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Um Setúbal na saúde

O médico José Luiz Setúbal, herdeiro de uma das famílias controladoras do Itaú, prepara-se para consertar as finanças da Santa Casa de São Paulo

Um Setúbal na saúde

O médico Setúbal: “Eu sei que existe uma ansiedade, mas não quero ser visto como o salvador da Pátria” (foto: João Castellano/Istoé)

Na adolescência, o paulistano José Luiz Setúbal ainda não pensava na profissão que iria seguir na sua vida. Na época, sua maior preocupação era o São Paulo Futebol Clube, seu time do coração, que seguia nos jogos pelo interior e que o levava a até faltar às aulas na escola para acompanhar os treinos. Quando teve de escolher uma carreira, não lhe faltava opções. Por ser filho de Olavo Egydio Setubal, o homem que construiu o maior banco privado do País, o Itaú, tudo apontava para uma área ligada às finanças. Mas não foi isso o que aconteceu – ser banqueiro não estava entre seus objetivos.

“As pessoas me interessam mais do que os números”, afirma Zé Luiz, como é conhecido entre os amigos. Esse tipo de convicção fez com que resolvesse cursar medicina na Santa Casa de São Paulo, o maior hospital filantrópico da América Latina. Vinte e quatro anos depois da sua formatura, ocorrida em 1981, Setúbal, aos 58 anos de idade, foi eleito provedor da instituição comandada pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que passa por uma das piores crises desde sua inauguração, em 1884. Em julho do ano passado, o hospital fechou as portas de seu Pronto Socorro alegando falta de medicamentos e de materiais para curativos.

Protestos de funcionários por conta de atrasos nos salários passaram a ser recorrentes no quarteirão onde está situada a Santa Casa, no bairro da Santa Cecília, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Para piorar, surgiram diversas denúncias de irregularidades contra o antecessor de Setúbal, o advogado Kalil Rocha Abdalla. Ele renunciou ao cargo no meio do terceiro mandato, pressionado pela deterioração da situação financeira e pelas investigações promovidas pelo Ministério Público de São Paulo. “Até hoje faltam medicamentos básicos, como antitérmicos”, afirma Luciana Alves, médica que atua no Pronto Socorro.

Além disso, o 13º salário de diversos empregados ainda não foi acertado. Ironicamente, Setúbal perdeu a eleição para Abdalla, em abril de 2014, porque seu discurso previa um choque de gestão na Santa Casa. “Mostramos durante a campanha que se nada fosse mudado, a Santa Casa iria quebrar”, afirma Setúbal. O médico e acionista do banco Itaú, porém, já foi o fiador do ex-adversário em duas eleições, no período 2008-2012. “Abdalla pediu meu apoio e mostrou um projeto com o qual eu concordava”, diz. “Mas nada seguiu da forma que ele prometera.” Procurado pela reportagem, Abdalla não foi encontrado.

Mas por que um dos herdeiros de um império bilionário se preocupa tanto com um hospital filantrópico? Segundo Setúbal, seria muito fácil assinar apenas um polpudo cheque e assistir a gestão à distância. “A Santa Casa faz parte da minha história e da cidade de São Paulo”, afirma. “A falência dela significa a nossa falha como sociedade.” Para evitar a quebra do hospital, Setúbal diz que lembrará dos ensinamentos do pai e dos negócios bancários da família, comandados por seu irmão Roberto. Preceitos comuns na iniciativa privada, como a meritocracia, farão parte da rotina dos cerca de 10 mil funcionários.

Demissões também serão realizadas para tentar conter a dívida da instituição, estimada em R$ 700 milhões. Setúbal levará a experiência de gestão do Hospital Infantil Sabará, cuja fundação mantenedora leva seu nome e é administrada por ele. O médico, especializado em pediatria, se afastará do Sabará, que faturou R$ 160 milhões, em 2014, e obteve um lucro de R$ 4 milhões. “Esses resultados eram esperados apenas para 2017”, diz. Para alcançar tais metas, Setúbal deixou de clinicar há dez anos. Abre exceção somente para pacientes antigos, todos filhos de amigos.

A meta do novo provedor é que a Santa Casa esteja “de pé e caminhando” até o fim do seu mandato, em dezembro de 2016. Uma de suas principais estratégias será aumentar os ganhos do Hospital Santa Isabel, braço que atende pacientes particulares e de convênios. Para se manter com o status de filantrópica, a Santa Casa precisa ter 60% de suas receitas vinculadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, esse percentual é de cerca de 95%. “Temos muito espaço para ganhar com o capital privado”, diz.

A gestão do Setúbal da saúde é vista como uma luz no fim do túnel na instituição. Durante a sessão de fotos para esta reportagem, o novo provedor foi cumprimentado diversas vezes por funcionários. “Eu sei que existe uma ansiedade, mas não quero ser visto como o salvador da pátria”, afirma Setúbal, que fez uma leve alteração no seu lema da juventude. “Eu gosto de pessoas, mas sei que tenho afinidade com os números.”