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Investimento que vale ouro

Conheça a autêntica parceria público-privada que levou Rafaela Silva ao topo do pódio no Rio de Janeiro

Investimento que vale ouro

Rafaela: vitória teve superação individual, apoio do Estado e também da iniciativa privada (foto: João Castellano (agência isto é))

Rafaela Silva é, como vários heróis e heroínas brasileiros, improvável. Conjugados, a origem – cresceu na Cidade de Deus, um dos bairros mais pobres e violentos do Rio de Janeiro -, a cor da pele, a orientação sexual e o temperamento explosivo facilmente fariam dela mais uma das Silvas a engrossar as estatísticas da violência urbana. Rafaela, porém, ganhou duas vezes na loteria nesta vida. A primeira foi por ter uma família estruturada. Para controlar o gênio forte da filha, Zenilde Lopes da Silva a encaminhou para uma academia de judô na vizinhança de casa. A segunda foi quando o judoca e medalhista olímpico Flávio Canto e o Instituto Reação cruzaram seu caminho.

Um dos capítulos mais importantes da narrativa que levou Rafaela ao pódio é o de uma parceria público-privada. Unidos, o apoio estatal – Rafaela é sargento da Marinha e também recebe uma bolsa do governo federal –, e o trabalho do Reação renderam-lhe o ouro olímpico. “Começa-mos como todos começam, com boa vontade e nenhuma organização”, diz o empresário carioca Luciano Gomide, diretor-executivo do Instituto. “O Flávio resolveu ensinar judô para as crianças na da Rocinha e eu e alguns amigos nos cotizamos para ajudar.”

Lançada no ano 2000, a iniciativa teve vida curta devido à falta de financiamento estatal. Em 2003, porém, Canto começou a estruturar o Reação, ainda na base da ação entre cinco amigos, Gomide entre eles. Só seis anos depois os participantes buscariam profissionalizar a gestão. “Quando começamos, atendíamos 60 crianças e ainda dava para improvisar; agora, que são cerca de 1.200, temos de ter gestão profissional.”

Nesse momento entrou em cena mais um amigo, José Eduardo Louzada de Araújo, um dos sócios da tradicional empresa de gestão de recursos Gap. “O esporte tem uma capacidade imbatível de modificar vidas, transformar pessoas sem oportunidades em cidadãos, algo que é mais relevante em termos sociais do que o ouro olímpico”, diz ele. Araújo quis ajudar, e fez uma análise de mercado financeiro: o principal problema do Reação não era apenas a escassez de recursos, mas a falta de previsibilidade. “Não havia um fluxo de caixa regular, e isso tornava muitas iniciativas inviáveis”, diz ele. “Às vezes, o Instituto não conseguia enviar atletas para uma competição em outra cidade por falta de dinheiro.” A solução encontrada pela Gap foi criar um fundo de investimentos, o Gap Reação Firf. Relativamente pequeno, com R$ 8,8 milhões em patrimônio, e taxa de administração de 0,3% ao ano, o Reação Firf é muito parecido com outros fundos de renda fixa. A  diferença, fundamental, é que toda a taxa de administração é entregue ao Reação. “A Gap não ganha nada”, diz Araújo. “É muito difícil convencer os investidores de que tem gestor de recursos trabalhando de graça, mas é o que acontece.”

Gomide, do Reação, diz que a iniciativa da Gap é um ippon nas dificuldades. Ele explica que boa parte dos recursos captados chega com base em incentivos fiscais da Lei do Esporte. “É um dinheiro que depende de aprovação estatal, e o processo é burocrático”, diz ele. “Não permite, por exemplo, que o Instituto contrate um técnico de primeira linha.” Já o dinheiro da Gap, além de chegar com regularidade, não tem esses entraves. “Nossa esperança é convencer mais profissionais do mercado financeiro a lançarem iniciativas parecidas.”

A estruturação e a adoção de métodos gerenciais garantiu a transparência e a demonstração das contas, o que permitiu atrair outros apoiadores, como Vale, IBM, Oscar Iskin, Qualicorp, Mattos Filho, Icatu, Estácio, além da empresa de logística e navegação Wilson, Sons, que apoia o Reação há quatro anos. “Nossa linha de investimento está focada em projetos, crianças e adolescentes em situação de risco social”, diz Angela Giacobbe, gerente de Sustentabi-lidade da Wilson, Sons.