Negócios

Steinbruch vende os anéis

Endividada, a CSN terá de se desfazer de alguns ativos. Para o empresário, presidente  e controlador da siderúrgica, será a hora de provar se é tão bom vendedor quanto comprador

Steinbruch vende os anéis

O vendedor: Steinbruch admite a possibilidade de passar para frente parte dos ativos da CSN, neste ano, para salvar seu império (foto: Daniel Marenco/Folhapress)

Em sua trajetória, o empresário Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), ganhou notoriedade pela voracidade com que costumava ir às compras. Nas grandes privatizações da década de 1990, por exemplo, Steinbruch se destacou. Na época, na plenitude dos seus 40 anos, ele recebeu a missão de procurar novos negócios para o grupo Vicunha, do setor têxtil, fundado por seu pai, Mendel Steinbruch, em sociedade com o empresário Jacks Rabinovich, três décadas antes.

Em 1993, arrematou a CSN, a maior siderúrgica do País, e, quatro anos depois, articulou com o Bradesco e com a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a formação do grupo que levou a mineradora Vale, empresa da qual ele saiu em 2000, após brigar com os sócios. Seu estilo agressivo e “brigão” lhe proporcionou tantas vitórias quantos inimigos e o colocou entre os principais nomes do mundo dos negócios no Brasil. O atual momento do mercado de aço, no entanto, demanda uma postura diferente do empresário.

Sob o risco de ver a CSN em maus bocados financeiramente, em meio à escalada do seu endividamento, que encosta nos R$ 20 bilhões, Steinbruch terá de deixar a voracidade de lado e passar a conjugar o verbo vender com mais frequência. Isso porque os tempos de vacas gordas e, principalmente, dos preços das commodities nas alturas ficaram para trás. “Temos bons ativos, mas que não estão gerando o caixa necessário”, afirmou o empresário, durante evento do setor, na segunda-feira 13. Pela primeira vez, ele admitiu a intenção de negociar ativos do seu grupo ainda este ano.

A venda de ativos já vem sendo aventada como uma saída para a crise financeira da CSN há algum tempo por analistas de mercado. Steinbruch, fiel ao seu modus operandi, sempre se mostrou avesso à ideia. Sua estratégia, afinal, é a de verticalizar. Não foi à toa que ele passou quase uma década em uma intensa briga judicial com a Vale, à época presidida pelo executivo Roger Agnelli, para, finalmente, em 2009, passar a ter o direito de usar o minério da Casa de Pedra, dona da terceira maior jazida de minério de ferro do País, com uma produção de 20 milhões de toneladas anuais, considerada a menina dos olhos de Steinbruch – e hoje um dos seus ativos que podem ser negociados.

A questão é que nem o minério da Casa de Pedra nem o aço da CSN estão encontrando mercado. “Esse setor é muito dependente das vendas de carros e linha branca”, afirma Daniel Marques, analista-chefe da corretora Gradual Investimentos. “São, exatamente, os dois segmentos da indústria com pior desempenho, atualmente.” No primeiro trimestre deste ano, a receita líquida da CSN caiu 8%, para R$ 4 bilhões, em comparação ao mesmo período do ano passado. Em 2014, a queda fora de 6,9%, para R$ 16,1 bilhões, frente ao ano anterior.

O prejuízo líquido da companhia, nos últimos dois anos, soma quase R$ 600 milhões. Seu endividamento atingiu R$ 19,97 bilhões no primeiro trimestre, o equivalente a 4,8 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), acima do limite de três vezes o Ebitda, considerado seguro pelos analistas no setor siderúrgico. O resultado é a perda de 83% do valor de mercado da CSN, que de R$ 41 bilhões, em 2009, patina nos atuais R$ 7 bilhões. Apesar de possuir um caixa de, aproximadamente, R$ 12 bilhões, a situação da CSN não é sustentável por muito tempo, caso os maus resultados perdurem.

O mercado, por sua vez, não tende a melhorar. A expectativa para 2015 é de uma queda de 12,8% no consumo de aço no País, segundo o Instituto Aço Brasil. “A perspectiva é negativa”, afirma Daniela Martins, analista da corretora Concórdia. “O Steinbruch se mostra relutante em vender, mas ele vai ter de tomar essa atitude.” Para muitos observadores, não há tempo para delongas. Como diz um executivo de um grande banco estrangeiro, citado em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo: “hoje eu diria que a situação da CSN é vender o anel para não perder o dedo.

Se esperarem mais um pouco, vão ter de cortar um dedo para não perder a mão.” O próprio Steinbruch já ensaiou os primeiros passos, nessa direção, entabulando negociações com alguns bancos, encarregando-os de encontrar compradores para ativos não estratégicos. Inclusive admite a entrada de sócios em divisões como a de mineração, uma das cinco em que atua o grupo (além da siderúrgica, cimento, logística e energia). Seu primeiro movimento, ao que tudo indica, será passar para frente a participação de 14,1% da CSN na Usiminas. Em abril deste ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou que a empresa deveria vender suas ações na companhia, em virtude da concentração de mercado.

Trata-se de um negócio, aparentemente, mais fácil de concretizar, uma vez que o ativo interessa aos outros sócios de Steinbruch na siderúrgica mineira, no caso a japonesa Nippon Steel, dona de 30% do capital, e o grupo ítalo-argentino Techint, que detém 38%, através da Ternium. Conta a favor do brasileiro o fato de os dois sócios estarem em guerra declarada pelo controle da Usiminas, desde setembro do ano passado. A participação da CSN daria ao comprador uma vantagem. Steinbruch, no entanto, tentou na Justiça obrigar a Ternium a comprar sua parte na empresa, pelo preço das ações vigente em 2011.

Seu argumento era de que, naquele ano, ao adquirir uma participação na Usiminas, a Ternium assumiu o comando de fato e, portanto, deveria ter feito uma oferta pública (OPA) aos minoritários, o que não aconteceu. Essas jogadas, que, no passado, garantiram bons negócios ao empresário, hoje podem atrapalhar. Apesar de ser a “noiva cobiçada” na disputa entre Nippon e Techint, a CSN está também em uma posição delicada. “Dificilmente, a empresa encontrará comprador no mercado para essas ações”, afirma Artur Losnak, analista do Banco Fator. A falta de interessados é um obstáculo, também, para a venda dos outros ativos da companhia. Além da Usiminas, as prioridades de venda seriam, segundo fontes de mercado, as operações nas áreas de logística e energia.

O grupo controla terminais portuários de carvão e minério de ferro no Rio de Janeiro e possui participações nas ferrovias MRS e Transnordestina e em usinas hidrelétricas e térmicas de Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Esses negócios, porém, estão relacionados, de alguma forma, ao setor de aço. Os possíveis interessados seriam, portanto, empresas do setor, a própria Usiminas, cuja situação financeira é mais delicada que a da CSN, e a Gerdau, que anunciou, na segunda-feira 14, um polêmico plano de reestruturação (leia mais aqui). “É difícil saber, neste momento, quem teria interesse em investir nesse setor no Brasil, mesmo tendo dinheiro”, diz Marques, da Gradual Investimentos.

“Talvez os chineses.” A sinuca de bico em que se meteu Steinbruch é fruto de dois componentes. Um deles, incontrolável, é o mercado. Quando traçou seus planos, o empresário surfava como poucos no crescimento do País, que chegou a 7% em 2012, e também no avanço da economia chinesa, cujas taxas de crescimento de dois dígitos praticamente pediam por mais agressividade por parte dos empreendedores. O segundo componente dessa história é, justamente, a dosagem dessa força. Em um momento de crise, é preciso ter paciência, saber a hora certa de investir e, também, de reduzir de tamanho. Steinbruch já mostrou que é muito eficiente na arte de pechinchar na hora da compra. Agora, terá de provar que sabe vender suas joias pelo preço adequado.