Negócios

A caminho da América

Depois de investir R$ 200 milhões em pesquisa e desenvolvimento no ano passado, o laboratório brasileiro Aché se prepara para invadir o bilionário mercado americano

A caminho da América

Paulo Nigro, presidente do Aché laboratórios: “Fazer o que ninguém fez é complexo. É um processo, muitas vezes, de tentativa e erro” (foto: Gustavo Epifanio/Agência IstoÉ)

Nos próximos meses, o laboratório farmacêutico Aché planeja apresentar para o mercado dois novos produtos que estão em fase final de desenvolvimento no laboratório de design e síntese molecular, que faz parte do novo Centro de Inovação Radical, inaugurado em novembro do ano passado na sede da empresa em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Entre dezembro e janeiro, a companhia se concentrou em migrar suas pesquisas, que estavam sendo realizadas por laboratórios parceiros no exterior, para o País, onde seis pessoas, sendo um pesquisador líder, passarão a dar atenção integral aos projetos.

O Aché quer acelerar o desenvolvimento das novas moléculas e aumentar o potencial de transformá-las em realidade, ou seja, em remédios. As descobertas são guardadas a sete-chaves, pelo alto nível de dificuldade e de competição comercial envolvidos, em escala global. “Fazer algo que ainda ninguém fez é muito complexo, porque é um processo, muitas vezes, de tentativa e erro”, diz o presidente Paulo Nigro. “Por isso que investimos e inauguramos o novo laboratório, que é a essência da nossa visão de longo prazo.”

A criação de novos medicamentos tem um claro objetivo: a conquista global e, em especial, do mercado americano. O Aché está preparando toda a documentação para enviar para a Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês, a autoridade responsável pela aprovação e liberação de medicamentos) um de seus produtos para análise e registro de licença – que, antes da autorização, não pode ser revelado. Se tudo correr como esperado, ainda neste ano a empresa brasileira deve entrar nos Estados Unidos. A meta é estar disponível numa rede como Walgreens e CVS, que vendem mais de US$ 76 bilhões e US$ 139 bilhões, respectivamente, por ano.

“É um mercado fantástico, em que uma rede de farmácia vende mais que todo o setor no Brasil”, afirma o executivo. Se der certo, o Aché tem tudo para mudar de patamar de uma hora para outra. Com um portfólio com 303 marcas, entre elas Biofenac, Dorilax, Flogoral, Nisulid e Tandrilax, o Aché tem conseguido, nos últimos cinco anos, lançar novos produtos e escapar da guerra de preços no exterior. Os laboratórios nacionais vendem poucos medicamentos inovadores ao mundo e acabam se concentrando na América Latina.

Como no ano passado Argentina e Venezuela, os principais destinos, enfrentaram graves crises internas, a exportação de medicamentos encolheu 17%, de R$ 1,35 bilhão para R$ 1,12 bilhão. Mesmo tendo os países latino-americanos como destino de seus produtos, o Aché conseguiu incrementar em 25% sua receita líquida em dólares, justamente por oferecer produtos diferenciados para Venezuela, México, Colômbia, Japão e alguns países africanos. “A exportação é a melhor maneira de se proteger e trabalhar o desequilíbrio cambial”, diz Nigro.

A crise econômica exigiu não apenas um olhar para as exportações, mas uma atenção nos possíveis ganhos de produtividade. O Aché deu início, no ano passado, a um programa de melhorias dentro da cadeia produtiva, com acompanhamento de especialistas. Alguns resultados alcançados foram surpreendentes. Em outubro, por exemplo, uma das unidades bateu seu recorde de produção. A fábrica, que já estava no limite, sem possibilidade de abrir novos espaços ou adquirir novos equipamentos, conseguiu eliminar alguns gargalos que, até ali, pareciam imperceptíveis.

A revisão na disposição das máquinas e do processo onde são feitos os comprimidos aumentou a produção de 6,5 milhões de caixas para 8 milhões mensais. O acréscimo de mais de 20% não é desprezível. “É uma alavancagem operacional incrível para um local que já tinha atingido seu limite de capacidade”, diz Nigro. Estudos internacionais calculam que a expectativa de vida dos pacientes aumenta um ano a cada US$ 1 mil investidos em pesquisas de novos medicamentos. No ano passado, o Aché destinou R$ 202 milhões para a sua área de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

É uma parcela relevante do investimento realizado por todas as empresas do setor com capital nacional. As oito indústrias que formam o Grupo Farma Brasil desembolsaram, ao todo, R$ 1,1 bilhão em P&D. “O País está acordando para esse processo”, afirma Ogari Pacheco, presidente e fundador do laboratório paulista Cristália, dono de 88 patentes registradas, o que o coloca como o maior patenteador do setor no Brasil. “Mas é apenas o início, há muito a ser feito.”

O que mais chama a atenção, porém, é o aumento da parcela do faturamento destinada pela indústria farmacêutica à inovação. Se antes as empresas separavam de 6% a 8% dos seus resultados anuais para P&D, elas passaram a reservar entre 10% a 12%. Esse participação é semelhante à das gigantes mundiais. “Essa não é uma decisão esporádica, nem sobra de caixa”, diz Reginaldo Acuri, presidente-executivo do Farma Brasil. “É a lógica do setor farmacêutico: investir em inovação ou brigar por preços no mercado internacional.”

Até outubro do ano passado, todo o mercado brasileiro de medicamentos movimentou R$ 59,4 bilhões em vendas. Os produtos nacionais têm aumentado ano a ano sua participação nas vendas sobre os multinacionais. Nos dez primeiros meses de 2015, 64% de todos os remédios que saíram de farmácias e drogarias eram de laboratórios nacionais. Uma das explicações para essa conquista de mercado é a aposta da indústria nacional em genéricos. Apesar de ser uma cópia dos medicamentos dos laboratórios referência, eles serviram para preparar os fabricantes nacionais para o passo seguinte, que é a inovação.

“A indústria nacional deu um salto de qualidade desde o marco dos genéricos, em 2003”, afirma Henrique Tada, diretor-executivo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac). “Agora, o empresário brasileiro está investindo em novas unidades e trabalhando a inovação.” Um dos exemplos dessa abertura para novos investimentos foi a criação da BioNovis. O laboratório, criado em 2012, é uma joint venture entre as concorrentes EMS, Aché, Hypermarcas e União Química para produzir os chamados remédios biotecnológicos, que são usados no tratamento de doenças complexas, como câncer, artrite reumatóide, lúpus e Alzheimer. Esse é um mercado altamente sofisticado, que movimenta US$ 160 bilhões no mundo e cerca de R$ 10 bilhões no Brasil.

A união entre as empresas foi considerada a mais importante decisão para o desenvolvimento da história da indústria farmacêutica brasileira diminuir um atraso de cerca de 30 anos sobre a tecnologia dos países mais avançados. Neste ano, a unidade de produção localizada em Valinhos será finalizada. “No ano passado começamos o desenvolvimento de um produto para competir globalmente”, diz Odnir Finotti, presidente da BioNovis. “Num espaço de três anos dominaremos todo o processo produtivo, o que vai nos permitir alçar novos voos.” O remédio, nesse caso, não tem nada de amargo.

—–

“Os empresários voltaram a falar de negócio”

O presidente do Aché, Paulo Nigro, fala sobre sua expectativa e os desafios para o ano

Como foram os resultados do Aché no ano passado?
Ainda estamos em processo de apuração dos resultados. A boa notícia, pelos dados preliminares, é que o Aché cresceu mais que o mercado em 2015, tanto no geral como em participação. É animador.

Qual é a fórmula para conquistar mercado num ano complexo?
A empresa nunca deixou de acreditar, mesmo num ano complexo. Não paramos de investir. Lançamos 25 produtos, que já apresentaram resultado no ano de lançamento. Para este ano, os resultados serão ainda melhores. Há cinco anos temos acrescentado receita com novos produtos, o que é o sonho de qualquer empresa: ter foco e inovação. No geral, em 2015 tivemos crescimento saudável e sustentável.

O que muda em 2016?
Para 2016 manteremos o mesmo patamar, independentemente da política. É preciso deixar de lado, focar no negócio, adaptar-se à situação e arregaçar as mangas para trabalhar. Esse é um sentimento geral. Os empresários voltaram a falar de negócio, ao contrário do ano passado, que ficou marcado por encontros pautados pela agenda política.

O sr. está otimista?
Estou mais para um otimista moderado. Claro, os problemas não vão acabar, não é ter um otimismo inocente. Ele é fruto de esforço, foco e energia em se adaptar, com atenção às despesas e sem tirar o pé dos investimentos. Espero repetir os bons resultados de 2015.

O sr. assumiu a empresa há um ano. O que mudou de lá para cá?
Cheguei em janeiro e em março reunimos a liderança da empresa para uma reflexão da nossa história de 50 anos, com um olhar para o futuro. Iniciamos um planejamento, com uma visão de 2030. Esse planejamento tem como crença que devemos crescer em todas as nossas áreas de negócios, com os seguintes pilares: crescer em tudo o que faremos, foco muito forte e determinante na inovação, atenção ao cliente e excelência operacional de forma sustentável. Com isso, a inovação ganhou um status privilegiado no nosso planejamento estratégico, ou seja, fazer mais e melhor aquilo que a gente faz bem.

Qual será o papel do novo laboratório, inaugurado em novembro no centro de inovação da unidade de Guarulhos?
Ele é a essência da visão de longo prazo. A inovação, que era algo que já estava no DNA dos nossos fundadores, ganha esse status de aceleração na empresa, com a minha crença pessoal de que inovação é o que confere, também, sustentabilidade para uma empresa farmacêutica. Vamos trabalhar na inovação incremental, que parte da ideia de utilizar moléculas já existentes e aplicá-las em uma nova tecnologia farmacêutica. A busca é por pequenos incrementos que melhoram muito a vida e a qualidade do tratamento para o paciente. E vamos também investir na inovação radical, que parte de uma necessidade humana que ainda não foi atendida. Fazer algo que ninguém fez ainda é muito mais complexo, porque é um processo de tentativa e erro, muitas vezes. Lógico que parte de uma base forte científica, mas foi por isso que investimos e inauguramos esse laboratório.