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Cinépolis muda o roteiro

Após cogitar a  venda da operação brasileira, a gigante mexicana de cinemas finalmente engrena no País, que se torna o seu segundo maior mercado

Cinépolis muda o roteiro

Acuña, presidente: “A empresa tem de estar aqui se quiser ser globalizada” (foto: Divulgação)

Em dezembro de 2009, quando desembarcou com a mulher e a filha no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, o executivo mexicano Eduardo Acuña acreditava que não teria maiores problemas para comandar a operação brasileira da Cinépolis. A empresa, maior rede de cinemas da América Latina, com faturamento global de R$ 3,1 bilhões, se preparava para entrar na economia mais pujante da região, que acabara de ultrapassar a “marolinha” causada pela crise mundial e se preparava para voltar a crescer a um ritmo chinês. “Eu estava confiante”, diz Acuña.”O que mais me preocupava, naquele momento, era não encontrar um médico que falasse espanhol para a minha família.”

O otimismo com o País tinha fundamento. Impulsionado pelo crescimento da classe média, o setor de shopping centers inaugurava um estabelecimento atrás do outro, em todo o País. Em 2010, foram 18 empreendimentos lançados, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers, um recorde até então. A bilheteria dos cinemas seguia em alta e pela primeira vez ultrapassou a barreira de R$ 1 bilhão arrecadado. O otimismo, no entanto, logo virou preocupação. “Chegamos a ter oito contratos negociados, faltando só a assinatura, mas os empreendedores preferiram trocar por empresas de cinemas já estabelecidas”, diz Acuña.

Quando conseguiram fechar o primeiro contrato com o shopping Santa Úrsula, em Ribeirão Preto, os mexicanos começaram a sentir no bolso o até então desconhecido Custo Brasil. Segundo Acuña, o preço para se construir um cinema no Brasil é 80% maior do que no México. Além disso, demora, no mínimo, três meses mais para ser construído. Isso, sem contar a reserva de 2,5% das vendas para o pagamento de direitos autorais, uma das maiores porcentagens cobradas no mundo. Não bastasse isso, os executivos da matriz começaram a criticar o pálido desempenho da operação brasileira.

A meta estabelecida era contar com 300 salas até 2012. Em dezembro daquele ano, apenas 176 haviam sido abertas. “A empresa cogitou vender a operação no Brasil”, diz Acuña. Para mudar o roteiro do filme da Cinépolis no Brasil, o presidente da empresa fez um intenso trabalho de esclarecimento junto aos executivos da matriz. O desafio era explicar a complexa fórmula da operação brasileira, que precisa vender 30% mais ingressos em relação ao México, a um preço também 30% mais caro, para obter uma rentabilidade equivalente à metade.

“Não há como comparar a lucratividade do Brasil com a do México, mas a empresa tem de estar aqui se quiser ser globalizada”, diz. Para convencer seus chefes, Acuña teve de comprovar o potencial do mercado brasileiro. Existem no País 2,8 mil salas de cinema, a metade da rede existente no México. Ou seja, há por aqui um gigantesco potencial para expansão. A argumentação funcionou. Com parte de um investimento de R$ 500 milhões, a empresa até saiu às compras, adquirindo seis cinemas da mineira Cinemais, neste ano, por um valor não divulgado. A aquisição se somou à da Box Cinemas, incorporada em 2011.

Com isso, a meta de atingir a marca de 300 salas de cinema foi alcançada em outubro passado, colocando a operação brasileira como a segunda maior operação da companhia, e na vice-liderança do mercado nacional, atrás da americana Cinemark, que possui 540 unidades. Neste ano, o faturamento da subsidiária brasileira deve alcançar R$ 320 milhões. Mais do que os novos estabelecimentos, a Cinépolis passou a diversificar seu público. Em São Paulo, por exemplo, possui cinemas em shoppings que vão desde o popular Itaquera, na zona leste da capital, até o luxuoso JK Iguatemi.

O plano foi manter o mesmo padrão de serviço em todas as suas unidades. “No ano que vem investiremos mais R$ 75 milhões em 30 salas próprias”, diz Acuña. O setor das telonas, no entanto, prevê uma briga digna de filme de ação. O crescimento de empresas prestadoras de serviços on demand, como Netflix, TelecinePlay e HBO Go, ameaçam afastar o público das salas de cinema. Em outubro, nos EUA, o Netflix anunciou que lançará filmes de forma simultânea com os cinemas. “Os serviços como Netflix são o maior desafio dos exibidores”, diz Paulo Sérgio Almeida, diretor do portal Filme B, referência no mercado de cinemas.