Negócios

Alstom faz a faxina

A gigante francesa trabalha para limpar sua imagem e  deixar para trás os escândalos de corrupção que sujaram a sua reputação. Enquanto é investigada, tenta tornar mais clara a forma de fazer negócios

Alstom faz a faxina

Boccaccio, vice-presidente: o executivo francês  recebeu a missão de promover mudanças na  operação brasileira depois do envolvimento em casos de corrupção (foto: João Castellano/Ag. Istoé)

Em todas as salas de reuniões na sede da francesa Alstom, no bairro da Lapa, em São Paulo, há papéis sulfite colados nas paredes com uma espécie de tábua dos “dez mandamentos” da ética. Entre suas frases de mais destaque está a que diz: “Não tome uma decisão que possa causar dano à reputação da Alstom”. A cartilha de bons modos não chamaria a atenção em muitas multinacionais em operação no Brasil, mas na Alstom chama. Os documentos afixados simbolizam o momento atual da empresa, e dos traumas que pretende superar.

Enquanto a companhia é investigada por supostamente liderar a formação de um cartel e fraudar licitações de R$ 550 milhões da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em 2007 e 2008, promove uma limpeza nos departamentos da subsidiária brasileira – em linha com as orientações definidas pela matriz, nos subúrbios de Paris. No Brasil, o maior responsável pela estratégia é o executivo francês Michel Boccaccio, que chegou à vice-presidência da companhia para a América Latina há dois anos.

Com 30 anos na empresa, ele passou 20 deles atuando no Brasil. “Internamente, temos uma política de comunicação intensa do nosso código de ética. Lembro disso em todas as reuniões, promovemos treinamento e reunimos um grupo para discutir o assunto todos os meses”, diz. “Estamos trabalhando muito em cima disso, para deixar claro que a tolerância é zero para desvios de conduta.” A companhia também implementou globalmente um grupo de embaixadores da ética, do qual todos os funcionários podem participar voluntariamente.

Basta enviar um currículo para a sede, na França, para se inscrever. Os embaixadores assumem a função de divulgar em todos os departamentos o código de conduta da empresa e encontrar formas para que ele seja sempre aplicado, sem exceções, no dia a dia. Vinte pessoas do Brasil fazem parte do grupo. Outra iniciativa é incentivar as denúncias de qualquer desvio descoberto por funcionários, por meio de um canal anônimo. Internamente, os delatores são, de alguma forma, recompensados. Mas, para a empresa, não basta o trabalho da porta para dentro.

A limpeza da imagem também começou a ser apresentada para o mercado, a fim de mostrar uma nova Alstom para clientes, fornecedores e parceiros. Como parte desse esforço, a francesa se afiliou ao Grupo de Trabalho do Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção, criado pelo Instituto Ethos. “Tenho também divulgado o nosso plano de conduta em palestras sempre que sou convidado”, diz Boccaccio. “A Alstom é uma empresa ética. Se não acreditasse nisso, não estaria aqui.”

A companhia, porém, ainda não está entre as 19 que receberam o selo Pró-Ética, criado pelo Instituto Ethos e a Controladoria-Geral da União (CGU), que reconhece organizações que avançaram no tema e que inclui em sua lista a denunciante do suporto cartel em São Paulo, a alemã Siemens. “Temos visto melhorias acontecendo em diversas empresas”, diz o diretor executivo de práticas empresariais e políticas públicas, Caio Magri. “A questão central para conseguir isso está no comprometimento da alta liderança com a questão.”

O esforço da Alstom para polir sua reputação será um caminho longo e que passa por grandes riscos. Ela é réu em processos de corrupção que podem gerar multa bilionária. O Ministério Público de São Paulo chegou, no ano passado, a pedir a dissolução das nove companhias envolvidas, incluindo Alstom, Siemens e Bombardier, e a restituição de mais de R$ 900 milhões aos cofres públicos. A francesa também é acusada de pagar propina para garantir o fornecimento de duas subestações de energia, em 1998, para a Eletropaulo, o que deve resultar em multa de R$ 60 milhões.

Os problemas não são localizados. Nos EUA, a Alstom fechou um acordo, em dezembro, para pagar US$ 772 milhões em multas devido a subornos em contratos de energia em países como Indonésia, Arábia Saudita, Egito, Índia e China. A empresa foi multada em todos esses mercados e também na Suíça, Itália, Zâmbia e México por práticas similares. Agora, ela quer provar que as práticas teriam sido casos isolados e que se esforça para fazer as coisas diferentes. Além de mais transparente em suas condutas, a Alstom decidiu ser mundialmente menor, mais focada e desapegada.

A divisão de energia foi vendida para a americana GE por US$ 4 bilhões, numa transação completada em novembro e que fez a companhia abrir mão de 70% do seu faturamento anual, que era de € 20 bilhões. O grande desafio de Boccaccio está em, ao mesmo tempo que reforça o código de conduta da companhia, conduzir os negócios, prejudicados não só pelas investigações, mas também pela estagnação nos projetos de transportes. Afinal, os problemas econômicos brasileiros têm cobrado uma conta alta da capacidade de investimentos dos governos estaduais, os seus principais clientes.

“Não perdemos nenhum contrato ou temos obras paradas por conta dos problemas”, diz Boccaccio. Mas há riscos de que isso possa acontecer. O secretário de Transportes Metropolitanos do governo de São Paulo, Clodoaldo Pelissioni, ameaçou com a rescisão do contrato de R$ 700 milhões, para a instalação de sistema de controle dos trens do metrô. Os motivos seriam atrasos na implementação do sistema, que deveria operar desde 2102. A Alstom também possui em vigor contrato para a entrega, a partir de 2018, dos trens da linha 6 do Metrô de São Paulo.

Além de manter os acordos já fechados, a empresa tem a inglória tarefa de conseguir novas contas em uma conjuntura desfavorável. A principal aposta está nos veículos leves sobre trilhos (VLT). A empresa inaugurou, em 2015, a sua fábrica desses equipamentos em Taubaté, com investimento de R$ 50 milhões. Ela surgiu para produzir 27 dos 32 VLTs (os outros cinco foram feitos na França) encomendados pelo Rio de Janeiro, um dos principais projetos de infraestrutura da cidade para receber a Olimpíada, em agosto deste ano. Os três primeiros já estão prontos.

A Alstom também assinou um contrato de VLTs para Goiânia, em acordo que ainda aguarda financiamento. No Brasil, há ainda diversos outros projetos similares congelados pela crise. É um baque importante em um mercado que representa 60% dos negócios na América Latina. Para manter a equipe de 1,5 mil pessoas empregada e ativa, a saída é direcionar os esforços ao exterior. Entre os funcionários existia a preocupação de que a falta de trabalho levasse a demissões, dizem empregados da empresa ouvidos pela DINHEIRO. A venda para a GE foi um alívio.

“Queremos participar de mais concorrências, mas elas não existem”, diz Boccaccio. “O que mais preocupa é perder os engenheiros qualificados que temos, e dos quais não podemos abrir mão por falta de projetos.” Mas, nesse ponto, um aspecto conjuntural tem ajudado: a desvalorização do real. “Estamos voltando a ser competitivos”, afirma. “O Brasil será hub para a América Latina.” Um dos projetos principais é a produção, em São Paulo, de trens de metrô para Buenos Aires. “Os brasileiros não gostam, mas a Argentina é que vai salvar a operação daqui”, brinca o executivo francês.

Os hermanos não serão os únicos a ajudar. A mão-de-obra local também vai desempenhar um papel fundamental para a empresa cumprir o maior contrato de sua história, para a entrega de 580 trens de subúrbio na África do Sul. Trata-se de um negócio de € 4 bilhões. As 20 primeiras unidades serão produzidas em São Paulo, e os engenheiros brasileiros farão a transferência da tecnologia para uma fábrica a ser construída no país africano. A intenção de Boccaccio é que os bons exemplos das operações locais não parem por aí.