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Drama sem fim

Refugiados se tornam moeda de troca nas negociações entre Turquia e União Europeia, agravando ainda mais a crise humanitária no continente. Enquanto isso, empresas se mobilizam para evitar um colapso social

Drama sem fim

À espera de um socorro: família síria monta barraca no centro de Istambul, ao lado de muralha construída pelos romanos há mais de mil anos. Campos de refugiados estão superlotados (foto: Foto: AFP PHOTO / BULENT KILIC)

Durante mais de 1.500 anos, a região de Sultanahmet, no centro histórico de Istambul, na Turquia, foi palco de grandes batalhas e conquistas dos impérios bizantino, romano e otomano. Com suas mais de 160 mesquitas, a maior concentração de templos islâmicos por metro quadrado no mundo, o distrito abriga também os mais antigos centros comerciais em atividade no planeta, como o tradicional Grand Bazaar, inaugurado no ano de 1461. Por toda parte é possível observar traços bem conservados da arquitetura concebida por sultões, reis e imperadores da cidade, que durante séculos foi a poderosa Constantinopla. No entanto, a história de Sultanahmet e da própria Istambul começa a ganhar um novo e dramático capítulo.

Quase metade dos 2,7 milhões de refugiados sírios no País está espalhada pela cidade – em trânsito para outras partes da Europa ou abrigada à espera de uma ajuda que, por enquanto, chega a conta-gotas. “A vida dos refugiados na Turquia e em outras partes da Europa é desumana”, contou à DINHEIRO o sírio Lewand Arafat, que conseguiu trabalho em uma loja de doces no centro de Istambul depois de ser obrigado a deixar o curso de medicina na Universidade Alfurat, em Raqqa, um dos redutos do Estado Islâmico no Norte da Síria. “Além das dificuldades em conseguir um abrigo e um emprego, vivemos com medo de integrantes do Estado Islâmico, infiltrados entre nós.”

A situação dos refugiados ganhou contornos ainda mais angustiantes na semana passada, depois que o presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, oficializou ao líder americano Barack Obama a proposta de construção conjunta de uma cidade no Norte da Síria, com o objetivo de devolver parte dos refugiados que ocupam ruas, praças, estações de trem e monumentos históricos na Turquia – cenário que remete aos tempos de grande fluxo migratório durante o Holocausto. O local onde se planeja erguer a cidade possui 4,5 mil km², entre Yarabulus e Azaz, e teria infraestrutura e segurança garantidas por forças internacionais. No maior dos 24 campos de refugiados da Turquia, o de Suruç, já começa a faltar água e mantimentos. 

Com capacidade para 265 mil pessoas, os campos atingiram a marca de 400 mil nesta semana. “Precisamos tomar uma decisão rápida e não queremos ver em nossas fronteiras o Estado Islâmico e nem o regime sírio”, alegou o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, em entrevista ao jornal Hürriyet, com sede em Ancara. O ditador sírio Bashar al-Assad ainda não se opôs à ideia, mas afirmou que os termos deverão ser definidos em sintonia com seu governo.

A definição de um novo futuro para os refugiados poderá ser acelerada nas próximas semanas, diante da estratégia definida pelo governo turco nas negociações com a União Europeia. Para manter os refugiados em seu território, a Turquia exige que o bloco europeu aceite o país como membro, permitindo que os cidadãos circulem pelo continente sem a necessidade de visto, algo pleiteado há mais de 15 anos. A Turquia também receberia benefícios: uma ajuda financeira de pelo menos € 3 bilhões dos países mais ricos, especialmente da Alemanha e da França. 

“Os turcos têm uma oportunidade fantástica de conquistar o status de membro da União Europeia graças aos refugiados que estão em todas as cidades do país”, disse Onaral Haznedar, professor de ciências políticas da Universidade Bogaziçi, em Istambul. “Embora pareça uma espécie de chantagem, a troca de refugiados por benefícios será boa para todas as partes envolvidas, especialmente para as famílias que buscam recomeçar a vida.” A proposta turca inclui uma troca chamada “um por um”, para cada novo cidadão da Síria aceito em solo turco, a União Europeia receberia um sírio que já está na Turquia e que registrou pedido de asilo. O presidente do conselho europeu, Donald Tusk, acredita que haverá um acordo até o fim da semana que vem.

FORÇA-TAREFA EMPRESARIAL Enquanto os governos negociam o destino dos quase 10 milhões de refugiados em território europeu, segundo cálculos da ONU, algumas empresas privadas tentam amenizar o desespero das famílias que perderam tudo e buscam um novo teto. Gigantes como a suíça Nestlé, a holandesa Unilever e a varejista sueca Ikea, além das americanas Uber e Airbnb, estão colocando em prática diversas iniciativas em mais de 20 países.

Na Alemanha, país que recebeu mais de 800 mil refugiados desde o agravamento da guerra na Síria, o maior contingente de toda a Europa, uma campanha estimulada pela chanceler Angela Merkel incentiva a contratação de imigrantes. As maiores companhias alemãs, como Daimler (dona da marca Mercedes-Benz), Siemens, Bosch, Deutsche Telekome a fabricante de pneus Continental criaram departamentos exclusivos de recrutamento e treinamento de sírios e afegãos. Executivos e empresários também têm demonstrado sensibilidade à causa dos que fogem do horror da guerra. Na primeira semana deste mês, segundo a Agência de Refugiados das Nações Unidas (UNHCR), US$ 17 milhões em doações foram depositados nas contas da entidade abertas para ajudar os refugiados. 

Muitos empresários não têm medido esforços. É o caso de Naguib Sawiris, o magnata egípcio com fortuna de US$ 3 bilhões, dono de operadoras de telefonia como Orascom Telecom e sócio da italiana Wind, que se ofereceu para comprar uma ilha grega e entregá-lo como um abrigo temporário para até 200 mil pessoas. “A crise dos refugiados é uma chance para mostrarmos ao mundo que, mais importante dos que os interesses de cada país, de cada religião, de cada afinidade política, existem pessoas, seres humanos, famílias”, afirmou Sawiris, em entrevista à tevê estatal egípcia, ERTU, na quinta-feira 10. “Eles valem mais do que tudo.”