Edição nº 1104 18.01 Ver ediçõs anteriores
Guerra Comercial

Entrevista

Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC)

Numa guerra comercial, todos seriam prejudicados

Qilai Shen/Bloomberg via Getty Images

Numa guerra comercial, todos seriam prejudicados

Priscilla Arroyo
Edição 11/05/2018 - nº 1069

Conhecido entre seus pares como um construtor de consensos, o baiano Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), está enfrentando a sua missão mais desafiadora desde que assumiu o cargo, em setembro de 2013. Aos 60 anos, esse engenheiro que atua como diplomata desde os 26, vem trabalhando para evitar que Estados Unidos e China entrem em uma guerra comercial de consequências imprevisíveis. Para ele, os desentendimentos se restringir a alguns produtos, como o aço, ou se espalharem pelas correntes globais de comércio. Isso seria desastroso e provocaria uma redução da eficiência na cadeia produtiva, um encarecimento global da produção e uma queda generalizada da competitividade.

Como consequência, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial encolheria 2,4%. O impacto seria maior sobre os países menos desenvolvidos e sobre as pessoas com menor renda. “Se o comércio internacional deixar de existir, os mais pobres perdem cerca de 63% do seu poder de compra”, diz Azevêdo. Essa situação incerta nas relações comerciais pode ser comparada às tensões entre Estados Unidos e Japão nos anos 1980, quando o país asiático emergia como uma nova potência econômica. “Foi um período crítico. E um dos resultados mais importantes dessa crise foi a própria criação da OMC em 1995”, diz. À DINHEIRO, Azevêdo reconheceu que ainda é preciso resolver muitas distorções no comércio global. Acompanhe:

DINHEIRO – China e Estados Unidos afirmam que não estão em uma guerra comercial, apesar de os dois países terem anunciado aumentos de tarifas de importação sobre vários produtos nas últimas semanas. Eles estão em guerra ou não? O que caracteriza o início de uma guerra comercial?

AZEVÊDO – É difícil falar o que é uma guerra comercial, ou definir quando ela começa. O que posso dizer é que, tecnicamente, nós ainda não estamos lá. Algumas medidas restritivas já foram adotadas, mas a grande parte foi apenas anunciada. Há conversações em andamento. A realidade é que, do ponto de vista político, nós podemos estar começando uma dinâmica que leve à guerra comercial. E é exatamente isso que eu tenho pedido aos países-membros para evitar.

DINHEIRO – Quais são os países que podem ser mais prejudicados?

AZEVÊDO – Numa guerra comercial todos seriam prejudicados, não só os diretamente envolvidos na disputa. Atualmente, dois terços do comércio global estão ligados de alguma forma a cadeias internacionais de produção. Nesse cenário, qualquer ação que afetar os fluxos de comércio terá um grande impacto na economia mundial como um todo. E os países menores e mais vulneráveis serão os primeiros a ser afetados.

DINHEIRO – Como isso poderia prejudicar os consumidores?

AZEVÊDO – Os segmentos da população de menor renda seriam os primeiros a ser prejudicados. Se você eliminar por completo o comércio internacional, os mais pobres poderiam perder cerca de 63% do seu poder de compra. Isso significa que um trabalhador que recebe, hoje, R$ 100 por semana, passará a ganhar R$ 37 em termos de poder de compra. E o efeito agregado disso seria ainda mais perverso. No momento em que essas pessoas consomem menos, elas deixam de contribuir para a dinâmica da economia, que perde como um todo. E isso vale para todo o mundo, tanto para os países desenvolvidos quanto para os em desenvolvimento.

DINHEIRO – Os Estados Unidos propuseram cotas às exportações de aço e alumínio. Alguns países devem aceitar, outros indicam que vão retaliar. Se houver retaliações, isso poderia retirar a influência de negociação da OMC?

AZEVÊDO – O ideal é sempre que as partes cheguem a soluções mutuamente satisfatórias e saudáveis para o sistema como um todo. Acho que foi positivo haver conversações, disposição para negociar. O resultado dessas negociações, no entanto, caberá a cada parceiro comercial avaliar. De minha parte, eu continuo alertando os países-membros sobre os riscos de eles partirem para uma dinâmica de retaliações recíprocas. Uma aplicação desenfreada de medidas unilaterais trará ainda mais riscos à economia global. A OMC possui muitos instrumentos multilaterais que podem ser usados pelos países para defender seus interesses.

“Do ponto de vista político, nós podemos estar começando uma dinâmica que leve à guerra”O presidente da China, Xi Jinping, questiona tarifas impostas por Donald Trump ao aço e a mais de 1.300 produtos eletrônicos chineses (Crédito:Patrik Stollarz / AFP Photo)

DINHEIRO – Se houver um aumento generalizado de impostos de importação, ou a aplicação ampla de sanções, algum país ou algum bloco comercial pode ser beneficiado nesse processo, ainda que no curto prazo?

AZEVÊDO – Sempre que medidas comerciais são aplicadas, elas geram perdas e oportunidades. Há setores que se beneficiam e setores que sofrem. Essa é a natureza do jogo. Para a OMC, o que importa é o resultado final, o efeito sistêmico dessas medidas. Em um cenário de escalada de tensões, de medidas restritivas e de protecionismo aqui e ali, a probabilidade de retaliações de parte a parte aumenta. Então, você tem ineficiências na cadeia produtiva, encarecimento da produção e perda de competitividade. Tudo isso com impacto global, uma vez que vivemos numa economia interconectada. Essas tensões também aumentam a volatilidade dos mercados e a imprevisibilidade dos investimentos. E aí todos perdem.

DINHEIRO – Em abril, a China entrou com uma ação na OMC, na qual questiona os Estados Unidos contra as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump sobre o aço chinês e cerca de 1.300 produtos eletrônicos. Em que pé está esse processo no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da entidade?

AZEVÊDO – No início de abril, a China pediu consultas aos Estados Unidos no mecanismo de solução de controvérsias. Ambas as partes têm 60 dias para tentar chegar a um acordo. Caso não seja possível, o contencioso poderá seguir o seu curso normal.

“Só não tivemos uma guerra comercial em 2008 graças ao sistema multilateral de comércio”Pregão da Bolsa de Nova York: turbulência no mercado financeiro poderia ter feito ressurgir barreiras comerciais (Crédito:Spencer Platt/Getty Images/AFP)

DINHEIRO – Uma das funções da OMC é promover o diálogo. Qual a estratégia e os recursos da Organização para isso?

AZEVÊDO – Tenho conversado intensamente com todas as partes e alertado sobre os riscos decorrentes de uma escalada nas tensões comerciais. E tenho reiterado a importância de utilizar os instrumentos à disposição na OMC, como ocorreu depois da crise financeira de 2008. Aliás, só não tivemos uma guerra comercial em 2008 graças ao sistema multilateral de comércio. O sistema de soluções de controvérsias da OMC é um recurso que os países utilizam com frequência. Desde que a OMC foi criada, em 1995, mais de 500 disputas comerciais foram levadas ao mecanismo. E em 90% dos contenciosos, os resultados já foram implementados. Faz parte da dinâmica da OMC. Graças a esse sistema, nós temos conseguido evitar uma escalada política de conflitos e até mesmo guerras comerciais.

DINHEIRO – Na sua avaliação, o crescimento do comércio internacional foi benéfico ou prejudicial para a sociedade?

AZEVÊDO – O comércio internacional promoveu enormes avanços econômicos e sociais em todo o mundo. Ajudou a tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza. Mas, sem dúvidas, há restrições e distorções no comércio que precisam ser solucionadas.

DINHEIRO – Quais os desequilíbrios do comércio internacional atualmente?

AZEVÊDO – Do ponto de vista estrutural, os países vivem ciclos econômicos distintos. Por vezes com foco no consumo, e por vezes com foco nos investimentos. Essas diferenças de ciclo podem provocar situações de superávit ou de déficit comercial agudo ou crônico. Mas a maior parte das respostas para esses desequilíbrios econômicos se encontra nas políticas domésticas.

DINHEIRO – O comércio mundial cresceu 4,7% em 2017. Sem considerar um acirramento nas tensões comerciais, a expectativa da OMC era de que a expansão neste ano seria um pouco menor, de 4,4%. Esse número está mantido? Levando esse indicador em consideração, é possível mensurar qual seria o impacto de uma guerra comercial?

AZEVÊDO – Tudo depende do tipo de guerra comercial. Se ela for localizada, envolvendo apenas um ou dois setores. Ou se ela for generalizada. Podemos apenas imaginar alguns cenários mais simplificados. Por exemplo, se os países voltassem a praticar as mesmas tarifas comerciais que praticavam antes da existência do sistema multilateral de comércio, 60% das transações comerciais mundiais deixariam de existir. A economia mundial poderia sofrer uma contração de 2,4%. O impacto seria pior do que o da crise financeira de 2008.

DINHEIRO – Além da crise financeira de 2008, em que a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers chegou a balançar os alicerces do sistema financeiro global, o senhor se lembra de algum outro momento em que estivemos à beira de uma guerra comercial?

AZEVÊDO – O exemplo mais próximo dessa situação foi a dinâmica de tensões comerciais entre Estados Unidos e Japão nos anos 1980. O Japão emergia como nova potência econômica. As tensões começaram no setor automobilístico e aumentaram, o que levou a intensas negociações para tentar solucionar a questão. Conclusão, as partes chegaram a um entendimento e o comércio, se normalizou. Mas foi um período crítico. E um dos resultados mais importantes dessa crise foi a criação da própria OMC, em 1995.

DINHEIRO – O FMI divulgou um relatório em meados de abril com previsões otimistas sobre a economia, mas com alertas sobre as ameaças geopolíticas e protecionistas, que podem fazer “descarrilar prematuramente” a retomada econômica. A guerra comercial é a mais importante dessas ameaças, segundo o FMI. O senhor concorda com essa avaliação?

AZEVÊDO – O Fundo está muito preocupado com a escalada dessas tensões. Isso porque o comércio e o investimento são os atuais motores da retomada econômica – não mais o consumo. Adicionar incerteza ao ambiente de investimentos seria péssimo. E os primeiros efeitos já aparecem nos indicadores de curto prazo. Investidores – que haviam recuperado a confiança – começam a postergar seus investimentos.

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