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A última de Paes Mendonça

Alheio à paradeira na economia, o dono do grupo pernambucano JCPM anuncia investimentos de R$ 640 milhões na expansão de sua rede de shopping centers no Nordeste

A última de Paes Mendonça

Força sertaneja: o primeiro negócio da família Paes Mendonça foi uma mercearia, em 1935, no interior de Sergipe (foto: Jarbas Oliveira/Valor)

O povoado de Serra do Machado, no município de Ribeirópolis, no sertão de Aracaju, é uma localidade de gente pacata, onde a vida segue de forma lenta, devido à modorra provocada pelo sol escaldante. Mas, desde 1935, Serra do Machado também ficou conhecida como o berço de um dos maiores conglomerados empresariais do Nordeste, o grupo JCPM, que leva as iniciais do nome de seu fundador e controlador, o empresário João Carlos Paes Mendonça. Foi lá que Pedro, pai de João Carlos, criou o embrião do que viria a se transformar na terceira maior rede varejista de alimentos do Brasil, o Supermercado Bom Preço, vendida para a gigante holandesa Royal Ahold, em 1996.

Honrando a tradição da família, Paes Mendonça segue firme no varejo. Só que desta vez ele usa seu conhecimento para construir uma vigorosa rede de shopping centers. Para o período 2015-2016, sua meta é investir R$ 640 milhões nas cidades de Salvador, Aracaju e Fortaleza. A maior aposta será na capital cearense, com o lançamento de mais um complexo de compras e torre de escritórios, batizado de RioMar Presidente Kennedy. O projeto vai consumir R$ 480 milhões. Os R$ 160 milhões restantes serão gastos na ampliação do RioMar Aracaju e do Salvador Norte Shopping.

Pode parecer uma temeridade diante dos prognósticos negativos em relação ao consumo e à economia em geral, mas ele garante que tem os pés no chão. “Os problemas existem, mas ficar deitado em berço esplêndido não é a solução”, afirma o controlador e presidente do grupo JCPM. “Tem de trabalhar em dobro, ser criativo e inovar.” Mais que discurso, essa filosofia vem funcionando como um verdadeiro mantra para Mendonça, cujo portfólio inclui, ainda, o setor de comunicação, com uma rede de emissoras de rádio e TV sob o guarda-chuva do Jornal do Commercio, do Recife. O shopping que o empreendedor acaba de anunciar será o segundo do grupo em Fortaleza.

Em 29 de outubro, ele cortou a fita de inauguração do RioMar Fortaleza. Com 93 mil m² de área bruta locável (ABL), o centro de compras já nasceu com 93% das lojas locadas, incluindo gigantes do Sul e do Sudeste, como Renner, Zara e Tok&Stok. No total, no período 2013-2014 foi investidos R$ 1,3 bilhão. “O segredo desse negócio é criar infraestruturas modernas, capazes de atrair empresas dos mais variados perfis”, diz Paes Mendonça. “A qualidade conta muito também, pois os investidores globais só vão para regiões onde existem mercado consumidor e infraestrutura adequada.” Ele sabe bem o que está falando. Seu RioMar Recife é conhecido por abrigar grifes de renome e desejadas, como Prada e Gucci.

A estratégia empresarial de Mendonça é avaliada como acertada por consultores como Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercados de Consumo (Ibevar). “Em momento de desvalorização de ativos é quando os grupos que estão capitalizados aproveitam para reforçar sua posição no mercado”, afirma De Angelo. De fato, as tacadas de Paes Mendonça nas principais metrópoles do Nordeste têm se intensificado nos últimos cinco anos. Ele foi um dos empresários que melhor souberam surfar na onda do crescimento da região, vitaminada pelas políticas de distribuição de renda, programas sociais e investimentos em infraestrutura.

Sobre os problemas econômicos, que fizeram com que o crescimento do PIB desacelerasse para o patamar abaixo de 1% previsto para o ano, inclusive na região, o dono da JCPM é categórico. “Nasci no varejo e já vi tudo que foi crise e continuamos por aqui.” Para reduzir a exposição do negócio, Paes Mendonça passou a adicionar torres de escritório aos seus empreendimentos comerciais. Apesar do discurso otimista, o empresário diz que o momento exige cautela. Segundo ele, para ser bem-sucedido no mercado nordestino, não basta dinheiro. É preciso ter um profundo conhecimento da região e de suas peculiaridades. “Tem de ser genuíno”, diz. “O nosso mercado não é fácil e os consumidores são muito exigentes.”