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O negócio é desapegar, morô?

O gaúcho Marco Aurélio Raymundo, o Morongo, transformou a Mormaii em uma empresa avaliada em R$ 1 bilhão. Mas, para continuar crescendo, decidiu repartir tudo com seus funcionários

O negócio é desapegar, morô?

O estilo morongo: “Fico honrado com as propostas de compra, mas não posso aceitar que uma gestão financista assuma a Mormaii e destrua a alma da empresa” (foto: Rodrigo Dionisio/Frame)

O médico e surfista gaúcho Marco Aurélio Raymundo, mais conhecido como Morongo, personifica todas as características opostas às de um empresário de sucesso – exceto pelo sucesso. Veste a primeira roupa que aparece na frente, sem se importar se a camisa é listrada e o short, de bolinha. Nunca teve um telefone celular, e não pretende comprar um. Não tem computador, sala própria ou escritório. Uma figura, digamos, que não passa despercebida na multidão.

Médico por formação e surfista por paixão, mudou-se de Porto Alegre para a pequena Garopaba, em Santa Catarina, na década de 1970, e criou por necessidade própria – para se proteger do frio enquanto pegava onda – a grife de artigos para surfe Mormaii. Mas sua biografia de empreendedor que começou do zero e construiu uma grande empresa não seria muito diferente da história de outros nomes do meio corporativo se não fosse outro exótico detalhe: ele está doando a Mormaii, avaliada em R$ 1 bilhão pelo BTG Pactual, a alguns de seus funcionários.

“Não quero nada para mim. Não vou levar nada”, diz Morongo, hoje com “60 e poucos” anos. “Vou passar 100% das empresas aos funcionários e ficar com uma ‘beirada’ em royalties da marca, morô?”, acrescentou o empresário, conhecido pela generosidade e pelo vocabulário, geralmente proibido para menores. Sob a ótica dos negócios, a iniciativa de Morongo é, de fato, curiosa. A Mormaii vai faturar cerca de R$ 350 milhões neste ano, cifra semelhante à contabilizada em 2015. A marca está nas vitrines de 70 países, estampada em mais de 6,5 mil produtos, desde escovas de dente, bicicletas e capacetes até coleiras para cachorro.

Atualmente, são 43 empresas licenciadas. Então, fica fácil entender porque a Mormaii tem despertado o interesse de investidores. Assim como o BTG Pactual, o banco J.P. Morgan chegou a propor a compra da empresa, deixando a Morongo uma fatia no capital e um assento no conselho de administração. “Fico honrado com as propostas de compra, mas não posso aceitar que uma gestão financista assuma a Mormaii e destrua a alma da empresa, morô?”, diz. “Além disso, eu teria que morar em Nova York. Não quero viver naquela cidade.”

A iniciativa de Morongo, evidentemente, não é apenas um gesto de bondade. “É uma forma de trabalhar menos e ganhar mais”, diz. Seja qual for a motivação, o estilo peculiar de executar sua sucessão na Mormaii está agradando seus funcionários mais próximos. Um dos que receberam a maior parte da Mormaii foi o catarinense Carlos Casagrande, 39 anos. Em 2012, Morongo transferiu para ele a fábrica de roupas de neoprene, aquelas que parecem borracha colada ao corpo, produto que mais identifica a Mormaii junto aos consumidores.

A fábrica vendia R$ 10,5 milhões por ano. Passou a faturar R$ 24,5 milhões, dois anos depois. “A condição era dobrar a produção. Cumprimos o combinado”, disse Casagrande. Assim como faz Morongo, Casagrande incluiu outros funcionários como sócios, o que, segundo ele, aumentou o comprometimento e a produtividade. Outro que recebeu doações de Morongo foi o designer Carlos Carpinelli, 41, surfista desde os 13 anos, que cuidava do departamento de marketing da empresa. Desde 2005, dentro dos portões da Mormaii, ele comanda a MXM, que se tornou a maior agência de publicidade de Santa Catarina, com 42 clientes.

Junto com outros três sócios, além de desenvolver toda estratégia de propaganda da Mormaii, elabora a criação de embalagens até campanhas que vão para a televisão, sites e revistas, atende aos franqueados, empresas licenciadas e clientes externos. “Agora, pensamos como empresa, não como funcionários que fazem parte de um departamento”, afirma Carpinelli. O executivo Robson Amorim, que comandava a divisão Mormaii Franchising, agora é dono da A33 Gestão de Franquias.

Já a responsável pelo departamento de comércio exterior, Jacqueline Mendonça, é dona da Integrated Business Solution (IBS). Como manda a cartilha dos desapegados, Morongo não revela em detalhes quanto recebe em royalties nem qual o tamanho de sua fortuna – embora seja possível imaginar pela mansão onde vive, seus três helicópteros particulares e pelo barco de 70 pés que dará volta ao mundo no ano que vem.

Sabe-se, no entanto, que os licenciados pagam cerca de 6,5% das vendas ao empresário pelo uso da marca, dinheiro suficiente para garantir sua tranquilidade financeira, e a dos dois filhos e dos três netos. Hoje em dia, as principais fontes de receita são originadas pela venda de chinelos (Grendene), relógios (Technos), óculos (JR-Adamver), bicicletas (Free Action) e roupas (AMC), dona de marcas como Colcci, Forum, Triton e Tufi Duek. Além dos royalties, Morongo ainda detém participsação entre 5%, como a fábrica de óculos, e 25%, na agência MXM. Nos próximos anos, no entanto, ele pretende se desfazer de tudo. Tudo, não. “Só quero ter a marca. O resto, pode levar, morô?”