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Volta ao lucro

Favorecida pela queda do dólar e por um maior controle dos custos, a petroleira tem seu primeiro resultado positivo após três trimestres de perdas. É uma boa notícia, mas ainda há um longo caminho até a recuperação total

Volta ao lucro

Fé na recuperação: vista do Cristo Redentor a partir de um posto de gasolina, no Rio de Janeiro. A Petrobras apresentou bons indicadores no trimestre (foto: Vanderlei almeida (afp)

P rincipal empresa brasileira e uma das maiores petrolíferas do mundo, a Petrobras viu seu papel de orgulho nacional ser relegado a um segundo plano nos últimos tempos, quando passou a ser o centro dos escândalos de corrupção que deram origem à Lava Jato. Em meio aos desdobramentos da operação e aos reflexos de anos de má gestão, a estatal encerrou 2015 com um prejuízo líquido de R$ 34,8 bilhões e uma dívida de R$ 492,8 bilhões. Na quinta-feira, 11, no entanto, a companhia interrompeu o ciclo de más notícias e trouxe um alento a investidores e acionistas. A boa nova veio na divulgação do balanço referente ao segundo trimestre de 2016, período no qual a Petrobras apurou um lucro líquido de R$ 370 milhões.

Apesar de ficar bem abaixo da estimativa de analistas, que projetavam ganhos na faixa de R$ 2,09 bilhões, e da queda de 30,3% na comparação com igual período de 2015, a cifra representou o primeiro resultado positivo da Petrobras após três trimestres consecutivos de perda. Nas primeiras horas do pregão da sexta-feira, 12, as ações preferenciais da companhia estavam sendo negociadas a R$ 12,27 na BM&F Bovespa, uma valorização de 1,4% sobre a cotação do fechamento no dia anterior.

Na apresentação do resultado, a Petrobras destacou indicadores animadores, favorecidos por questões como a queda do dólar e o maior controle de custos. Entre abril e junho, a dívida bruta recuou 19% em relação ao fim de 2015, para R$ 397,8 bilhões. Já a dívida líquida ficou em R$ 332,4 bilhões, 15% inferior, na mesma base de comparação. A empresa também ressaltou o crescimento de 7% na produção total de petróleo e gás natural, o aumento de 14% nas exportações de petróleo e derivados, além do fluxo de caixa livre positivo pelo quinto trimestre seguido, de R$ 10,8 bilhões. Em contrapartida, o lucro abaixo do esperado foi atribuído a baixas contábeis, não recorrentes, relacionadas aos ativos do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e ao Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário (PIDV), que já contabiliza a adesão de 5 mil funcionários.

À parte da avalanche de números, os analistas ouvidos pela DINHEIRO apontam como positivas algumas medidas e políticas que estão sendo implementadas pela Petrobras. “Apesar de recente, a entrada de Pedro Parente na presidência já trouxe bons reflexos na gestão”, diz Adriano Pires, consultor na área de petróleo e gás. “Só ele teria coragem de fechar o acordo de Carcará, que foi simbólico dessa nova fase”, afirma, referindo-se à venda de 66% da participação da Petrobras no bloco exploratório BM-S-8 para a petrolífera norueguesa Statoil, por US$ 2,5 bilhões. Anunciado no fim de julho, o acordo inclui parte do campo de pré-sal de Carcará, na Bacia de Santos. O negócio integra a meta da Petrobras de vender US$ 15 bilhões em ativos neste ano.

Para Philip Soares, analista da corretora Ativa Investimentos, o fim da exclusividade de exploração do pré-sal pode ser benéfico para a estatal, especialmente em um momento pouco propício para investimentos. “Nesse formato, a Petrobras poderá participar de mais projetos, sem a necessidade de grandes aportes”, diz o analista, que também enxerga boas perspectivas sob a nova gestão. “A empresa está intensificando frentes como o fortalecimento da governança, o corte de custos e a venda de ativos com tíquetes maiores.”

No entanto, apesar da perspectiva mais otimista, os analistas ressaltam que ainda é cedo para sacramentar uma retomada. Eles apontam que só será possível ter uma visão mais clara e realista sobre o futuro da empresa a partir da apresentação do plano estratégico de negócios de Parente, prevista para outubro. “Não podemos ser ufanistas e afirmar que o pior já passou”, afirma Pires. “A dívida segue muito elevada e ainda há muita estrada pela frente.”