Finanças

O 3G da nova economia

Três ex-sócios da XP se unem para investir em fintechs e fazer com essas startups o mesmo que Lemann, Sicupira e Telles fizeram no passado ao transformar a gestão dos negócios

Crédito: Gabriel Reis

A cara da nova economia: Eduardo Glitz (à esq) e Pedro Englert buscam os rebeldes que precisam de conhecimento e capital para revolucionar o setor financeiro (Crédito: Gabriel Reis)

Tito Gusmão fazia o mesmo trajeto de bicicleta todos os dias, pelas ruas de Nova York, entre sua casa e o escritório da empresa de investimentos que trabalhava, na região central da Big Apple. No final de 2014, ele e os sócios André Gusmão e Rodrigo Grundig tentavam encontrar um nome para uma startup financeira que eles estavam criando. O desejo deles era que a fintech fosse batizada com “nome de gente”, para quebrar a sisudez do mercado financeiro. A ideia era que o cliente pudesse tratar o dinheiro de forma mais leve e pessoal.

Todas as tentativas estavam sendo descartadas até Tito topar com a placa da Warren Street, uma rua que termina no New York City Hall e fica a poucos quarteirões do memorial do 11 de setembro. Era o nome perfeito. Ele ligou para os sócios e avisou que a plataforma online de investimentos que estava para nascer se chamaria Warren. Tito jura que não pensou no investidor mais bem-sucedido da história quando bateu a inspiração, mas é difícil não associar a empresa a Warren Buffett – ainda mais vindo de alguém que cresceu no mercado em que o oráculo de Omaha é a principal referência. “A rua, que nem é uma das mais chiques da cidade, veio antes do Buffett”, afirma Tito. “Mas foi muito bom coincidir com o nome do maior investidor de todos os tempos.”

As curiosidades sobre a plataforma online de investimentos não terminam na escolha do nome. O Warren, que cria objetivos de investimentos conforme as informações que o investidor detalha no aplicativo, tinha tudo para ser lançado nos Estados Unidos. Em 2015, quando o negócio ainda era um protótipo, Tito e seus sócios participaram do Collision, o maior evento para startups encontrarem aceleradores, realizado em Las Vegas. Entre os 500 projetos apresentados, o Warren ficou entre os 10 melhores e ganhou a validação para receber investimentos. Interessados de Nova York e de São Francisco quiseram se associar aos brasileiros.

Marcelo Maisonnave, ex-sócio da XP Investimentos, busca criar outras empresas do zero. Agora, ele quer melhorar os processos do mercado financeiro (Crédito:Carol Carquejeiro/ Valor )

Parecia o caminho certo a seguir, quando Tito encontrou Marcelo Maisonnave, que criou a XP Investimentos com Guilherme Benchimol, em Nova York e falou do projeto. A partir daí, tudo mudou. Maisonnave entrou no Warren e mudou o endereço da empresa. Ao invés do mercado americano, ela estaria no Brasil. Isso foi possível porque Maisonnave, um profundo conhecedor da legislação financeira, encontrou o modelo jurídico que permite que o Warren seja rentável, mesmo com um cliente de R$ 1.

A plataforma foi a primeira a utilizar a nova instrução da Comissão de Valores Mobiliários e uniu, num mesmo CNPJ, a gestão, a administração e a distribuição, um formato que elimina uma série de custos para os fundos de investimento. “O Marcelo foi fundamental, por ter tido o insight de começarmos no Brasil”, afirma Tito. “Ele disse que era mais fácil jogar em casa do que na altitude.” Maisonnave levou com ele outros dois investidores, Pedro Englert e Eduardo Glitz, também ex-sócios da XP. Entre junho de 2016 e abril de 2017, o trio aportou R$ 10,1 milhões no negócio. Lançado oficialmente em janeiro deste ano, o Warren alcançou 15 mil clientes no final de setembro e traçou como meta ter 50 mil investidores até junho de 2018.

Mas a história dos três investidores não se restringe ao Warren. Há três anos, eles definiram cinco segmentos que pretendiam conquistar entre as fintechs: investimento, crédito, conta digital, seguros e câmbio. Eles acreditam que a tecnologia vai eliminar uma série de processos intermediários que existem no mercado financeiro. Com o plano traçado, foram atrás dos rebeldes que queriam revolucionar o mercado e tentaram encontrar os melhores, em cada uma dessas áreas, que estavam empreendendo e ainda precisavam de conhecimento e capital. E que não buscam apenas uma aceleradora, mas sócios. “Nosso conceito é de company builder, porque não somos uma aceleradora”, diz Glitz. “Como sócios, mostramos que uma ideia fantástica pode não se adaptar à legislação, então pode ser crime contra o sistema financeiro. O nosso conhecimento nos permite mostrar às fintechs esse limite.”

A plataforma de investimentos Warren, que é rentável com um cliente de R$ 1, foi inspirada na Warren Street e homenageia o megainvestidor Buffett (Crédito:AFP Photo / Nicholas Kamm e Divulgação)

Além do Warren (o maior aporte realizado por Glitz, Englert e Maisonnave numa empresa), eles se tornaram sócios do Monkey, de crédito; da BeeTech, de câmbio; do Projeto ID, de seguros e internet das coisas; do FitBank, de pagamentos; e da plataforma de negócios Startse. Ao todo, eles desembolsaram R$ 21,3 milhões nessas startups. “Nosso primeiro movimento como sócios foi no Startse porque entendemos que ele tem a capacidade de se tornar uma plataforma de negociação de ativos”, diz Englert. “A bolsa de valores vai ser cada vez menos atrativa para as novas empresas que surgem e o Startse vai ser a bolsa da nova economia.”

Maisonnave, Englert e Glitz querem escrever um roteiro parecido com o de outros três profissionais do mercado financeiro, que se juntaram para comprar participação relevante em empresas e interferir na gestão do negócio: Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, que foram sócios do Banco Garantia antes de criar o 3G, que hoje é dono da AB-InBev, do Burger King e da Kraft-Heinz. Os “3G” da nova economia são ex-sócios da XP: Maisonnave foi o fundador, ao lado de Benchimol; Englert era o responsável pela expansão da rede, com os agentes autônomos; e Glitz criou a gestora de investimentos e depois se tornou head de todos os produtos.

A saída deles da empresa, entre 2014 e 2015, aconteceu por uma inquietação. Eles se sentiam prisioneiros de uma estrutura pronta, que já não permitia ousadias e novos desafios. Todos queriam entender e participar dessa transformação que está acontecendo no mercado financeiro. “Temos uma visão sobre o mundo muito parecida, de que existe uma nova forma de fazer negócio”, diz Englert. “As barreiras para empreender vieram abaixo. Se há 15 anos era preciso gastar US$ 15 milhões para montar uma enorme infraestrutura de startup, hoje se paga US$ 5 mil de aluguel para a Amazon.”

São Francisco, no Vale do Silício, é a inspiração para Maisonnave, Glitz e Englert pensarem na nova economia e em como incentivar as Fintechs (Crédito:Mlenny)

A estratégia deles é adquirir de 20% a 30% do negócio e ficar com uma parcela relevante para trabalhar na gestão. Ao mesmo tempo, eles não diluem o criador do projeto a uma posição insignificante, para evitar a perda de motivação. Também não estão atrás de unicórnios (aquelas startups que podem se transformar em bilionárias) nem querem levar essas empresas ao limite, o que pode fazê-las quebrar. E o investimento médio de R$ 3,5 milhões dá fôlego financeiro e afasta uma nova rodada de investimentos, no curto prazo, o que atrapalharia o crescimento saudável. Eles continuam a procura de novas oportunidades, mas sem pressa. “Sou sócio do meu sócio, então não vou entrar em empresas que possam gerar conflitos e competir com o que temos”, diz Maisonnave. “Temos de ser coerentes.”

Entre todas as investidas, a que pode provocar o maior impacto na economia é a Monkey. A startup de crédito foi criada para ajudar o pequeno e o médio fornecedor a conseguir um financiamento em condições semelhantes ao de multinacionais. Hoje, uma grande empresa tem acesso as recursos de grandes bancos com custo pequeno pelo baixo risco de calote. Mas seus fornecedores, que poderiam usar o mesmo risco da grande empresa, enfrentam condições adversas. Empresas pequenas pagam cerca de 7% de juro ao mês enquanto uma grande, para quem fornece seus produtos, menos de 1%. Com a tecnologia, a Monkey consegue mostrar que o risco do fornecedor é o mesmo da grande empresa. “O risco dele é a grande empresa não pagar, portanto é baixo”, diz Gustavo Muller, um dos fundadores ao lado de Bruno Oliveira e Rafael Coelho. “Já conseguimos baixar em 50% a taxa para alguns fornecedores. Mas ainda dá para baixar mais.

É um ciclo positivo para a cadeia e uma mudança simples que pode ter um impacto enorme na economia.” Assim como o Warren, a Monkey também tem uma história de batismo curiosa. O nome é a junção das palavras money (dinheiro) e key (chave), em inglês. Eles não queriam dar um nome como “Antecipa” a uma fintech. A Monkey, além da facilidade para um processo de internacionalização, também permite usar o macaco como símbolo. Num mercado que aprecia a associação com animais, como o touro para falar da alta da bolsa de valores e o urso, para períodos de baixa, o macaco remete a bagunça e a agilidade nos deslocamentos. É tudo o que Maisonnave, Englert e Glitz querem promover.