Edição nº 1104 18.01 Ver ediçõs anteriores
Augusto Cury

Entrevista

Augusto Cury, empresário e escritor

O ambiente corporativo no Brasil está doente

Gabriel Reis

O ambiente corporativo no Brasil está doente

Hugo Cilo
Edição 18/05/2018 - nº 1070

O psiquiatra e educador paulista Augusto Cury se transformou, nos últimos anos, em um dos maiores escritores brasileiros em número de livros vendidos. Em 2017, segundo a Nielsen, ele foi o autor brasileiro de maior sucesso, superando o segundo colocado, Mário Sérgio Cortella, em 200%. Desde 2003, publicou mais de 70 títulos e vendeu 25 milhões de exemplares. O “Vendedor de Sonhos”, o seu best-seller, virou filme de Jayme Monjardim com o ator Dan Stulbach, em 2016. Suas teorias são baseadas na necessidade de aprimoramento da inteligência socioemocional nas escolas, nas empresas e até nos presídios. Ele criou um método de ensino, a Escola da Inteligência, que foi adotado por mil escolas no Brasil, e que atende 350 mil alunos do ensino básico. Acompanhe, a seguir, sua entrevista:

DINHEIRO – Por que ainda existe interesse das pessoas em estudar as teorias sobre inteligência emocional, se esse assunto não é tão novo no mundo acadêmico?

AUGUSTO CURY – Porque, cada vez mais, aplicar em sala de aula disciplinas como português, matemática, história e geografia já não é suficiente para formar um jovem empreendedor, que sabe se relacionar, liderar, gerenciar pessoas e trabalhar suas emoções. Tanto é que o Ministério da Educação (MEC) chegou à conclusão de que precisa trabalhar habilidades não cognitivas e por isso incluiu a inteligência emocional na Base Nacional Curricular Comum, a BNCC, em 2019.

DINHEIRO – Mas falta isso no Brasil?

CURY – Falta muita inteligência emocional ao brasileiro hoje. Antes mesmo de o escritor americano Daniel Goleman lançar seu primeiro livro sobre inteligência emocional, eu já falava sobre a necessidade de gestão da emoção no Brasil. Vejo que falta desenvolver a habilidade do ‘eu’, da autoconfiança. Temos de ser diretor do nosso script, ter consciência crítica, desenvolver a capacidade de escolha. O ‘eu’ tem de saber gerenciar as próprias emoções e os próprios pensamentos.

DINHEIRO – Quais são as características comuns de quem perdeu o controle da emoção?

CURY – Sofrimento por antecipação, ruminação de mágoas, incapacidade de enfrentar perdas e de lidar com frustrações. Ou seja, se deixa dominar por pensamentos pertubadores. Mas isso não é algo que ocorre apenas no Brasil. Existem muitos líderes educacionais em Portugal, no Panamá, em Angola e vários outros nos Estados Unidos, que sentem que precisa haver uma revolução no sistema de ensino e na formação dos alunos.

DINHEIRO – O que está potencializando essa situação, atualmente?

CURY – Muitas coisas, principalmente a tecnologia. A situação é alarmante. Estamos na era do entretenimento. Nunca foram tão acessíveis as formas de lazer e de prazer. Mas, segundo estatísticas recentes, 50% da população mundial, cedo ou tarde, desenvolverá algum transtorno psicológico ao longo da vida, como depressão, anorexia, síndrome do pânico e aí por diante. Então, isso mostra como avançamos. Em termos tecnológicos, em termos sociais, o mundo ficou mais rico, mais conectado, mas menos feliz. O desafio é saber converter a tecnologia em felicidade, como traduzir tudo isso em bem-estar, como transformar todo esse crescimento em pessoas mais proativas, mais generosas, mais empáticas, mais altruístas, mais felizes.

DINHEIRO – O Brasil está defasado nesse ponto na comparação ao restante do mundo mais desenvolvido?

CURY – Na educação básica, o Brasil está mais avançado. Só que ainda são gotas em um oceano infindável. Temos mais de 40 milhões de alunos no Brasil, enquanto apenas 350 mil praticam atividades escolares de desenvolvimento da emoção. A atual grade curricular é incapaz de formar um jovem seguro. É incapaz de libertar o imaginário para dar respostas brilhantes em situações estressantes.

DINHEIRO – O problema está nas escolas, na sociedade ou no mercado de trabalho?

CURY – A educação está doente. As escolas e universidades estão formando pessoas doentes para uma sociedade doente e um mercado de trabalho mais doente ainda. O ambiente corporativo no Brasil, em geral, está doente. Se as universidades e as empresas não ensinarem a lidar com a emoção, as pessoas não irão parar de sofrer por antecipação. Não saberão filtrar estímulos estressantes. Não conseguirão deixar de lado aquilo que não lhe pertence.

DINHEIRO – Em sentido material?

CURY – Não, em sentido psicológico. Se alguém me rejeita, me critica, me exclui, preciso ser líder de mim mesmo. Isso é não comprar aquilo que não me pertence. Não absorver. Então, mesmo diante das intempéries da vida, eu protejo a minha emoção. É preciso saber cultivar flores e promover uma primavera emocional no pensamento.

DINHEIRO – Como essa teoria influencia no dia-a-dia da economia e dos negócios?

CURY – No Brasil, 82% dos casos de demissão em cargos de liderança, no ano passado, foram motivados por problemas comportamentais. Não foi por falta de competência técnica. Os demitidos tinham, em sua grande maioria, habilidades técnicas para desempenhar suas funções. Então, não adianta ser um profissional superqualificado se não souber gerir pessoas, se não souber ser contrariado, se não souber pensar antes de agir e reagir. Se não investirmos em aspectos emocionais, teremos prejuízos sociais e econômicos.

DINHEIRO – Esses prejuízos já ocorrem, então…

CURY – Sim, de várias formas. Somente a Prefeitura de São Paulo gasta, anualmente, mais de R$ 40 milhões com afastamento de professores por problemas emocionais. Hoje, mais de 50% dos alunos desistem da escola antes de chegar ao nono ano. Não vão para o ensino médio. Isso porque eles não acreditam em si, não sabem lidar com frustrações, vivem em situações econômicas muito precárias e não conseguem enxergar um pavio de mudança em sua realidade. Por outro lado, quando se investe em aspectos emocionais, não se muda a situação econômica num primeiro momento, mas se dá condições para que aquele indivíduo possa acreditar que ele é capaz de mudar sua realidade.

“As escolas hoje formam servos, preparados para se adaptar às mazelas do País”Sala de aula em cursinho pré-vestibular (Crédito:Carlos Cecconello/Folhapress )

DINHEIRO – Falar em educação socioemocional em um País em que a educação clássica é trágica não é como inverter as prioridades?

CURY – Não, porque a educação socioemocional não anula, nem conflita ou substitui a educação clássica, o método racionalista que estimula a cognição, o raciocínio estratégico, a capacidade de interpretar textos. As coisas se complementam. A educação clássica nasceu de um projeto para se introduzir o ser humano no mundo em que estamos. Isso produz preconceitos. No século 17, na França, houve a era dos mendigos. Um terço da população passava fome e as escolas condenavam a solidariedade, a generosidade. Então, as escolas moldavam aqueles alunos para lidarem com uma sociedade doente, o que só agravou a situação. Hoje, fazendo um paralelo, as escolas ensinam a como se comportar em uma sociedade doente, não a como curá-la. Sem educação socioemocional, você discrimina, você exclui, você se torna uma pessoa pior.

DINHEIRO – Como a carência de inteligência socioemocional se reflete no atual momento do Brasil na economia e na política?

CURY – Quando nós compreendemos os bastidores da mente humana, minimamente, sabemos dos estragos que os líderes políticos fizeram, elevando a corrupção a níveis inimagináveis. Eles não apenas espoliaram as finanças da Petrobras, de outras estatais e dos cofres públicos, como também espoliaram o inconsciente coletivo, gerando um desânimo sem precedentes, principalmente entre os jovens. Isso gera um estrago no processo de evolução da sociedade, que tenta ser mais justa, com igualdade e oportunidade. Também afeta a disposição internacional em investir no Brasil. As escolas hoje formam servos, preparados para se adaptar às mazelas do nosso País e a um mercado de trabalho sufocante, explorador, doentio. Não se tornam empreendedores e líderes. Hoje a segunda maior causa de afastamento do trabalho no Brasil é a depressão. O Brasil perde US$ 60 bilhões por ano por transtornos emocionais.

DINHEIRO – A geração Y, ou millenials, está mais suscetível a esses problemas?

CURY – Com certeza, pelo excesso de informação. Pensar é bom. Pensar a consciência crítica é ótimo. Pensar demais, sem gerenciamento, é uma bomba contra o equilíbrio e saúde mental. O excesso de informação estimula uma hiperconstrução de pensamentos. O excesso de estímulo digital, patrocinado pelos smartphones, internet e videogames, também estimula a hiperconstrução do pensamento, gerando a ‘síndrome do pensamento acelerado’. Isso simula os sintomas de hiperatividade ou de déficit de atenção. Médicos estão receitando drogas da obediência, porque estão confundindo as coisas.

DINHEIRO – Esse desequilíbrio está influenciando o ambiente eleitoral?

CURY – Não tenho dúvida nenhuma disso. Todo radicalismo é um defeito da personalidade, seja ele radical de direita, seja radical de esquerda. O que nós temos que valorizar é a vida, as ideias, os seres humanos. Um País com igualdade de oportunidade não se faz com uma ideia única. Em uma situação de estresse, como a que estamos presenciando nesse ano eleitoral, podemos analisar uma síndrome chamada de ‘predador-presa’. O volume de tensão é tão grande que se instala um fenômeno que se chama ‘âncora da memória’, que fecha o circuito cerebral. Milhares de janelas, milhares de arquivos, com milhões de dados, deixam de ser acessados. Naquele momento, nos tornamos predadores das pessoas que mais amamos, inclusive de pessoas da sociedade que carregam alguma posição diferente da nossa. Essa síndrome, um tipo de cegueira intelectual, sempre ocorre em situações de estresse. Se não desenvolvermos nas pessoas a capacidade de lidar com essa síndrome, não teremos uma sociedade melhor. Mas, infelizmente, um ambiente de estresse e polarização eleitoral, com uma economia tomada pela corrupção, a síndrome ‘predador-presa’ aflora e as pessoas tendem a radicalizar, ou para esquerda ou para a direita.

“No Brasil, 82% dos casos de demissão foram motivados por problemas comportamentais”Agência de emprego em São Paulo (Crédito:Jorge Araújo/Folhapress)

DINHEIRO – Mas o debate e a controvérsia sempre vão existir…

CURY – Sim. Sabemos que quem vence sem riscos, triunfa sem glória. O ambiente de competição envolve riscos, mas há limites. Uma pessoa feliz dá o melhor de si para que seus colegas sejam saudáveis e felizes.

DINHEIRO – O que tem de religião na essência de sua teoria?

CURY – A minha teoria não tem religião. Pelo contrário. Nós abordamos que o ser humano deve ser respeitado na sua integralidade. Temos de respeitar as diferenças sociais, intelectuais, religiosas e até ideológicas.

DINHEIRO – Existe alguma característica marcante na personalidade do brasileiro?

CURY – Sim. Existe a cultura do vitimismo. Enquanto o indivíduo se considerar vítima, ele sempre vai atacar. Temos de trabalhar para acabar com o vitimismo, mesmo que o indivíduo seja, de certa forma, vítima de alguma situação. De qualquer maneira, o aluno precisa mudar sua perspectiva de vida. Porque, caso contrário, sempre haverá alguma justificativa para o crime.

DINHEIRO – Mas o vitimismo não está relacionado com a impunidade?

CURY – Depende. Temos a terceira maior população carcerária do planeta. Há mais de 700 mil detentos. A China tem o dobro disso, mas uma população sete vezes maior. Não é só colocar gente na cadeia que se resolve o problema da insegurança social. Apagar fogo é mais difícil do que apagar faísca.

DINHEIRO – Se o sr. for convidado a integrar a equipe do próximo governo vai aceitar?

CURY – Isso não está na minha pauta. Mas eu poderia, de maneira informal, orientar ministros da educação, e muitos deles precisam disso, para formar mentes empreendedoras. Principalmente porque os jovens hoje estão se contaminando com a hiperinformação.

DINHEIRO – As redes sociais potencializam esse problema de excesso de informação?

CURY – As redes sociais, aparentemente, libertaram o ser humano. Mas, paradoxalmente, nos colocaram num cárcere sem precedentes. Lá se fala sobre tudo, menos sobre quem eu sou de verdade. Então, as pessoas vestem um personagem dentro das redes sociais e, além disso, estimulam a necessidade de ter ‘likes’, de ter aprovação social. Isso tem mexido no ciclo do hormônio dopamina, fazendo com que frustração e prazer se alternem num ritmo frenético no mesmo dia. Isso gera uma dependência fortíssima, como uma droga psicotrópica. Por isso, tirar o celular de um adulto ou de um adolescente, por dois ou três dias, gera os mesmos sintomas da síndrome da abstinência. Ou seja, irritabilidade, humor depressivo, ansiedade, baixa limiar para frustração e insônia. Achar que as redes sociais vão substituir a socialibilidade inteligente e saudável é uma infantilidade. Hoje, 84% dos filhos se sentem substituídos, abandonados, em razão dos smartphones. O grande problema não é o tempo em que os país estão fora de casa. É o tempo em que eles estão em casa, mas estão ausentes.


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