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Henrique Meirelles é o Empreendedor do Ano 2016

Com larga experiência nos setores público e privado, o Ministro da Fazenda enfrenta a maior crise fiscal e econômica da história do Brasil. a pressão por resultados rápidos é um dos grandes desafios

Henrique Meirelles é o Empreendedor do Ano 2016

R$ 170,5 bilhões: É a meta de déficit primário do brasil em 2016, um recorde - “A PEC dos gastos é a primeira proposta de emenda constitucional controlando as despesas no Brasil desde a aprovação da Constituição em 1988” (foto: Sérgio Lima / IstoÉ Dinheiro.)

Quando aceitou o convite do presidente Michel Temer para comandar o Ministério Fazenda, em maio deste ano, Henrique Meirelles já sabia que os obstáculos seriam enormes. O primeiro deles era convencer nomes qualificados do setor privado a embarcar num projeto de curta duração (Temer terá pouco mais de dois anos de mandato). Em alguns encontros, segundo o relato de Meirelles à DINHEIRO, foi preciso gastar muita saliva. “Quando eu convidei e eles aceitaram, éramos um governo interino, que só foi efetivado em 31 de agosto”, diz o ministro. “Alguns demandaram um pouco mais de conversa para entender um pouco mais qual era o desafio.”

O principal desafio em questão é fiscal. Com uma meta de déficit primário de R$ 170,5 bilhões e uma economia em plena recessão, Meirelles aposta na força política do governo para reformar a Constituição e recolocar o País nos trilhos. Respeitado pelo mercado financeiro e pelo setor produtivo, Meirelles tem um grau de autonomia condizente com o cargo de homem forte da economia. Os contatos com o presidente Temer não são diários – ocorrem, em médias, duas vezes por semana. “É uma relação muito produtiva, objetiva e de bastante cooperação, de trabalho em conjunto”, diz o ministro. “O presidente tem dado apoio integral ao ajuste fiscal.”

Ao defender a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos gastos da União, o ministro demonstra, ao mesmo tempo, um carinho paterno pelo projeto de sua autoria e uma convicção absoluta de que a sua execução resultará em uma transformação profunda nas contas públicas. “É a primeira proposta de emenda constitucional controlando as despesas no Brasil desde a aprovação da Constituição em 1988”, diz Meirelles. “Isto é uma mudança de trajetória.” Por idealizar esse projeto e liderar a reforma da Previdência Social, Meirelles foi eleito EMPREENDEDOR DO ANO 2016 pela DINHEIRO (confira a entrega do prêmio aqui).

Aos 71 anos, o goiano formado em engenharia civil, que foi presidente do Banco Central nos dois mandatos de Lula, voltou a Brasília com um pique renovado para enfrentar todo tipo de pressão – a mais recente é pela adoção de um pacote de medidas que estimule a economia no curto prazo. Um dos segredos para encarar a rotina atribulada é uma dieta alimentar que prioriza folhas e verduras. O lazer, inclusive nos fins de semana, está em segundo plano. “Não sobra tempo, infelizmente, para cinema nem teatro”, lamentou Meirelles, enquanto se preparava para uma sessão de fotos em seu gabinete, no 5º andar da sede da Fazenda, em Brasília.

Sobre sua mesa, há dois monitores com indicadores financeiros e um tablet. Na sala ao lado, está fixado na parede um monitor maior, do tipo LED, que apresenta as últimas notícias econômicas e políticas em tempo real. Diante da necessidade de aprovação das PECs no Congresso, o ministro da Fazenda tem dedicado boa parte de sua agenda a encontros com parlamentares. “Eu fui a algumas reuniões importantes, como audiências públicas ou jantares organizados pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para conversar com deputados”, diz Meirelles, sem classificar a sua atuação de “corpo a corpo”. “E agora são as audiências no Senado.”

Ele reconhece que não basta as medidas serem corretas do ponto de vista técnico. É preciso obter êxito nas negociações, que são “um desafio político muito grande”, segundo suas próprias palavras. Em sua carreira, Meirelles angariou credibilidade internacional e larga experiência no setor privado, incluindo a presidência mundial do BankBoston, na década de 1990, e, até recentemente, a presidência do Conselho Consultivo da J&F, holding do grupo que detém as marcas Friboi, Seara, Vigor e Havaianas, além do Banco Original, Eldorado Brasil e Canal Rural, entre outros negócios.

O ministro fica orgulhoso quando lê ou ouve elogios à sua equipe econômica. Na Fazenda, há nomes respeitados como o do especialista em contas públicas Mansueto Almeida, o do ex-diretor do BC Carlos Hamilton e o do especialista em previdência Marcelo Caetano. Nas estatais, idem. Pedro Parente, na Petrobras, Maria Silvia Bastos Marques, no BNDES, e Paulo Caffarelli, no Banco do Brasil, foram escolhidos a dedo. Como executivo de sucesso, Meirelles sabe da importância de ter os melhores nomes nos cargos corretos. A três quilômetros de distância da sede da Fazenda está o prédio do Banco Central.

Para o cargo que conhece tão bem, Meirelles escolheu o então economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, a quem oferece plena autonomia operacional na execução da política de juros. Ao ser indagado sobre qual função é mais espinhosa – comandar o BC ou a Fazenda –, o ministro gentilmente tergiversa. “São atividades muito diferentes e com níveis de dificuldade diferentes”, afirma. Meirelles sabe que a maior batalha de todas será a reforma da Previdência Social (leia reportagem aqui). O tema é tão polêmico que tem gerado o envio espontâneo de e-mails da população ao ministro, que não deixa ninguém sem resposta.

O ministro desconversa quando é comparado a Fernando Henrique Cardoso, que se tornou presidente da República após uma gestão exitosa na Fazenda no governo Itamar Franco. Quem conhece Meirelles sabe que a ambição política é uma de suas características. Questionado se estaria preparado para receber e-mails com apelos para que seja candidato em 2018, respondeu: “Não, eu não estou preocupado com isso (risos). Eu estou preocupado, em primeiro lugar, em fazer a economia voltar a crescer.” A DINHEIRO insiste na pergunta e o ministro arremata: “Eu sou um atento recebedor de e-mails de críticas, de elogios, de apelos, do que for.”

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