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A Taurus atira no escuro

Fabricante brasileira de armamentos SE reestrutura e tenta reverter os prejuízos causados por brigas societárias, produtos  defeituosos e uma série de processos. Novas regras de controles de armas nos EUA, no entanto, dificultam o acerto do alvo

A Taurus atira no escuro

Um ano atrás, no dia 15 de fevereiro, o americano Donald Simms, morador do Estado de Alabama, recarregava sua pistola Taurus PT 609, calibre 9 mm, quando a arma disparou acidentalmente. A bala o feriu na mão, atingiu de raspão o braço de sua esposa e se alojou no pescoço de seu filho de 11 anos, matando o garoto. Seria apenas mais uma triste tragédia relacionada à posse de armas domésticas não fosse pelo fato de a pistola utilizada por Simms, fabricada pela brasileira Forjas Taurus, estar envolvida em uma série de casos semelhantes.

Em outubro, ele entrou com um processo contra a companhia. Três meses antes, a Taurus já havia assinado um acordo, em uma corte federal dos Estados Unidos, concordando em pagar US$ 30 milhões em indenizações, custos processuais e campanhas de recall por conta do risco de disparos não intencionais de suas pistolas e revólveres. O processo de Simms, registrado depois do acordo, representa um duro golpe às pretensões da Taurus, controlada pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), de se reerguer após três anos de resultados ruins e brigas societárias, que ameaçam seu o futuro.

Maior fabricante de armas do Brasil, a empresa gaúcha esperava fazer do dia 1º de janeiro de 2016 o seu “Dia D”. “Não foi quando os aliados ganharam a guerra, mas marcou o início da vitória”, afirmou Marco Aurélio Salvany, presidente da Taurus, durante teleconferência com analistas ao final do terceiro trimestre do ano passado. O executivo, que passou boa parte de sua carreira trabalhando para montadoras de automóveis, como consultor, assumiu o comando das operações, em julho de 2015, para colocar ordem na casa.

Em seis meses, Salvany fechou duas fábricas, mudou todo o processo produtivo da empresa para incorporar o conceito de lean manufacturing – consagrado pela japonesa Toyota e focado na eficiência e na redução dos desperdícios –, adotou uma nova estrutura de liderança no chão de fábrica e inovou ao usar peças intercambiáveis na fabricação de armas de fogo, atividade industrial que, tradicionalmente, ainda utiliza processos quase artesanais. Para este ano, está sendo preparada uma linha de 12 novos produtos que terão 70% das peças compartilhadas, a exemplo do que se faz no setor automotivo.

Salvany já dobrou a capacidade de produção da Taurus, ao mesmo tempo em que está concentrando toda a operação em uma única fábrica, no município gaúcho de São Leopoldo. “Vamos recolocar a Taurus no lugar de onde nunca devia ter saído e recuperar a qualidade, que não poderia ter sido perdida”, disse o presidente, que não atendeu aos pedidos de entrevista da DINHEIRO. Trata-se de um plano perfeito, mas que pode estar com o timing errado. Apesar de ter chegado a um acordo na Justiça Federal americana, há outros processos ameaçando os cofres da companhia – além de Simms, um policial do Kentucky também entrou no tribunal contra a empresa.

Em 2015, até setembro, o prejuízo líquido da Taurus somava R$ 248 milhões. Ainda que a receita, de R$ 561 milhões, tenha crescido mais de 30%, as perdas seguiram na mesma direção, praticamente dobrando na comparação com o mesmo período do ano passado. Na bolsa, as ações da empresa sobem 20,4% este ano, depois de derreterem 78,5%, em 2015, e 79,4%, em 2014. O mercado de armas, pelo menos para brasileiros, também não parece promissor. Dados obtidos pela DINHEIRO junto ao Exército Brasileiro mostram que a produção de armamentos no País caiu de 768 mil unidades em 2012, para 484 mil em 2014.

Até outubro de 2015, ela estava em 205 mil unidades. “Essa queda na produção deve continuar, uma vez que o mercado bélico é muito dependente de compras governamentais”, afirma Ivan Marques, diretor-executivo do Instituto Sou da Paz, ONG que monitora os índices de violência no País. “No mercado externo, que poderia ser uma saída, há a questão da falta de qualidade dos produtos, que afetou sua imagem.” A maior economia do mundo representa 64% das vendas da empresa brasileira, atualmente. A Taurus chegou a ser líder em vendas de armas leves nos EUA.

Em 2011, recebeu o prêmio de “Arma do Ano” da poderosa NRA, a associação americana dos donos de armas. Como se não bastassem os problemas da Taurus com a Justiça e de imagem arranhada, o presidente Barack Obama anunciou que vai intensificar as medidas de controle da indústria bélica, numa tentativa de conter os repetidos massacres suicidas que assolam o país há anos. Ainda que, até o momento, o único efeito prático disso tenha sido a proibição de vendas de armas pela internet sem a devida checagem de antecedentes – algo que, por mais óbvio que pareça, não era obrigatório nos EUA –, a tendência é de que esse debate ganhe corpo.

Na semana passada, um deputado e um senador democratas apresentaram um projeto para cancelar a polêmica PLCAA, lei assinada em 2005, pelo então presidente George W. Bush, que exime de culpabilidade os fabricantes de armamentos pelo uso dos produtos. A democrata Hillary Clinton, candidata à presidência pelo partido e favorita na disputa, já indicou que deve apoiar esse tipo de ação. Se passar, a lei pode dar início a uma nova fase na indústria bélica, que terá de ser mais cuidadosa no que se refere à sua clientela. A queda vertiginosa da produção de armas brasileira e a derrocada da Taurus também têm relação com uma disputa societária na empresa.

Há cerca de três anos, o então controlador da Taurus, Luis Fernando Estima, enfrentava uma truculenta disputa com alguns acionistas da empresa, em especial a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, que o acusavam de usar a fabricante em benefício próprio. Em abril de 2014, ignorando a opinião do conselho de administração, Estima decidiu promover um aumento de capital na companhia. Foi o primeiro de uma série de aumentos, que permitiram à CBC adquirir 86,84% das ações ordinárias, tornado-se a controladora da fabricante, no ano seguinte. Os minoritários entraram com uma série de recursos e o caso foi parar na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais.

Em setembro, a CVM rejeitou uma proposta de acordo feita por Estima e seu sobrinho, Fernando Soares, que também é acionista da empresa, para encerrar um dos processos, no qual os dois são acusados de “voto abusivo” em assembleia que aprovou as contas de 2013 da empresa. No entendimento da CVM, por estarem sendo acusados de má gestão, eles deveriam se abster do pleito. No entanto, exerceram o voto por meio da holding Estimapar. Caso não tivessem efetuado a manobra, as contas teriam sido reprovadas. Num cenário desses, o tiro no escuro da Taurus pode acabar é saindo pela culatra.