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A bola fora do doping

Acusada de usar substância ilegal, a tenista russa Maria Sharapova pode perder mais de R$ 110 milhões em patrocínios de marcas como Nike, Porsche e TAG Heuer

A bola fora do doping

Match point: Empresas não perdoam falha da atleta e retiram patrocínios numa tacada só (foto: Fotos: AP Photo/Vincent Thian, KEVORK DJANSEZIAN, Renato Velasco/ AG. ISTOE, Mike Blake / Reuters, OLIVIER HOSLET, divulgação, RON KUNTZ)

A costumada a despertar olhares atentos por sua performance dentro das quadras e por sua beleza fora delas, a tenista russa Maria Sharapova voltou a ser o centro das atenções na segunda-feira 7, durante uma coletiva de imprensa convocada em Los Angeles. O foco, no entanto, não foi o tênis. Aos 28 anos, ela acaba de ter sua notável carreira posta em risco em razão de um exame antidoping realizado no Aberto de Tênis da Austrália, em janeiro. O laudo médico acusou o uso de Meldonium, que entrou na lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada) em janeiro deste ano.

A informação caiu como uma bomba, principalmente na relação da esportista com seus patrocinadores. Sem avisá-los previamente, Sharapova acompanhou uma debandada de seus apoiadores. A montadora alemã Porsche, por exemplo, disparou na mesma velocidade pela qual seus carros são conhecidos, rompendo o contrato enquanto aguarda novas informações. Além da montadora, a relojoaria suíça TAG Heuer anunciou que não renovaria e, em comunicado oficial, a Nike informou a interrupção – não o cancelamento, por enquanto – do contrato com a atleta. “Estamos tristes e surpresos com as notícias sobre Maria Sharapova”, informou, em nota, a maior marca de artigos esportivos do planeta. “Decidimos suspender nossa relação durante a investigação e continuaremos acompanhando a situação.”

Ex-número um do mundo, que acumula mais de 30 prêmios, incluindo títulos nos torneios de Grand Slam de Roland Garros e Wimbledon, Sharapova detém hoje a sétima posição no ranking mundial e é uma das atletas mais bem pagas. Além do seu talento no esporte, a russa é muito conhecida por sua beleza, o que atraiu atenção de grandes marcas. A revista americana Forbes estima que, só em patrocínio, ela teria arrecadado cerca de US$ 30 milhões (R$ 110 milhões), em 2015. Agora esses valores estão ameaçados.

Teriam os patrocinadores sido muito duros em puni-la dessa maneira? Para Clarisse Setyon, professora do MBA de negócios do esporte da ESPM, preocupa a rapidez com que as marcas se posicionaram. “Eu enxergo o investimento como parceria e num momento como esse ela teria que prevalecer”, afirma. “Sharapova teve uma postura muito correta ao apresentar o problema . É preciso melhorar a gestão nessa parceria esportiva.”

A maneira como Sharapova reagiu aos problemas, contudo, dividiu opiniões. Para Eduardo Tomiya, diretor geral da Kantar Vermeer, a tenista deveria ter se reunido previamente com as marcas para criar uma estratégia de gerenciamento de crise. Segundo ele, a falta dessa conversa trouxe apenas prejuízos. “Houve uma certa imaturidade em lidar com a situação”, afirma Tomiya. “Essa troca de informações faz parte da construção da marca, inclusive da dela.”

O tropeço da russa ainda pode causar danos mais graves à sua imagem e ao seu bolso. Outros apoiadores, como a Evian, conhecida por suas águas vindas dos Alpes franceses, e a americana de cosméticos Avon ainda não se posicionaram. Uma eventual condenação, que deixaria a tenista até quatro anos fora das quadras, pode significar novas quebras de contrato. Até o julgamento, sem data para ocorrer, ela está impedida de jogar, o que coloca em xeque a sua participação na Olimpíada do Rio de Janeiro.

Como alento, a fabricante austríaca de raquetes Head foi a única a se manter do lado da atleta, renovando seu contrato na quinta-feira 10. “A honestidade e a coragem que ela teve em reconhecer seu erro é admirável”, disse Johan Eliasch, CEO da empresa.

A missão de Sharapova é tentar não repetir os mesmos erros de outros esportistas flagrados em situação similar. Um dos casos mais notórios é o do ex-ciclista americano Lance Armstrong. Considerado um ícone e um exemplo de superação, ele foi banido após montar um esquema de doping que funcionou por mais de uma década, descoberto pela Agência Americana Antidoping. Potências como a Nike e a cervejaria Budweiser, da AB InBev, cortaram relações com o esportista. “O ideal para Sharapova é montar um plano de ações a fim de  mostrar ao público que isso não vai mais acontecer”, afirma Tomiya. 

Sharapova foi informada do resultado há algumas semanas pela Federação Internacional de Tênis. Alegou fazer uso dessa substância há 10 anos para tratar uma insuficiência de magnésio, uma arritmia cardíaca e prevenir o histórico familiar de diabetes. “Assumo a responsabilidade. Recebi mensagem da Agência Mundial Antidoping em dezembro e não chequei a lista de produtos proibidos”, se justificou. Conhecido também como Mildronate, esse fármaco,  produzido na Letônia e distribuído somente nos balcãs e na Rússia, melhora a circulação do sangue. Isso justificaria a decisão da Wada em restringi-lo. Bola fora de Sharapova.