2018, foi uma decepção. Em 2019, começará a se tornar mundano.” Tudo porque várias grandes corporações, de diversos segmentos, planejam lançar projetos baseados na tecnologia neste ano.

2. MedTech
Yuval Harari, professor e autor dos best sellers “Sapiens” e “Homo Deus”, faz uma comparação curiosa: 500 mil pessoas são mortas anualmente por homicídio no mundo (o número atual é ainda menor, perto dos 400 mil), mas 1,5 milhão morrem por causa de diabetes (o número atual é um pouco maior, já chega a 1,6 milhão). “O açúcar é mais perigoso que a pólvora”, diz. O que Harari quer provocar é um novo olhar para a saúde, e mostrar que o tema será tendência cada vez mais irreversível. O segmento movimentou US$ 4,2 trilhões em 2017, de acordo com o Global Wellness Institute, número que crescerá acima da maior parte dos demais indicadores da economia. Por um motivo muito contundente: as pessoas vivem mais. Dados da Organização Mundial de Saúde mostram que a expectativa de vida em 2016 era de 72 anos. Em 1960, mal passava de 52. Não será à toa, portanto, que o setor deve desbancar as fintechs — as queridinhas da vez na temporada 2018 — para assumir o topo do pódio em 2019.

Será possível dividir a agenda de novidades na saúde em dois grandes campos. O primeiro é a análise de dados e bigdata, combinados à inteligência artificial e blockchain. Em agosto de 2018, uma equipe ligada ao hospital Mount Sinai, em Nova York, publicou estudos relacionados a uma plataforma de inteligência artificial montada para identificar questões neurológicas graves, como AVCs e hemorragias. A junção de tomografia computadorizada com armazenagem, garimpagem e análise de dados levou o tempo de identificação de problemas agudos à impressionante casa do 1,2 segundo.

O tempo médio para o algoritmo de computador pré-processar a imagem, executar seu método de inferência e, se necessário, disparar um alarme, foi 150 vezes mais rápido do que os médicos levam para ler a mesma imagem. Não é preciso ser especialista clínico para entender o quanto a rapidez num diagnóstico de AVC é decisivo. O segmento medtech já está entre os responsáveis pela maioria dos pedidos de patentes na Europa. E existe uma boa vontade para que isso ocorra. Pesquisa da PwC, de 2015, mostra que 73% dos entrevistados estão dispostos a compartilhar seus dados clínicos numa plataforma comum para benefício de outras pessoas.

Revolução à vista: segmento de saúde mistura inteligência artificial, gadgets e bigdata para melhorar diagnósticos e tratamentos

Se, por um lado, grandes hospitais, clínicas, seguradoras e todo o conjunto de players do segmento de saúde passa a apostar em blockchain e na inteligência artificial como suportes na construção de um grande analytics para a solução de problemas relacionados à saúde, outra mudança de comportamento, no âmbito individual, tem levado ao segundo grande campo da inovação no setor: gadgets e wearables. Dispositivos médicos digitais farão mais do que ajudar as pessoas — eles podem melhorar as pessoas. Informações sobre nossos corpos, em especial sobre o que há de errado com eles, se tornaram muito mais fáceis de coletar por causa de um dispositivo onipresente: smartphones. Outra pesquisa da PwC, publicada em setembro de 2018, mostra que 54% dos americanos gostariam que a FDA (agência reguladora de drogas e alimentos nos Estados Unidos) aprovasse aplicativos e outras ferramentas online para seus tratamentos médicos. E o número de pessoas com aplicativos relacionados à saúde & bem-estar dobrou em dois anos, entre 2014 e 2016, e chegou a 32%.

3. Deepfake
Um vídeo de 71 segundos postado no Twitter dia 23 de outubro de 2018, a cinco dias do segundo turno das eleições brasileiras, foi o maior fenômeno da campanha de João Doria (PSDB), atual governador de São Paulo. Foram 5,6 mil comentários, 5,5 mil compartilhamentos, 32 mil curtidas e 2,8 milhões de views. Nele, Doria aparece ao lado da mulher, Bia, para afirmar que as imagens que viralizaram nos dias anteriores, em que supostamente participava de uma orgia, eram falsas. “Uma produção grotesca, fake news”, disse. O post foi um sucesso de engajamento. Para efeito de comparação, o vídeo imediatamente anterior e veiculado no mesmo dia teve 841 comentários (15% em relação ao primeiro), 579 compartilhamentos (10%), 2,7 mil curtidas (8,4%) e 100 mil views (3,5% do obtido pelo vídeo viral).

Para quem pensa que as eleições passadas foram o fundo de um poço, dominadas por ataques, falta de propostas, ausência de debate e avalanches de fake news descarregadas em redes sociais, a notícia para 2019 é ainda menos palatável: vai piorar. Entre as principais tendências a partir deste ano, no campo da cultura digital, e forte candidato a protagonista, será o fenômeno conhecido por deepfake. “Talvez o mais assustador sobre a ascensão de deepfakes é que eles não precisam ser perfeitos para serem eficazes”, disse Yasmin Green em uma entrevista à Wired, publicação focada em cultura digital. Yasmin é diretora de pesquisa e desenvolvimento da Jigsaw, empresa da Alphabet/Google dedicada a questões de segurança.

Se aos olhos treinados da especialista Yasmin vídeos não perfeitos já conseguiriam o efeito de destruir reputações ou distorcer fatos, a curva será ainda mais exponencial, porque as técnicas de produção de deepfakes só melhoram (se é que cabe aqui a escolha pelo verbo melhorar) por causa dos avanços tecnológicos em edição de imagens. Haverá de tudo um pouco, e tudo ao mesmo tempo: troca de faces, sincronização labial de falas, reequilíbrio de luz e profundidade para eliminar efeito de distinção nas cenas tomadas em lugares ou momentos diferentes, um arsenal que, em 2019, vai se tornar mais sofisticado.

Por esse motivo os deepfake vídeos irão invadir a realidade e se transformarão na próxima fronteira da falsidade digital. Conviver com eles será tão desastroso quanto tem sido com as fake news — estas vão parecer uma legião de escoteiros mirins no ranking do mau comportamento. Yasmin Green, a diretora de pesquisa e desenvolvimento da Jigsaw, não parece ter dúvidas de que o mundo conhecerá deepfake vídeos produzidos “para enganar populações inteiras”.