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O sócio de US$ 2 trilhões

A entrada do fundo Saudita Salic no conselho do frigorífico Minerva cria novos horizontes para a empresa brasileira no Oriente Médio. Para o país árabe, é também uma chance de se ver à frente do Irã, seu maior rival na política

O sócio de US$ 2 trilhões

Novos tempos no reino saudita o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, anunciou em abril que o país, maior produtor de petróleo do mundo, vai diversificar seus negócios (foto: Erin A. Kirk-Cuomo)

No dia 25 de abril, o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, fez um importante pronunciamento à nação: o segundo maior país árabe passará a diversificar seus investimentos. O petróleo, que hoje responde por cerca de 90% do PIB saudita, já não é mais a prioridade. A ambiciosa ideia é se ver livre da dependência do “ouro negro” até 2020. Para isso, foi criado um fundo de investimentos, o Public Investment Fund (PIF), que concentrará ativos de nada menos do que US$ 2 trilhões. O valor, de fazer inveja a Ali Babá, é suficiente, por exemplo, para comprar as quatro companhias mais valiosas do planeta, listadas em bolsa: Apple, Google, Microsoft e Berkshire Hathaway – e sobraria um troco.

Trata-se de um importante movimento que deve ter consequências no mundo inteiro. E os reflexos dessa nova diretriz já começam a ser sentidos por aqui. No dia 29 de abril, quatro dias depois do anúncio do rei, dois importantes executivos árabes estiveram no Brasil para sacramentar uma negociação com o frigorífico Minerva, terceira maior empresa de carne bovina do País, com uma receita de R$ 9,5 bilhões no ano passado.Abdullah Aldubaikhi e Mohammed Abdulaziz AlSarhan, respectivamente, CEO e membro do conselho do fundo saudita Salic, focado no mercado do agronegócio, assumiram duas cadeiras no conselho da companhia.

Uma terceira vaga está reservada para outro executivo saudita, o vice-presidente de investimentos do Salic, Salman Bínseíadan. “Nosso objetivo é ganhar dinheiro, mas há um aspecto estratégico no negócio, que visa trazer maior segurança alimentar ao país”, afirmou Aldubaikhi, o CEO. “Inicialmente, vamos montar uma operação de distribuição na Arábia Saudita para, posteriormente, pensarmos em outros mercados na região.” A entrada dos sauditas no conselho da empresa é fruto de um investimento de R$ 750 milhões, feito em dezembro ano passado, que garantiu ao Salic uma participação de 20% na companhia.

Com isso, e após um aumento de capital, o fundo se tornou seu segundo maior acionista, atrás da VDQ Holdings, pertencente à família Vilela de Queiroz, fundadora do Minerva, com 26,3%. A BRF, maior processadora de alimentos do Brasil, teve sua participação no frigorífico reduzida de 15% para 12%, perdendo suas cadeiras no conselho. Esse foi o primeiro investimento do Salic no País, mas não deve ser o único. “Estamos em processo de conclusão de um negócio na área de grãos”, afirmou Aldubaikhi. “Só não podemos revelar ainda.”

O apetite saudita tem como pano de fundo o anúncio feito pelo rei Salman. O Salic é controlado 100% pelo PIF, o fundo soberano saudita. Ou seja, possui acesso a US$ 2 trilhões em ativos. “Claro que existem outras prioridades, mas dinheiro não é um problema”, disse AlSarhan. Do lado do Minerva, mais importante do que o volume de dinheiro, são as oportunidades estratégicas. “A América do Sul e a Arábia Saudita possuem economias complementares”, afirma Fernando Galletti, presidente da companhia. “Importamos fertilizantes e petróleo, que os sauditas produzem.

Já o que nos torna competitivos é a água. Por causa dela, somos um dos líderes mundiais em commodities agrícolas.” As vendas externas representam 75% da receita do Minerva. Em 2015, o volume exportado chegou a 234,6 mil toneladas. O Oriente Médio respondeu por 21% das exportações, ante 16% no ano anterior, o que fez da região o segundo maior mercado do frigorífico, atrás apenas da Ásia, com 24%. A expectativa é de que o mundo árabe ultrapasse os mercados asiáticos. Maior produtora de petróleo do planeta, com reservas estimadas em 268 bilhões de barris – a segunda maior do mundo, perdendo apenas para a Venezuela –, a Arábia Saudita é uma das maiores forças econômicas globais.

Somente nos Estados Unidos, calcula-se que os sauditas tenham investimentos de US$ 750 bilhões, incluindo participações em diversas companhias, como Citigroup, TimeWarner, Twitter e Apple. Há, no entanto, outra força econômica oriental que vem forçando o reino, um dos países mais conservadores do mundo islâmico, a buscar novos horizontes: o Irã. “Desde o acordo nuclear assinado com os Estados Unidos, em julho do ano passado, os iranianos ganharam espaço na região, pressionando os sauditas”, afirma Jorge Mortean, professor de relações internacionais da faculdade Faap, de São Paulo.

A rivalidade histórica tem contornos políticos e econômicos. Os dois países disputam a posição de nação hegemônica no Oriente Médio, sendo que os iranianos têm a seu favor um mercado pujante e em crescimento, formado por uma população de 77,45 milhões de habitantes, ante 28,83 milhões de pessoas na Arábia Saudita. O PIB per capita dos sauditas, no entanto, é cinco vezes maior, ainda que as riquezas do país árabe estejam muito concentradas na elite dominante: US$ 25 mil contra apenas US$ 4,7 mil no país persa. No campo geopolítico, as duas potências islâmicas estão envolvidas em conflitos na Síria, que também envolve a Rússia e os Estados Unidos, e no Iêmen.

Em se tratando de proteína animal, o Irã tem uma importância maior para o Brasil. No ano passado, ele foi o sexto maior importador de carne bovina brasileira, comprando 97 mil toneladas, três vezes mais do que os Estados Unidos, por exemplo. O grande parceiro dos iranianos, nesse mercado, é o JBS. A empresa não divulga dados de exportações separados por países, mas a África e o Oriente Médio respondem por 14% das suas vendas externas. Antes de fechar com o Minerva, o Salic conversou com a empresa da família Batista sobre a possibilidade de entrar em seu capital.

Um executivo a par das negociações disse à DINHEIRO que as conversas não avançaram porque os sauditas tinham intenção de participar mais ativamente da tomada de decisões, o que demandaria investimentos maiores do que os R$ 750 milhões aportados no Minerva. Também pesou contra o negócio, diz essa mesma fonte, o fato do JBS ser um dos maiores produtores mundiais de carne suína, cujo consumo é proibido pelas tradições islâmicas. Segundo AlSarhan, o fundo ainda cogitou investir na BRF, que tem forte presença no Oriente Médio, operando uma fábrica em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.

“A opção pelo Minerva se deu por conta de números melhores e índices de governança mais elevados”, diz AlSarhan. Em nota, a BRF afirmou que “agindo no melhor interesse do Minerva, aprovou o aumento de capital que foi subscrito pela Salic.” O frigorífico, diz o comunicado, “continua sendo um importante fornecedor de carne bovina para a produção de itens comercializados no varejo e food service.” Mesmo tendo perdido as cadeiras no conselho, a dona da marca Sadia segue como uma investidora relevante e deve se beneficiar dos aportes árabes. Segundo o professor Mortean, toda essa movimentação mostra que o Brasil está bem posicionado para aproveitar as oportunidades que estão surgindo na região, tanto do lado saudita quanto do iraniano.

“Morei por mais de uma década no Irã e no mundo árabe e posso afirmar que o Brasil tem muito boa receptividade por lá”, diz o especialista. Marcado pela violência das guerras (muitas delas desnecessárias), o Oriente Médio é um importante destino de exportações brasileiras, já tendo respondido por mais de 10% da balança comercial do País, na década passada. “Estamos prevendo avanços sociais e econômicos em toda a região”, diz Galletti. “Toda vez que isso acontece, o mercado de carne é um dos primeiros a se beneficiar.” Bom para árabes, persas e brasileiros.