Negócios

O otimismo do homem do aço

O cearense Vilmar Ferreira começou na roça, vendeu bebidas e criou uma empresa bilionária no setor siderúrgico. Agora, ele rivaliza com grandes grupos do mercado e se prepara para voltar a crescer em 2017

O otimismo do homem do aço

Ferreira, presidente: “Sempre apostei e continuarei apostando no mercado brasileiro” (foto: Felipe Gabriel)

Poucos setores da economia são tão lembrados por sobrenomes tradicionais quanto o de siderurgia. Os Gerdau, do conglomerado que leva seu nome, os Steinbruch, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e os Ermírio de Moraes, da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), estão aí para provar que este é um setor dominado por clãs mais do que conhecidos na indústria brasileira. Nos últimos anos, no entanto, um personagem menos popular tem chamado a atenção. Trata-se de Vilmar Ferreira, nascido no sertão nordestino e fundador do grupo Aço Cearense, com capacidade anual de produzir 1 milhão de toneladas e cujo faturamento foi de R$ 2 bilhões, em 2016.

Apesar do resultado bilionário, a empresa, líder nas regiões Norte e Nordeste, apresentou uma acentuada queda na receita do ano passado devido à crise. Ferreira, porém, promete reaver os 20% perdidos ainda em 2017. “Vamos recuperar as vendas e já estamos contratando 150 funcionários ”, afirma Ferreira. O otimismo de Ferreira é compreensível. Desde 2006, quando criou a divisão Siderúgica Norte Brasil (Sinobras), na cidade paraense de Marabá, a empresa dobrou de tamanho.

Atualmente, seus negócios se dividem em quatro empresas: a Aço Cearense Comercial, especializada na venda e importação do ferro, Aço Cearense Industrial, que produz tubos e perfis, além da Sinobras e Sinobras Florestal, de cultivo de eucalipto para geração de energia para suas fábricas. A comparação da Aço Cearense com as gigantes do setor é, evidentemente, simbólica quando confrontados os balanços. Embora tenha um resultado bilionário, a empresa está longe da receita de R$ 43,6 bilhões da Gerdau ou dos R$ 15,3 bilhões da CSN.

O mais notório, no entanto, é a capacidade de gestão e a própria trajetória de Ferreira. O empresário nasceu na pobreza em uma área rural do município de Marco, no interior do Ceará, e só conseguiu estudar até a sétima série porque precisava ajudar o pai na roça. Entrou no mercado formal de trabalho como distribuidor de bebidas. “Até hoje não gosto muito de ler”, admite ele. “Mas sempre me informo pela televisão e tenho uma equipe que traz as informações de que necessito.” Mais do que os seus principais concorrentes do setor, a Aço Cearense depende do desempenho do PIB brasileiro.

Enquanto gigantes como Gerdau e CSN buscam alento no mercado exterior, Ferreira não exporta e nem cogita essa possibilidade para a sua empresa. “O mercado brasileiro é grande o suficiente e não preciso ir para fora”, afirma. Não é o que enxergam os especialistas no setor de siderurgia. “Não percebemos um aceno do governo para fomentar a economia e aumentar o consumo de aço”, diz Marco Polo de Mello, presidente do Instituto Aço Brasil. Ao mesmo tempo em que aposta na recuperação da demanda interna, o empresário defende uma maior intervenção do Banco Central no câmbio a fim de valorizar o real frente às moedas estrangeiras.

Para ele, que nunca cursou uma universidade, mas que acredita entender do assunto mais do que muitos formados, a medida impactaria positivamente a inflação e permitiria uma redução mais rápida dos juros. “Todos os anos que o Brasil apresentou um bom desempenho econômico, o real estava mais forte”, justifica. A bandeira de Ferreira pela valorização da moeda brasileira é, também, conveniente para os negócios. A Aço Cearense não vende ao exterior, mas importa cerca de 50% de tudo que comercializa, grande parte para a construção civil. “Sempre apostei e continuarei apostando, na força do mercado brasileiro.”