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Sujou o balanço

A Vale do Rio Doce nunca tinha registrado um prejuízo anual. Em 2015, apresentou o pior resultado de uma empresa brasileira na história. A saída será colocar os ativos à venda

Sujou o balanço

Desde a sua privatização, em 1997, a Vale nunca havia entregado um balanço anual com prejuízo. Os maus resultados da companhia, a maior produtora de minério de ferro e de níquel do mundo, foram tão raros nas últimas décadas que, desde 1989, ela só havia registrado 10 prejuízos trimestrais, o equivalente a apenas um a cada 11 trimestres. Mas, de forma inequívoca, sua sorte mudou. Na quinta-feira 25, a Vale anunciou a maior perda anual de uma companhia na história do Brasil, segundo dados da Economatica, empresa de pesquisas que coleta dados do mercado desde 1986.

Foram US$ 12,1 bilhões (R$ 44,2 bilhões) de prejuízo em 2015. Tamanho rombo é resultado de um período de queda forte da cotação das commodities no mercado global, num momento em que a empresa finaliza um ciclo de pesados investimentos. No ano passado, o preço do minério de ferro caiu 43%, prejudicando o resultado da empresa em R$ 36 bilhões, enquanto o real se desvalorizou 47% à moeda americana, o que “impactou o valor da dívida em dólares da Vale em outros R$ 36 bilhões”, explicou Luciano Siani, diretor de finanças e relações com investidores, em apresentação para analistas.

Para coroar negativamente o período negro da Vale, houve o desastre ambiental causado pela mineradora Samarco, da qual divide o controle com a australiana BHP Billiton. “O ano de 2015 foi muito desafiador”, disse Murilo Ferreira, presidente da Vale. A mineradora espera colocar em operação, no fim deste ano, o maior projeto de sua história, a mina de ferro S11D, no Pará, que consome investimentos de US$ 14,5 bilhões. O que deveria ser um fato a ser comemorado acabou se tornando mais um motivo de preocupações, já que o mercado sofre com o excesso de oferta e com a desaceleração do consumo de ferro por parte da economia chinesa.

O preço do minério é negociado a menos de US$ 60 por tonelada desde a metade do ano passado. E a Vale tem culpa nessa conjuntura. Em 2011, a cotação estava 70% acima do valor atual, e as três grandes forças do mercado global, Vale, BHP e Rio Tinto, decidiram ampliar a oferta, como forma de pressionar as competidoras menores que operavam com custos mais altos. O feitiço acabou se voltando contra elas. O banco de investimentos Morgan Stanley estima que a baixa de preços deve durar, pelo menos, até 2020. Para financiar o projeto, Ferreira afirmou que será necessário vender ativos. O objetivo é baixar a dívida líquida, dos US$ 25 bilhões atuais, para US$ 15 bilhões, em até 18 meses.

“A queda mais aguda dos preços das commodities pode representar um desafio para ‘desalavancar’ a Vale após o S11D”, afirmou Ferreira. Para os analistas do banco de investimentos BofA Merrill Lynch, a companhia deve tentar vender uma participação em suas operações em Carajás (PA), que podem valer entre US$ 35 bilhões e US$ 50 bilhões. Também deve negociar parte de seus negócios de fertilizantes. Mas há quem esteja cético em relação à estratégia. O BTG Pactual acredita que haverá dificuldades para vender ativos num momento tão desfavorável ao setor.