Negócios

A Asics corre por fora

Marca japonesa, conhecida pelos seus tênis de corrida, dribla o confronto direto com Nike e Adidas no futebol para alcançar a terceira posição do mercado de artigos esportivos

A Asics corre por fora

Decker, presidente: “Somos e queremos ser conhecidos como uma empresa de produto, não de marketing” (foto: Thiago Bernardes/Frame)

O executivo gaúcho Giovani Decker quase se tornou jogador profissional de futebol antes de ser presidente da subsidiária brasileira da Asics, empresa japonesa de artigos esportivos que faturou R$ 5,7 bilhões globalmente no ano passado. Até os 19 anos, Decker peregrinou pelas categorias de base do São Paulo e do Grêmio, de Porto Alegre, seu time do coração. Ao receber um ultimato de seu pai, que o intimou a trabalhar “de verdade”, ele abandonou o sonho, mas decidiu seguir na área esportiva. Coincidência ou ironia do destino, ele foi parar numa empresa que não quer saber de futebol. Pelo menos, por enquanto.

Marca licenciada pela Vulcabras-Azaleia entre 2002 e 2007, a Asics se deu conta de que estava perdendo o passo no mercado por não possuir operação própria no País. “Abrimos a porta da esperança e a Asics deixou de ver o Brasil apenas como um parceiro em licenciamento”, diz Decker. O momento, com crescimento econômico pujante e consumo em alta, parece ter sido o mais apropriado. “Foi a época certa de entrar, pois os consumidores brasileiros estavam com dinheiro para comprar itens mais sofisticados, como tênis de marca e perfumes importados”, diz Cláudio Felisoni, professor do programa de Administração de Varejo da Fundação Instituto de Administração (FIA).

De fato, estavam comprando. Desde 2007, segundo o presidente da Asics, o faturamento da companhia se multiplicou por 15. “Nossas vendas saltaram exponencialmente”, afirma Decker, sem revelar números. “Começamos com dez funcionários e agora temos mais de duzentos.” Embora não existam números oficiais, a empresa afirma ser a líder no setor de corrida de performance, que representa 70% de sua receita no País, estimada em R$ 280 milhões em vendas no ano passado. Oficialmente, o Brasil assumiu a sexta posição no ranking global dos maiores mercados da Asics no ano passado. Em 2011, o País não figurava sequer entre os top 10.

Parte desse sucesso é atribuída ao lançamento de modelos de tênis extravagantemente coloridos, fenômeno que começou no Brasil e virou moda em todo o mundo. “Percebemos que o brasileiro queria cores mais chamativas. Até os japoneses, acostumados a roupas pouco discretas, estranharam no início”, diz o executivo, que rechaça a ideia de que o sucesso da Asics tenha sido apenas pelos seus calçados fluorescentes. “Somos e queremos ser conhecidos como uma empresa de produto, não de marketing.” Para comprovar isso, a empresa investe forte em eventos esportivos. Além das provas de corrida de rua, patrocina equipes de vôlei e alguns jogadores como o levantador Bruno Rezende, o Bruninho, filho do técnico Bernardinho.

No handebol, a Asics é a patrocinadora oficial da seleção brasileira feminina, atual campeã mundial, e de Alexandra Nascimento, um dos principais nomes da modalidade. “Buscamos sempre apoios de longo prazo, porque, antes de marketing, queremos fomentar a prática esportiva”, diz Decker. Neste ano, a maior jogada da Asics ocorreu no tênis, com o apoio dado ao ATP 500, principal campeonato da modalidade no País. “Só continuamos o que já estávamos fazendo”, afirma o executivo. “A maioria dos tenistas do Brasil é patrocinada por nós.” A meta da subsidiária brasileira para este ano é ousada: crescer 30%, ampliar de seis para nove o número de lojas-conceito e outlets no País e chegar à quarta posição em faturamento do grupo japonês no mundo.

Ainda como a quinta marca colocada em vendas no Brasil, a Asics quer se aproximar das líderes Adidas e Nike até a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. “Sabemos que podemos incomodá-las ainda mais”, diz Decker, que não vislumbra, no curto prazo, embarcar no milionário mercado do futebol, embora a empresa já fabrique chuteiras no Exterior. “No futuro, quem sabe? Mas não é nosso foco.” De qualquer forma, apesar de correr três vezes por semana, jogar tênis e ainda treinar crossfit – programa de condicionamento usado por policiais da americana SWAT –, Decker não abandonou a paixão pelo esporte bretão. “Quando os meus amigos gremistas virem este tênis vermelho, vão fazer piada”, disse o executivo, durante a sessão de fotos que ilustra esta reportagem.