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A trilha da Tenco no interior

O casal de empresários e montanhistas Eduardo e Adriana Gribel, donos da construtora mineira Tenco, é um dos pioneiros na abertura de shopping centers em cidades pequenas. Até o fim de 2017, vão completar um ciclo de R$ 1,1 bilhão de investimentos

A trilha da Tenco no interior

Mais uma cidade: empreendimento da Tenco em Lages, em Santa Catarina, inaugurado no ano passado. A companhia criou um modelo para acelerar os seus projetos e conseguir abrir dois shopping centers por ano (foto: Gugu Garcia)

A família mineira Gribel passou a semana passada, entre os dias 18 e 26 de abril, vivendo uma aventura. Cinco de seus integrantes, liderado pelo patriarca Eduardo e a sua esposa, Adriana Gribel, escalaram o Monte Roraima, na tríplice fronteira do Brasil, Venezuela e Guiana. Desde 1994, o casal, dono da empresa de shopping centers Tenco, escala montanhas em todo o mundo. Muitas vezes, juntamente com três dos seus quatro filhos. Mas, desta vez, foi diferente. Eles foram acompanhados por 20 funcionários da Tenco. O motivo é a comemoração da abertura do Roraima Garden Shopping, em Boa Vista, capital de Roraima, que aconteceu no final do ano passado.

Esse só não foi o primeiro centro comercial de grande porte inaugurado no Estado porque o concorrente Pátio Roraima Shopping abriu as portas três dias antes. Nada capaz de tirar o título de desbravadores dos Gribel, também no mundo dos negócios. “Não só o montanhismo, mas o esporte, em geral, traz uma grande relação com o trabalho nas empresas”, diz Adriana, vice-presidente da Tenco. “É preciso um espírito de equipe, de associação, perseverança e garra.” A companhia, fundada em 1988 por Eduardo Gribel é uma das pioneiras dentre as grandes incorporadoras de shopping centers do País, na exploração de mercados fora das grandes capitais.

Com outros oito shoppings em desenvolvimento e um faturamento esperado de R$ 150 milhões para este ano – aumento de 50% sobre 2014 – a Tenco inaugurou, já em 2007, um centro de compras em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Mas a estratégia de foco no interior nunca foi tão importante quanto agora. A empresa está no meio de um ciclo de R$ 1,1 bilhão de investimentos, que deve se encerrar em 2017, quando a sua carteira deve somar 32 shopping centers desenvolvidos. No ano passado, além do empreendimento em Roraima, a Tenco abriu um centro de compras em Lages, em Santa Catarina.

Para este ano, estão previstas inaugurações em Juazeiro (BA) e Varginha (MG). Logo em seguida, receberão projetos da Tenco as cidades de Itaquaquecetuba (SP) e Guarapuava (PR). Também estão na fila de lançamento Viamão (RS) e Rondonópolis (MT). “Temos um ritmo de dois novos shoppings por ano”, afirma Gribel. “Para escolhermos uma cidade, é necessário que ela atenda a alguns requisitos: população de, pelo menos, 200 mil pessoas na região, uma boa renda média e o interesse de, ao menos, duas das três grandes âncoras brasileiras, como Renner, Riachuelo e C&A, se instalarem lá.”

Nos últimos anos, a trilha explorada pela família Gribel rumo ao interior tem sido também percorrida pelas incorporadoras rivais. Em 2014, pela primeira vez, o número de shopping centers no interior superou o das capitais. São agora 263 contra 257. Essa era uma tendência que se esboçava desde 2010 (ver quadro). “No ano passado, foram inaugurados 18 shopping centers fora das capitais e só seis nelas”, diz Glauco Humai, presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers. “Existia uma mentalidade no setor de que não se podia entrar em cidades com menos de um milhão de habitantes. 

Hoje, 41% deles estão em cidades com população com menos de 500 mil pessoas.” Para não perder o pique e diferenciar-se dos competidores que clonam o seu modelo de negócios, a Tenco elaborou uma estratégia particular. Seus shopping centers seguem sempre o mesmo padrão, uniformizando desde o desenho arquitetônico à estrutura utilizada no telhado. A padronização permite economizar na compra de materiais e ganhar agilidade na construção.

“Para crescer como queríamos, não dava pra fazer projetos artesanais”, diz Adriana. “Fomos lapidando um modelo, que agora deve permanecer o mesmo por muito tempo, é quase um fordismo em shopping centers.” Quando a Tenco adquire o material de construção para um projeto, já faz o pedido para o empreendimento seguinte. Isso dá previsibilidade para o fornecedor e ganho de escala para a construtora. O projeto inicial de cada shopping também envolve sempre a mesma cadeia de cinemas, a americana Cinemark, para a qual a incorporadora sempre deixa prevista uma área para que possa instalar as suas salas.

Ao mesmo tempo em que corre para bater a meta de 32 empreendimentos, em até dois anos, a Tenco se estrutura para garantir a remuneração do investimento bilionário. Esse valor foi levantado com uma divisão de 40% de recursos próprios e 60% de financiamentos, garantidos por bancos de fomento do Norte e do Nordeste, além do Bradesco. O retorno dos investimentos deve acontecer com uma abertura de capital, que pode se dar entre 2016 e 2017. Quando isso acontecer, certamente haverá mais uma escalada da família Gribel. Só falta escolher o destino.