Negócios

Novos tempos na Camargo

Os netos de Sebastião Camargo, o lendário fundador de um dos maiores grupos industriais do País, assumem o controle da empresa e começam a imprimir seu estilo

Novos tempos na Camargo

Homem de visão: Sebastião Camargo liderou a companhia nas maiores obras do Brasil (foto: Serdar Yorulmaz

Nos anos 1960, quando o governo do general Emílio Garrastazu Médici iniciou a construção da ponte Rio-Niterói, uma ambiciosa obra de 13,29 quilômetros sobre a Baía de Guanabara, o empresário Sebastião Camargo ficou ressabiado. Sua empresa tinha perdido a licitação da obra, na época a terceira maior ponte do mundo, e não havia mais o que fazer. Mas, diante das mortes de pedreiros e dos sucessivos desmoronamentos, o general suplicou para Sebastião Camargo tomar conta da construção.

Camargo, um homem que havia cursado até o terceiro ano do primário, foi direto ao ponto: “Pois não, senhor presidente, mas vou fazer do meu jeito. Vou começar derrubando tudo e partir do zero”. Com esse modo de fazer negócios, dono de um pulso firme e um estilo centralizador, ele transformou uma pequena construtora, fundada em 1939, no centro de São Paulo, em um dos maiores conglomerados industriais do Brasil, com tentáculos em setores como o têxtil, o de energia, o de concessões rodoviárias, o de incorporação imobiliária, entre outros.

Após a sua morte, em 1994, a participação da família no dia a dia do grupo perdeu força. As três filhas de Sebastião não demonstraram interesse em atuar na empresa, o que abriu espaço para que os três genros assumissem o comando. Agora, a Camargo Corrêa está resgatando suas origens, com a ascensão dos netos e herdeiros diretos do lendário empresário. Essa terceira geração, personificada por André Pires Oliveira Dias, Marcelo Pires Oliveira Dias e Fernando Augusto Camargo de Arruda Botelho, começa a ditar os novos rumos da gigante. Eles têm a missão de escolher a dedo os executivos que comandarão as empresas do grupo, dono de companhias como Intercement, CCR, Santista, Construtora Camargo Corrêa, Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário e Estaleiro Atlântico Sul.

O movimento acontece em um dos momentos mais delicados da história da Camargo Corrêa, uma das protagonistas dos escândalos das operações Castelo de Areia, em 2009, e agora da Lava Jato. Sob os desdobramentos das investigações, agravados pelo cenário de retração econômica, o grupo fechou 2015 com uma receita de R$ 21,4 bilhões, o que representou uma queda de 17,6% na comparação com 2014. Sua dívida acumulada é de R$ 24 bilhões. Isso a obrigou a se desfazer de valiosos ativos. Em um período de um ano, a empresa vendeu a sua participação na Alpargatas, por R$ 2,7 bilhões, em novembro de 2015; e a sua fatia na CPFL, em setembro passado, por R$ 5,9 bilhões.

Cercados por uma bolha – eles não dão entrevistas e não se deixam fotografar –, os netos de Sebastião Camargo ganharam força há dois anos, com a nova composição do conselho de administração. Além deles, fazem parte do quadro, Claudio Borin Guedes Palaia e Marcelo Gomes Condé, maridos de duas netas, além do executivo de mercado Luiz Felipe Kok de Sá. “A postura deles é diferente. Não há um vínculo específico com cada uma das operações do grupo. É uma nova proposta de gestão”, afirma uma pessoa próxima à empresa. “Essa nova geração delega mais.

Os herdeiros estão procurando dar mais autonomia a cada uma das empresas da holding”, diz. Um exemplo dessa postura foi dado na terça-feira, 3, quando a Camargo Corrêa anunciou o alemão Heinz-Peter Elstrodt como novo presidente do conselho da holding. Com uma passagem de mais de 32 anos pela consultoria McKinsey, na qual atuou como presidente para a América Latina, o executivo substituiu Vitor Hallack, que estava há dez anos no cargo. A Camargo ressaltou que o anúncio concluiu a migração de um modelo de grupo empresarial para uma holding gestora de um portfólio de investimentos, responsável pela estratégia de longo prazo e alocação de capital.

“As empresas e seus respectivos conselhos têm a responsabilidade de definir as diretrizes estratégicas para atingir seus objetivos de negócios”, informou. A bagagem profissional de Elstrodt, que possui experiência em empresas familiares, foi bem recebida pelo mercado. Mas as fontes ouvidas pela DINHEIRO ressaltaram que o executivo precisa fortalecer a governança corporativa e assumir uma postura diferenciada daquela que a posição tradicionalmente exige.

“Ele não pode ser um presidente de conselho convencional, restrito ao gabinete e à intermediação das relações com os acionistas. É preciso colocar a mão na massa”, diz José Renato de Miranda, especialista em gestão familiar. Ele destaca que os sinais enviados ao mercado pela gestão dessa nova geração da família Camargo são positivos. “Nesse momento, o sobrenome deve ficar em segundo plano e inserido num processo mais amplo de transformação e profissionalização”, afirma. “Os tempos são outros. O mundo em que a Camargo se transformou em uma gigante não existe mais.”

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Sob suspeita

Um dos principais alvos das investigações recentes sobre corrupção, a construtora Camargo Corrêa voltou aos holofotes na semana passada. O motivo foi o desligamento, em setembro, de Flávio Rimoli, vice-presidente de governança e compliance da construtora. Ele havia sido contratado em junho de 2015 para liderar a nova área. No mercado, a saída foi tratada como demissão. O motivo teria sido o suposto envolvimento de Rimoli, ainda como executivo da Embraer, em um esquema de pagamento de R$ 3,5 milhões de propina para a venda de 8 aviões da fabricante brasileira ao governo da República Dominicana.

Procurada pela DINHEIRO, a Camargo Corrêa afirmou que Rimoli foi contratado como parte da equipe de Artur Coutinho que, na época, assumiu a missão de reestruturar a construtora e preparar um novo sucessor. “Em setembro, Décio Amaral foi escolhido como novo presidente da companhia e, como já era previsto, o time formado por Artur Coutinho, incluindo Flávio Rimoli, deixou a companhia”, afirmou a empresa à DINHEIRO.