Negócios

Para onde vai a Hypermarcas?

O ótimo negócio fechado com a Coty traz fôlego financeiro e libera a companhia para se dedicar ao setor farmacêutico

Para onde vai a Hypermarcas?

Bergamo, presidente da Hypermarcas: "Não há dúvidas de que conseguimos um valor bem interessante" (foto: Gustavo Luz)

Quando o bonequinho da Assolan invadiu o horário nobre da Rede Globo, em 2003, em uma agressiva campanha publicitária, poucos poderiam imaginar que a partir da palha de aço surgiria um portfólio com mais de 100 produtos, de protetor solar a remédio para alergia, de camisinha a esmalte para as unhas. A expansão foi, sem dúvida, meteórica. Em um período de sete anos, a Hypermarcas comprou 20 empresas, ou seja, uma aquisição a cada quatro meses, passando a ser líder em diversos segmentos. Essa fase, porém, ficou para trás.

“Primeiro, vieram as aquisições em série, o que foi essencial para a consolidação da empresa. E, há cerca de quatro anos, entramos em um período de reestruturação, de olhar para o negócio e dar prioridade àqueles segmentos onde somos mais competitivos e temos maiores margens de lucro”, diz à DINHEIRO Claudio Bergamo, presidente da Hypermarcas. O que não quer dizer que a companhia, que no ano passado faturou R$ 4,6 bilhões, tenha perdido o ímpeto por novas investidas. “No momento, não há nada no radar.

Mas se a oportunidade aparecer, e se essa aquisição for gerar valor para o acionista, por que não?”, diz o executivo. Dinheiro, pelo menos, não seria um problema. A venda da unidade de cosméticos para a Coty por R$ 3,8 bilhões – uma operação que envolveu 14 marcas, entre elas Bozzano, Monange, Risqué e Cenoura & Bronze –, fez a Hypermarcas praticamente eliminar seu endividamento líquido. O indicador, atualmente de R$ 3,3 bilhões, fica zerado e ainda sobra um caixa de R$ 500 milhões. A Coty irá depositar a segunda parcela do negócio no segundo semestre de 2016.

O mais provável é que a Hypermarcas continue reforçando o caixa. Não é de hoje que seus executivos vêm sinalizando a intenção de concentrar esforços no segmento de medicamentos, um mercado que, além de oferecer margens mais altas, só tem a crescer no País (o envelhecimento da população está aí para provar: a estimativa é de que o número de idosos irá quadruplicar até 2060, segundo o IBGE). A empresa, que já é líder nacional no segmento de remédios que não necessitam de prescrição médica, é também a maior do Brasil em medicamentos genéricos por meio de sua marca, a Neo Química.

Muitos analistas acreditam, inclusive, que esse é o destino da Hypermarcas. “Não me surpreenderia se ela decidisse vender todo o seu portfólio de consumo, tornando-se praticamente um laboratório”, diz João Mamede, analista do Santander. O mercado parece estar de acordo com esse caminho. Na terça-feira 3, um dia após o anúncio da operação com a Coty, as ações da Hypermarcas dispararam, com uma valorização de 20%. A notícia da redução do endividamento foi muito bem recebida e o valor da operação com a fabricante francesa também surpreendeu.

“É sempre complicado estimar o valor exato de uma negociação como essa, mas eu teria apostado em algo em torno de R$ 2,2 bilhões, no máximo”, diz Caio Moreira, analista da Fator Corretora. No ano passado, a divisão de cosméticos da Hypermarcas faturou R$ 977 milhões, o que em 2014 representou 21% do faturamento. “Não há dúvida de que conseguimos um valor bem interessante, mas o negócio trará muita sinergia para a Coty também”, diz Bergamo. Segundo ele, foram três meses de negociação com os franceses.

Essa não é a primeira vez que a companhia abre mão de um segmento. A própria unidade de limpeza, que deu origem à Hypermarcas, foi vendida em 2011. Naquele mesmo ano, a empresa se desfez das marcas Etti, de molho de tomate, e da palha de aço Assolan. Bergamo vê esse efeito sanfona com a tranquilidade de um executivo que busca, acima de tudo, o retorno para os acionistas. “Esse giro de portfolio é algo extremamente natural no mundo corporativo. Alguns negócios crescem, passam a ter escala própria e pode ser que gerem mais valor para uma outra empresa”, explica o presidente da Hypermarcas.

O processo também é visto com naturalidade tanto pelos analistas de mercado que acompanham a empresa como por acadêmicos que se dedicam ao tema. “Seria um equívoco interpretar esse processo de compra e venda como um erro de estratégia. A Hypermarcas não está se desfazendo de algo, ela está redefinindo um posicionamento”, diz o professor da FGV-SP Oscar Luiz Malvessi. Especialista em finanças corporativas, com foco na criação de valor ao acionista, ele explica que as fusões e aquisições sempre serão dinâmicas e sujeitas a mudanças de rota. “É um aprendizado. Se uma divisão não deu o retorno esperado é do jogo. Pense em todas as outras onde ela acertou”, completa o professor da FGV.

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