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Gotas na medida certa

Fibria cria o Programa de Desenvolvimento Rural Territorial para ajudar pequenos agricultores a se tornar autossustentáveis. Com ajuda da tecnologia, economia de água chegou a 60%

Gotas na medida certa

Produtividade: a pequena plantação de alface aumentou 28% com a técnica desenvolvida pela Fibria para molhar o solo. Resultado, ganho 42% maior (foto: Divulgação)

Pequenos agricultores de Guapiara, cidade paulista de pouco mais de 20 mil habitantes e 270 quilômetros de distância da capital, ganharam uma aliada contra o uso exagerado de água. A Fibria, líder mundial na produção de celulose de eucalipto, criou o Programa Desenvolvimento Rural Territorial (PDRT), que tem como objetivo engajar e promover o desenvolvimento das comunidades vizinhas às suas operações, fortalecendo as associações comunitárias e aplicando tecnologias de baixo impacto econômico e ambiental.

No ano passado, em parceria com a consultoria Arkhé Socioambiental e com a Associação Guapiarense de Agricultores Orgânicos (Agaor), o PDRT implementou um novo sistema de irrigação que está sendo utilizado no plantio por agricultores locais e que tem conseguido economizar até 60% de água. “Nós levamos tecnologia eficiente e barata para que os produtores possam mantê-la”, diz Fausto Camargo, gerente geral corporativo de sustentabilidade da Fibria. “Esse sistema não usa insumos químicos e é sustentável.”

Conhecida como microaspersão, a tecnologia usada em Guapiara utiliza mangueiras com microfuros feitos a laser. Posicionadas em lugares estratégicos do plantio, elas liberam a quantidade de água necessária para irrigar a plantação. A água chega ao solo de cima para baixo e, por isso, evita a incidência de fungos e bactérias que se proliferam com a terra encharcada. A plantação de alface do agricultor Arlindo Teixeira foi testada entre maio de 2014 e maio deste ano. Nesses 12 meses, os resultados alcançados foram animadores.

Antes do sistema de microaspersão, Teixeira utilizava o gotejamento e precisava de 32 linhas de mangueira em cada uma de suas cinco estufa. Com a tecnologia desenvolvida pela Fibria, o pequeno agricultor passou a usar sete linhas de mangueira. Com isso, houve redução no consumo de água – em torno de 3.450 litros por dia – para a mesma área plantada. A diferença no consumo de água é suficiente para a ampliação de 30% na área de cultivo de Teixeira ou 109 dias de irrigação. Outro benefício está na produtividade: o sistema de microaspersão aumentou em 28%, para 13.300 pés de alface, a produção das cinco estufas.

O resultado está na receita do agricultor, que cresceu 42% no período. “Percebi uma qualidade melhor do alface que eu trabalho”, conta Teixeira. “Sinto que melhorou o controle das pragas, reduziu o tempo gasto e a mão de obra.” Os resultados positivos despertaram o interesse nos demais produtores. O PDRT funcionou muito bem para a plantação de alface e agora está iniciando o trabalho com outros produtos. O plantio de hortaliças, por exemplo, era afetado durante o verão em função das altas temperaturas na estufa.

A microaspersão permite formar uma nuvem úmida que reduz o impacto sobre a plantação. “O sistema reduz a temperatura e faz com que as hortaliças permaneçam vigorosas mesmo em tempo quente”, afirma Israel Batista Gabriel, analista de sustentabilidade da Fibria. A Fibria está trabalhando, também, para implantar esse sistema numa comunidade de 35 famílias quilombolas de Itapeva, em São Paulo. O projeto vai além da questão da economia da água e envolve a implantação da agricultura familiar. Nessa comunidade, o PDRT trabalha com políticas públicas do governo estadual, que compram os produtos cultivados pela comunidade local e oferecem na merenda das escolas da região.

A meta da Fibria é que 70% dos projetos de geração de renda apoiados pela empresa se tornem autossustentáveis até 2025. No ano passado, esse índice estava em 7%, número esperado devido ao curto período de implantação do PDRT. A água é parte importante desse trabalho. No Brasil, ela tem ligação direta com a economia do País, pois é quem abastece o agronegócio, que no ano passado contribuiu com quase 23% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Para 2015, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil projeta um crescimento do setor de 1,8% no PIB. “Somos hoje o maior exportador mundial de carne bovina, frango, açúcar, café, suco de laranja e tabaco”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do centro de agronegócio da FGV-EESP. “O agronegócio gera 30% dos empregos no País.” Cerca de 72% da água captada no Brasil vai para a produção agrícola, segundo a Agência Nacional de Águas, porém quase metade é desperdiçada.

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