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Ajinomoto enjoa de miojo

A fabricante japonesa de alimentos sai da operação  de macarrão instantâneo que mantinha com a compatriota Nissin, no Brasil. O plano agora é sofisticar seus temperos e tornar sua marca mais conhecida dos consumidores

Ajinomoto enjoa de miojo

Quero ser popular: segundo o diretor Luiz Silva, o objetivo da empresa é ter uma marca institucional tão conhecida quanto os seus produtos, como o Sazón. Para isso, a Ajinomoto aposta em temperos mais sofisticados como de almôndegas e frango xadrez (foto: João Castellano/Istoé)

Foi muito mais demorado do que preparar um miojo, mas a Ajinomoto acabou saindo do mercado de macarrão instantâneo. A empresa japonesa, dona de um faturamento de R$ 2 bilhões no País, mantinha desde 1965 uma joint venture com a compatriota Nissin no segmento, do qual era líder absoluta, com uma participação de 63%, segundo dados da consultoria Nielsen. Meio século depois, no entanto, o macarrão ficou para trás e sumiu do seu portfólio. Quando a parceira ofereceu cerca de R$ 1 bilhão pelos 50% que a Ajinomoto possuía no negócio, a proposta não demorou a ser aceita.

“O mercado era bem rentável, mas queríamos mudar o nosso foco”, afirma Luiz Silva, diretor da divisão de alimentos da companhia. “Vamos dar atenção aos nossos produtos para tornar o nome Ajinomoto mais popular.” Um fato que colaborou, e muito, para a venda de sua fatia no negócio de macarrão instantâneo foi o nome do produto. Apesar da parceria ter durado cinco décadas, todos os tipos de miojo levavam o nome da Nissin. O objetivo da Ajinomoto, agora, é fortalecer sua marca institucional.

Segundo Silva, o problema não é a falta de conhecimento do nome da empresa, mas a pouca conexão que o público faz com os seus principais produtos. “Muitos não sabem que somos donos das marcas Sazón, Vono e Mid, por exemplo”, diz. A proposta é similar à executada por gigantes como a americana Procter & Gamble e a britânica Unilever e, mais recentemente, a francesa Saint-Gobain: marcas fortes abrigadas sob o guarda-chuva de uma empresa com imagem ainda mais resiliente. “É um movimento global que a Ajinomoto vem adotando”, diz o diretor.

No Brasil, a estratégia da companhia é priorizar condimentos mais sofisticados e que facilitem a vida dos consumidores do chamado mercado gourmet, um filão que tem se mostrado promissor para a Ajinomoto. Enquanto o setor cresceu 10%, no ano passado, de acordo com a Nielsen, a empresa aumentou em 15% suas vendas. Para continuar nesse ritmo, estão sendo investidos R$ 330 milhões durante o triênio 2014-2016, principalmente na criação de novos produtos.

Para este ano, a principal aposta é a linha Satis, especializada em temperos de pratos específicos como almôndegas, gratinados, frango xadrez e frango à milanesa. A ideia é atrair principalmente as mulheres que trabalham fora de casa e que não possuem mais tempo para cozinhar para a família. “É uma forma de agregar sabor e rapidez para essa nova estrutura familiar”, afirma Silva. O que pode atrapalhar os planos da empresa é a questão da saúde alimentar, algo que vem pautando as discussões do setor.

Produtos industrializados são comumente alçados à condição de vilões dos adeptos do estilo de vida mais saudável. Para tentar contornar o problema, a Ajinomoto vem diminuindo a quantidade de nutrientes considerados nocivos, como o sódio, de seus produtos. Um exemplo dessa postura é a sopa Vono. Os novos sabores lançados possuem 23% menos sódio em comparação aos antigos. Já o caldo Sazón é produzido sem nenhum tipo de gordura. “Apesar de ser menos saudável, o sabor pode ser o fator principal da escolha de um produto”, afirma Fábio Mariano, professor de ciências do consumo na ESPM-SP.

“E a maioria das pessoas sai da dieta no fim de semana.” No cenário global, o CEO da companhia, o japonês Takaaki Nishii, se prepara para novas aquisições. A Ajinomoto irá investir US$ 1,7 bilhão em fusões e aquisições até o fim do ano fiscal de 2016, e o Brasil tem chance de beliscar um naco desse dinheiro. Um dos negócios que podem chegar ao País é a linha de congelados.

No ano passado, a Ajinomoto comprou a fabricante americana Windsor Quality Holding por US$ 800 milhões, de olho em um mercado de US$ 40 bilhões anuais, nos EUA. Apesar de negar em um primeiro momento, a companhia não descarta entrar nesse segmento no País. De acordo com a consultoria americana Kantar World Panel, devido à falta de tempo, 61% dos brasileiros optam pela comida congelada, contra apenas 33% no restante dos países da América Latina.