Negócios

O remédio da Raia Drogasil

Para não se contaminar com a crise que assola o varejo, a maior rede de farmácias do País quer estar cada vez mais próxima do cliente

O remédio da Raia Drogasil

Marcílio Pousada, presidente da Raia Drogasil: “Gostamos mais de esquinas do que a concorrência” (foto: João Castellano/Istoé)

Lojas vazias, quedas nas vendas e resultados negativos. Boa parte do setor varejista tem sentido os efeitos da recessão que assola o País neste ano. O segmento farmacêutico, no entanto, está passando ao largo dessas atribulações. Por vender artigos de primeira necessidade, como remédios e produtos de higiene, as farmácias costumam ser as últimas a sentirem a retração no consumo. Além disso, o envelhecimento da população brasileira faz com que o mercado seja maior a cada ano. Neste cenário, o negócio está indo bem, mas é certo que algumas redes têm se dado melhor do que as concorrentes.

É o caso da Raia Drogasil, a maior rede varejista de medicamentos do País, com 1.109 lojas em atividade. Por méritos próprios ou por falhas da concorrência, a empresa, que é fruto da fusão entre a Droga Raia e a Drogasil, em 2011, e faturou R$ 7,3 bilhões no ano passado, está crescendo a um ritmo próximo a 20%. No primeiro trimestre deste ano, suas vendas aumentaram 19,2%, superior a 12% da média do setor. E mais. O lucro líquido da Raia Drogasil registrou uma expansão de 99% no mesmo período, para R$ 81 milhões. Qual o segredo? Estar, literalmente, cada vez mais perto do cliente.

Até o final deste ano, a rede irá inaugurar 130 novas lojas em todo o País, especialmente em bairros periféricos. “Gostamos mais de esquinas do que a concorrência e queremos abrir mais lojas nelas”, afirma o presidente da empresa, Marcílio Pousada. A estratégia adotada pela rede paulista segue a tendência do segmento nos últimos anos. As lojas de bairro, mais próximas à residência do consumidor, apresentam maior rentabilidade, já que têm custos menores de operação, como a locação do imóvel. Embora estejam cada vez mais implantada nos bairros, as farmácias da Raia Drogasil mantêm o padrão das unidades das áreas centrais, com 175 m², em média, e estacionamento.

Com esse tamanho, as lojas conseguem expor a mesma quantidade de medicamentos e de produtos de beleza, que proporcionam margens maiores de lucro. Outro fator que impulsiona os negócios, além das lojas de bairro, é o programa Farmácia Popular, do Governo Federal, que subsidia até 90% do valor dos medicamentos. No plano de expansão da rede, o Nordeste terá uma atenção especial. A região representa 19% do faturamento do setor no País, segundo a consultoria IMS Health, e é dominada por pequenas farmácias de bairro e pela cearense Pague Menos, do empresário Deusmar de Queirós.

A Raia Drogasil, com 42 unidades nos Estados nordestinos, ainda tem participação incipiente no mercado regional. Somente neste ano foi inaugurada a primeira loja no Rio Grande do Norte, por exemplo. O Ceará, o Maranhão e o Piauí ainda não contam com nenhuma unidade da empresa. Por essa razão, Pousada pretende inaugurar seu primeiro Centro de Distribuição no Nordeste até dezembro. “Além do Nordeste, nossos estudos mostram que temos espaço para abrir mais 1,2 mil lojas em todo o País”, diz o presidente, que descarta aquisições de concorrentes e não vê, ao menos no curto prazo, a Raia Drogasil expandindo seus negócios para a região Norte do País.

O otimismo do presidente tem contaminado o humor dos investidores. As ações da companhia acumulam valorização de 131,8% nos últimos 12 meses, contra 6,1% do Ibovespa, fechando em R$ 42,78, na quinta-feira 16. Algumas de suas principais concorrentes, porém, não trafegam na mesma direção. A BR Pharma, outra varejista com capital negociado na Bovespa, viu seus papéis se desvalorizarem 77,1% no mesmo período, passando a valer R$ 0,74. O mercado avalia que o motivo principal foi a falta de sinergia entre as diversa empresas de médio porte adquiridas nos últimos anos.

Resultado: a BR Pharma, controlada pelo BTG Pactual, de André Esteves, não conseguiu impor o seu modelo de gestão. Quem enfrenta problema parecido de integração é a DPSP, associação entre a paulista Drogaria São Paulo e carioca Pacheco, em 2011. De acordo com os analistas, a segunda maior rede farmacêutica nacional sofre com as visões diferentes entre seus controladores. A DPSP, inclusive, vem sendo assediada pela gigante americana CVS, que comprou a Drogaria Onofre há dois anos. “O mercado, por ser muito fragmentado, ainda sofrerá com várias mudanças, nos próximos anos”, afirma Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, consultoria de estratégia em varejo.