Negócios

O caixeiro-viajante da governança

Liderada por Eduardo Marson Ferreira, ex-Airbus, a Fundação Ezute investe para aprimorar a gestão de projetos no setor público brasileiro

O caixeiro-viajante da governança

Inspiração: Eduardo Marson Ferreira, da Ezute, se espelha em entidades americanas como a Mitre e a Rand Corporation (foto: Claudio Gatti)

Em quinze anos no Airbus Group, Eduardo Marson Ferreira, 53 anos, se acostumou a dedicar boa parte do tempo às viagens de negócio. À frente da operação brasileira da empresa europeia e, posteriormente, da Helibras, controlada pelo grupo, o executivo calcula que, no período, a Europa foi seu destino em 150 oportunidades. Há um ano, a rotina de diferentes fusos horários ficou para trás, quando ele decidiu deixar a companhia, mesmo após um convite para assumir uma nova posição, na cidade de Toulouse. Depois de um período sabático, no qual se aprofundou nos estudos sobre governança corporativa, Ferreira está refazendo as malas.

O novo roteiro inclui uma peregrinação pelo Brasil e uma missão: transformar a Fundação Ezute, entidade sem fins lucrativos presidida por ele desde outubro, em uma parceira estratégica do setor público, especialmente em iniciativas que envolvam também as empresas privadas e as universidades. Na prática, a fundação mira duas etapas: o desenho dos projetos e o acompanhamento de sua execução. A entidade não se envolve na indicação dos parceiros.

Com o apoio de softwares desenvolvidos internamente, ela se concentra em assegurar que os requisitos inicialmente estabelecidos estão sendo seguidos pelos participantes. “Queremos ser um articulador independente e isento, que assegure a governança dos projetos”, diz Ferreira. “Somos autossustentáveis, o que nos dá neutralidade para cumprir esse papel.” Criada em 1997, a Ezute já desenhou e integrou tecnologias nos mais variados projetos – do Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia (Sivam) ao Bilhete Único, em São Paulo.

Toda receita gerada nessas iniciativas é, obrigatoriamente, reinvestida na operação. A inspiração para o novo salto veio de fundações dos Estados Unidos, como a Rand Corporation e a Mitre. Com status de agências independentes, elas atuam em iniciativas do governo americano. “O plano da Ezute trata de uma questão essencial para o Brasil, que á governança pública”, diz Jerson Carneiro, professor do Ibmec-RJ.

Para Ferreira, os escândalos de corrupção e a situação de penúria dos municípios e estados compõem um cenário propício para a sua proposta. “Existe uma conjunção de desafios orçamentários e um clamor da opinião pública por uma gestão mais eficiente e transparente”, diz. Ele destaca que o roteiro traçado para divulgar os benefícios desse modelo inclui bater, literalmente, nas portas de todos os níveis da esfera pública. “Na prática, vamos ter que ser como caixeiros-viajantes.”