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Estou de ressaca do etanol, diz Marcelo Odebrecht

Em bate-papo exclusivo ao portal da DINHEIRO, o empresário baiano fala de seus projetos.

Estou de ressaca do etanol, diz Marcelo Odebrecht

Marcelo Odebrechet comanda um grupo que emprega 200 mil pessoas e cujo faturamento chegou a quase R$ 100 bilhões em 2013


Aos 45 anos, o engenheiro baiano Marcelo Odebrecht lidera, desde 2008, um conglomerado de empresas que fatura cerca de R$ 100 bilhões por ano. Neto do fundador Norberto Odebrecht e filho de Emílio Odebrecht, atual presidente do Conselho de Administração, Marcelo conduz um amplo processo de diversificação da companhia, originada na construção civil. São 16 negócios em diversos setores no Brasil e no Exterior, como infraestrutura, empreendimentos imobiliários, petroquímica, óleo e gás e energia. Otimista e sempre olhando no longo prazo, o empresário participou de um bate-papo de uma hora e meia para marcar a estreia do novo portal da DINHEIRO. “O Brasil não tem riscos do ponto de visto macroeconômico”, afirma Odebrecht. “Só não estou completamente bem humorado por causa da minha ressaca do etanol. Na minha cabeça, esse setor é um caos.”

DINHEIRO – Por que a Odebrecht vem diversificando a sua área de atuação nos últimos anos?

MARCELO ODEBRECHT – Na verdade, o processo de diversificação da Odebrecht começou em 1979, quando entramos na petroquímica. A diversidade é mais longa do que se imagina. Fomos a primeira empresa a ter sonda de perfuração, na década de 1970, para atender a Petrobras. Só que nós tivemos um revertério no final de 2000, gerado pela crise dos países emergentes. Assim, como a maior parte das empresas brasileiras, tínhamos dívida em dólar. Naquele momento, tivemos de fazer uma consolidação, desmobilizar vários ativos e nos concentramos, para sobreviver, só na petroquímica e na construção, que na época eram os dois grandes negócios do grupo.

DINHEIRO – E depois disso voltou a diversificar…

ODEBRECHT – Sim, mas aí, naturalmente, tínhamos aprendido com os erros do passado. Reiniciamos a diversificação com muito cuidado e foco nas oportunidades. Não existe, na verdade, um planejamento estratégico em que cinco pessoas ficam sentadas em torno de uma mesa definindo os rumos do crescimento. São os nossos empresários-parceiros que identificam a oportunidade e a desenvolvem até virar ou não um negócio. Temos alguns pressupostos importantes. Um deles é que só entramos em negócios que conhecemos, com as pessoas certas e uma oportunidade bem identificada. Naquelas vezes em que nós não respeitamos esse mandamento, que é da nossa cultura, nos demos mal. Foram coisas que custaram muito mais do que deveriam custar.

DINHEIRO – Foi o caso do investimento em etanol?

ODEBRECHT – Em parte, sim. Eu diria que o etanol é um caso específico. Já havia pessoas na organização que dominavam o negócio do etanol, mas ele não seguiu propriamente o modelo que defendemos. Ou seja, não veio de uma oportunidade, não era uma spin-off (termo em inglês é usado para definir uma nova empresa que surge a partir do desdobramento de algo já desenvolvido ou pesquisado anteriormente). O negócio de óleo e gás, por exemplo, veio de uma spin-off da construtora. O etanol, não. A maior parte das pessoas era gente que conhecíamos, mas não eram da organização. Porém, o problema não foi isso. O problema do etanol foi a mudança que teve no setor. Desde que entramos, houve o problema da eliminação da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) da gasolina. É um problema externo ao grupo. É um fator de mercado mesmo.

DINHEIRO – No governo Lula, havia uma clara defesa do etanol, inclusive no Exterior. Isso mudou?

ODEBRECHT – Existem dois problemas. O etanol cresceu e chegou ao auge de forma muito concentrada no Estado de São Paulo. Todas as variedades de cana-de-açúcar, todo o conhecimento agrícola de produtividade, tudo foi desenvolvido para São Paulo. Só que na nova fase, em 2007 e 2008, quando entramos no setor, não tinha como crescer mais prioritariamente no Estado. Então, grande parte do crescimento se deu em novas fronteiras, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. O problema é que se subestimou o custo de aprendizagem de ir para essas novas fronteiras. As empresas não estão obtendo nesses locais a mesma produtividade paulista. Um dia vai chegar lá, mas isso leva tempo. Veja o exemplo da soja. Quando o Brasil começou a produzir soja no cerrado, o índice de produtividade era pior do que nos Estados Unidos. Hoje, somos tão produtivos quanto os americanos.

DINHEIRO – E o segundo problema?

ODEBRECHT – Chama-se Cide. O combustível mais competitivo do mundo é a gasolina. Até hoje não inventaram nada tão competitivo. No Brasil, a gasolina compete com o etanol diretamente na bomba. Só que não tem como comparar a competitividade da gasolina com a do etanol, até porque o etanol tem 30% a menos de desempenho. Hoje até se questiona isso, pode ser uma diferença de 20%. Mas, de qualquer forma, o etanol tem de estar na bomba 20% ou 30% mais barato. Em 2001, havia uma Cide de quase R$ 0,30 por litro de gasolina, o que equilibrava um pouco o jogo. A partir de 2008, o governo começou a reduzir a Cide para aliviar o caixa da Petrobras. Em vez de aumentar o preço da gasolina, reduzia a Cide e dava essa diferença para a Petrobras. Na bomba, ficava o mesmo preço. Mas o que aconteceu? A Petrobras teve os 30 centavos de aumento dela e o etanol, não. Esse é o grande problema. O grande problema do setor tem um nome: Cide. Com esses 30 centavos, tudo se resolveria. Nós conseguiríamos compensar a ida para as novas fronteiras. O problema foi retirar esses 30 centavos.

DINHEIRO – Há alguma solução à vista no horizonte?

ODEBRECHT – Tem de voltar a Cide. Eu acho que tem de voltar dentro de um novo contexto. Há um interesse dos prefeitos em direcionar a arrecadação da Cide para o transporte público. Ou seja, volta a Cide, mas em vez de o dinheiro arrecadado ser destinado simplesmente para fazer investimento ou custear a máquina, o governo reduziria a tarifa de transporte público. Assim, você penaliza um combustível fóssil em prol de um combustível sustentável, melhorando o ar das cidades e devolvendo competitividade ao etanol. Se fizer isso, pode até ter uma diminuição da inflação porque o impacto na gasolina é compensado pela redução da tarifa de transporte público.

DINHEIRO – Após investir R$ 10 bilhões e não ganhar um centavo, o sr. vai continuar apostando no etanol?

ODEBRECHT – Sim, vamos continuar. Estamos apostando nisso. Não há como o Brasil voltar atrás. Cerca de 40% do combustível brasileiro é hoje suprido por etanol. Em algum momento tem de se encontrar uma solução. O pessoal questiona muito as dificuldades que existem, por exemplo, na Petrobras. Eu acho que é preciso olhar o setor de etanol, com muito cuidado. Talvez seja o setor que mais tenha sofrido. Mas isso não muda em nada a nossa confiança de que, no médio e longo prazo, vamos resolver esse assunto.

DINHEIRO – A Odebrecht está investindo em aeroportos, rodovias e metrô. A falta de infraestrutura no País representa oportunidades de negócios?

ODEBRECHT – Você colocou aí três questões distintas. São negócios que têm especificidades bem próprias. Rodovias, aeroportos e a questão da mobilidade urbana, com o metrô. Tudo depende de existir um bom projeto em jogo. O Brasil tem hoje um déficit enorme de infraestrutura de logística, que afeta a competitividade da indústria e do agronegócio. Na logística, tem de olhar toda a cadeia. Não dá para olhar isoladamente só o porto ou a rodovia. Tem de olhar os eixos. Tem de dar competitividade para o produtor da soja do Centro-Oeste ser mais produtivo. Outro ponto é a mobilidade urbana. É inegável que a qualidade de vida do brasileiro melhorou nos últimos dez anos, principalmente para aquela população de menor poder aquisitivo. A educação está onde nós queremos? Não, mas acho que ela melhorou. A saúde está onde queremos? Não, mas melhorou. O brasileiro teve acesso a serviços que não tinha, como telefonia e tudo mais? Sem dúvida. Onde houve piora? Na mobilidade urbana. Hoje, o brasileiro das grandes cidades gasta muito mais tempo para chegar ao trabalho. Isso gera todo um processo não só de perda de qualidade de vida – até porque perde o único bem não recuperável do ser humano, o tempo –, mas também gera improdutividade para a economia. Então, vejo esses déficits como oportunidade de investimento.

DINHEIRO – Quais projetos interessam?

ODEBRECHT – Nós vemos oportunidades em rodovias e mobilidade urbana. Agora, temos de avaliar projeto a projeto, porque há projetos que têm retorno econômico e outros que não têm. Em concessão, tem de ser muito seletivo e olhar projeto a projeto. Por isso, você vê alguém pagando um ágio muito grande porque, com certeza, olhou atentamente e percebeu onde podia extrair valor daquele projeto. Há outros em que não aparece ninguém interessado.

DINHEIRO – A Odebrecht ofereceu R$ 19 bilhões pela concessão do aeroporto do Galeão. O sr. não estava na Bovespa naquele dia. Levou um susto ou já tinha assinado o cheque antes do leilão?

ODEBRECHT – Para falar a verdade, naquele dia eu estava sendo operado de desvio séptico. Então, só soube da notícia depois. Eu não sabia o preço que iam ofertar. Soube depois. Foi um acerto feito entre nós, entre nossa equipe e o outro sócio (Changi, de Cingapura). Sempre tive plena confiança de que iriam chegar ao melhor preço. O Galeão é o aeroporto do Brasil com o maior potencial de crescimento de receita. O pessoal estudou muito aquilo ali. Não é um investimento de R$ 19 bilhões, à vista. É uma outorga que você paga ao longo da concessão, junto com o crescimento das receitas. Eu nunca fiquei preocupado, tenho confiança na equipe. O assunto foi muito bem estudado. Desde a época que nós estudamos Viracopos (a concessão foi feita em 2012), sabíamos que o melhor para nós era o Galeão. Não deixamos de olhar Guarulhos e Viracopos, mas entendíamos que o Galeão sempre foi melhor projeto.

DINHEIRO – Por falar em R$ 19 bilhões, qual foi a sua reação como empresário quando viu que o Facebook havia pago US$ 19 bilhões por um aplicativo de celular, o WhatsApp?

ODEBRECHT – Veja bem. Eu não entendo nada desse negócio. Dito isso, eu não acho que ele pagou pelo negócio em si, mas pelo que o negócio traz dentro da plataforma dele. O WhatsApp não deve nunca valer US$ 19 bilhões. Mas quanto ele vale dentro do Facebook e agrega valor ao Facebook? Não sei, mas com certeza ele (Mark Zuckeberg) fez a conta de quanto isso vale. Aí não tem como avaliar. É uma negociação em que o vendedor consegue extrair do comprador um valor que está dentro da sinergia. Na verdade, foi isso.

DINHEIRO – Mas é espantoso, não é? O sr. ficou surpreso? Foi a maior transação nesse mundo da tecnologia…

ODEBRECHT – Claro que fiquei surpreso. Se o WhatsApp vale US$ 19 bilhões, quanto está valendo o Facebook? E o WhatsApp dentro do Facebook? Primeiro você tem de ficar surpreso com o valor do Facebook. Se você não ficar surpreso com o valor do Facebook talvez não fique surpreso com o valor do WhatsApp.

DINHEIRO – Essas empresas de tecnologia valem tudo isso? Para o sr., cuja origem é o tijolo, dá para avaliar esses negócios no mundo virtual?

ODEBRECHT – No fundo são coisas de risco. Algumas vão acabar se transformando. Não é nem intangível, é crescimento intangível. Há empresas que têm o intangível, mas também um tangível já sólido, como marca, reputação. O deles é crescimento intangível. Algumas vão se confirmar e outras não. É um negócio de muito risco. Eu não invisto nessa área. Posso perder oportunidades, mas não vou investir em algo que eu absolutamente não entendo.

DINHEIRO – Voltando às concessões, houve reclamações de que o governo demorou demais e ficou controlando a Taxa Interna de Retorno, a TIR. Foi isso mesmo?

ODEBRECHT – Não houve exatamente isso. O vendedor, que é o governo, tem a TIR dele e faz as contas baseada nela. Já o comprador faz as contas com base na sua TIR. Taxa Interna de Retorno não é algo dado, cada um tem a sua, não se impõe ao outro. Não estou nem dizendo que essa questão da TIR não veio à mesa, mas isso não é objeto de negociação, não se muda a TIR do vendedor e do comprador, está embutido no preço. O que houve foi o seguinte: quando as primeiras concessões saíram, verificou-se que havia muitas questões que precisam ser alteradas, do ponto de vista de projetos, de premissas de cálculo de demanda. Ou seja, os estudos precisavam ser melhorados. Essas melhorias ocorreram, algumas mais, outras menos, tanto que houve caso de deserto (sem investidor) e casos de ágio, de muita concorrência. Porque não dá para olhar só a tarifa. A tarifa está embutida em um pacote de estudos, premissas, financiamento etc. O diálogo do governo com o setor privado foi fundamental. Sem o diálogo e sem as alterações, não teria havido sucesso no leilão. O ideal é sempre que o governo erre a TIR para cima, pois vai atrair mais competidores e, pela dinâmica da licitação, as pessoas estudam aquilo com mais profundidade, acham onde pode agregar e aí o valor despenca. Se o governo coloca um valor mais ajustado, as pessoas investem menos, até porque para você estudar uma concessão custa R$ 10 milhões ou R$ 20 milhões. Então, o ideal é sempre jogar o preço do pedágio para cima e deixar a competição ajustar.

DINHEIRO – O setor de ferrovias interessa à Odebrecht?

ODEBRECHT – Em tese, toda a concessão de logística nos interessa, mas temos de ver projeto a projeto. Acho que a lógica do modelo que está sendo criado faz sentido, de separar a infraestrutura da operação logística. No caso da nossa empresa, a Odebrecht TransPort, ela é mais operadora logística. É provável que a Odebrecht esteja mais interessa na parte de operação do que na parte da infraestrutura, da qual podemos, eventualmente, participar como construtora.

DINHEIRO – Por que a Odebrecht não participou da concessão do Metrô de Salvador? O governo da Bahia reclamou…

ODEBRECHT – É o que falei, a conta econômica não fechou. O projeto de metrô, principalmente, é muito complexo. Aí, às vezes, o poder concedente tem uma premissa e avalia o cenário de demanda, o cenário de risco, o cenário de custo de uma maneira e o privado avalia de outra. No caso específico do metrô da Bahia, nós não conseguimos chegar a um valor que nos atraísse. Não vou entrar em um projeto para depois não “performar”.

DINHEIRO – Por que a Odebrecht está tão interessada em estádios?

ODEBRECHT – Na verdade, estamos efetivamente em três estádios: Maracanã, Fonte Nova e Pernambuco. E construindo o do Corinthians. Não houve um planejamento específico para estar nesse negócio. Isso veio como consequência de algumas oportunidades na Copa do Mundo, em que se conseguiu levar uma gestão privada para os estádios, num modelo de PPP (parceria público-privada), que eu achei acertadíssimo. Estamos vendo uma oportunidade de propiciar infraestrutura para entretenimento, que é uma carência do Brasil.

DINHEIRO – No caso da construção do estádio do Corinthians, por que houve problema com o BNDES para a liberação do empréstimo? Quem tinha de dar a garantia?

ODEBRECHT – Na verdade, os bancos se recusaram a financiar diretamente os clubes, por causa de seu endividamento. No caso do Corinthians, nós montamos uma estrutura em que o dono do estádio, até que a dívida seja paga, é um fundo imobiliário, cujo cotista júnior é o Corinthians. Portanto, depois que a dívida for paga integralmente, o estádio será do Corinthians. Na prática, o clube é o dono das cotas, é o virtual dono do estádio, mas só vai tê-lo, de fato, quando pagar as dívidas. Com isso, conseguimos uma estrutura blindada que os bancos aceitaram. Houve todo um processo de negociação que, sem dúvida, demorou muito mais do que deveria. Quando entramos nesse processo, não seria um estádio da Copa do Mundo. Era para ser um estádio pequeno, que custaria R$ 300 milhões ou R$ 400 milhões, valor que o Corinthians pagaria tranquilamente e que não seria difícil financiar.

DINHEIRO – Então o sr. foi pego de surpresa?

ODEBRECHT – Com o problema que houve no estádio do Morumbi, o estádio do Corinthians se tornou a única opção para ter a abertura da Copa, em São Paulo. Naquele momento, houve uma solicitação para o Corinthians, que não precisava bancar um estádio daquele tamanho. Então, houve um compromisso da prefeitura de dar incentivos para levar desenvolvimento para Itaquera. A prefeitura aproveitou uma lei que já existia, em que projetos que levem desenvolvimento de uma região e, portanto, aumente a arrecadação daquela região, pudessem ter uma parte desse ganho através do Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento (CID). Portanto, quem vai pagar esses benefícios não é a prefeitura, é a própria geração maior de impostos na região. O estádio valorizou o IPTU da região. Assim, o estádio se “autopaga”. Os R$ 420 milhões da CID se “autopagam”. Já o BNDES tinha o compromisso de financiar até R$ 400 milhões de todos os estádios da Copa. O que nós vimos desde então foi que, por uma burocracia, o financiamento atrasou. E a cada dia era uma novidade. A CID, até agora, só existe no papel, mas não tem a garantia de monetização. Então, quer dizer, no fundo, até hoje, só quem cumpriu a sua parte foi o Corinthians e a Odebrecht. É um absurdo que as outras partes não tenham cumprido o que foi combinado.

DINHEIRO – Por que todo estádio começa com uma previsão de custar um valor e termina custando mais?

ODEBRECHT – Não é assim. O custo do estádio do Corinthians vai estar muito em linha com que foi acordado. A vantagem é que, quando se definiu que seria o estádio da abertura, já havia todas as especificações da Fifa. Os outros estádios que começaram antes sofreram com as novas especificações da Fifa, como questões ligadas a comunicações e tecnologia. Portanto, o que houve nos estádios foi a mudança no caderno de encargos da Fifa.

DINHEIRO – Qual a importância das obras no Exterior para o Grupo Odebrecht?

ODEBRECHT – Na verdade, a Odebrecht atua no Exterior desde a década de 1980. Há 40 anos, o Exterior representa algo como 60% a 80% do faturamento da construtora. Ou seja, o Brasil nos últimos 30 anos representou algo como 40% a 20%. Essa é uma realidade. Não é que o Brasil não esteja crescendo, mas a América Latina, a África e os Estados Unidos também estão crescendo. Nunca houve uma prioridade em detrimento do Brasil. Atualmente, o Exterior tem uma parcela mínima, representa 15% do faturamento do grupo inteiro, com contratos que envolvem exportação de bens e serviços.

DINHEIRO – O sr. ficou incomodado com a polêmica em torno do porto de Mariel, em Cuba, que inclui financiamento do BNDES?

ODEBRECHT – A Odebrecht está construindo um porto no Peru. O financiamento desse porto foi feito pelo cliente. Como o Brasil não participou do financiamento, o cliente peruano compra produto e serviços de onde ele quiser. Portanto, o Brasil não se beneficiou em nada desse porto, com exceção do lucro que a Odebrecht tem. Por outro lado, quando temos um projeto como foi o porto de Cuba, em que há um financiamento à exportação de bens e serviços pelo BNDES, isso nos obriga a utilizar bens e serviços do Brasil. O Brasil e as empresas brasileiras saem ganhando. Outro exemplo: estamos construindo uma hidrelétrica em Angola, com financiamento da Alemanha. Aí eu sou obrigado a comprar os bens da Alemanha. Então, na verdade, quando nós conseguimos levar o financiamento do Brasil, é bom para o País, pois estamos exportando bens e serviços. Então é melhor para o Brasil financiar o porto de Cuba, do que deixar Cuba pegar um empréstimo na Coreia, pois a obra geraria empregos na Coreia.

DINHEIRO – Então o ideal é ter mais financiamentos do Brasil a obras no Exterior?

ODEBRECHT – Hoje, eu tento levar mais financiamento, mas muitas vezes não consigo, porque o cliente lá fora não aceita. Ele prefere um financiamento mais barato, de outro país, e, além disso, não quer ser obrigado a importar bens e serviços do Brasil, que normalmente são mais caros. Hoje, do Exterior, só consigo levar financiamento brasileiro para 15% do meu faturamento. Para o Brasil era bom ser mais. A Odebrecht fatura no Exterior US$ 5 bilhões. Já pensou se eu conseguisse levar empresas brasileiras? As pessoas precisam entender que o Brasil não dá dinheiro de graça, o Brasil exporta bens e serviços, e isso gera emprego. Hoje, eu trabalho com 1.500 empresas brasileiras de vários setores no Exterior, e eu só posso fazer isso quando eu tenho financiamento brasileiro. Caso contrário o cliente manda comprar na China.

DINHEIRO – A taxa do financiamento brasileiro tem de ser muito atraente para compensar esse custo Brasil?

ODEBRECHT – O cliente faz uma licitação. Ele não tem só a opção brasileira. Ele tem também a espanhola, a chinesa, a coreana. Nós fizemos projetos no Brasil com financiamento do Exterior. Se eu tenho um financiamento chinês em projetos no Brasil, sou obrigado a pegar bens e serviços chineses.

DINHEIRO – O sr. tem negócios na Argentina e na Venezuela. Como é lidar com governos avaliados como instáveis?

ODEBRECHT – O nosso poder de decisão está com um executivo que mora em cada um desses países. É um erro julgar e tomar decisões baseados no que você vê de fora. A percepção que você tem do Brasil é diferente da percepção de alguém de fora. Temos desconhecimento do que está acontecendo naqueles países. Acima de tudo, temos de entender a nossa origem brasileira. Eu posso até, legitimamente, ter minha opinião em relação ao Brasil. Mas não acho que tenho legitimidade para opinar sobre qualquer outro país.

DINHEIRO – Quando o sr. vê a mídia internacional sugerindo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, seja trocado, qual é a sua reação?

ODEBRECHT – Eu acho um exagero. Era um exagero aquele ufanismo todo que nos vivemos há seis ou sete anos, quando ouvia o mundo todo achar que o Brasil era o paraíso e eu dizia que o País também tinha os seus desafios. Agora também há um exagero. O Brasil é um País que não tem risco do ponto de vista macroeconômico. Eu não consigo enxergar risco neste País. Dito isto, nós temos, sim, nossos desafios estruturais, que não foram superados, como educação, competitividade e infraestrutura. Durante muito tempo convivemos com a inflação sem achar que ela era um grande problema. Estamos passando por uma fase em que começamos a perceber que antigamente se achava que era um absurdo fazer obra. Falar em infraestrutura era falar em elefante branco. Hoje, todo mundo fala em infraestrutura. Para o Brasil se tornar realmente competitivo e crescer num potencial sustentável, temos que vencer esses desafios. Grande parte do crescimento do Brasil nos últimos anos se deu por causa do aumento da força de trabalho e do aumento dos preços relativos nos produtos brasileiros. Mas agora o crescimento do Brasil vai ter de vir dos ganhos de produtividade.

DINHEIRO – Qual a sua percepção sobre o episódio Eike Batista? Arranhou a imagem do Brasil no Exterior?

ODEBRECHT – Eu não vejo isso como algo que afetou a imagem do Brasil. Aquilo foi uma coisa de mercado. Desde o inicio, os investidores deveriam saber que eram projetos sujeitos a riscos de execução. Acho que da mesma maneira que minimizaram, depois exacerbaram os riscos. Isso acabou prejudicando e, talvez, o negócio nem fosse tão ruim como acharam no final. Mas a crise de imagem gerou o problema. Eu não estou completamente bem humorado por causa da minha ressaca do etanol. Na minha cabeça, esse setor é um caos. Mas eu vejo o Brasil como oportunidade.

DINHEIRO – O sr. está preocupado com a questão energética?

ODEBRECHT – A energia brasileira é cara, porque há 50% de imposto. O Brasil tem uma qualidade em energia inegável, e é o país que tem o maior percentual de fontes renováveis de energia. O Brasil é um País continental que tem grandes pontos de carga longe da demanda, o que gera um risco de transmissão maior. O correto é trabalhar com reservas, mas diminuiu-se a capacidade de reservatório das hidrelétricas. Então, o Brasil vai precisar de mais térmicas na base, mas acho que tudo isso já era previsível e está sendo administrado. Acho que esse custo vai ser repassado. O Brasil tem de rediscutir a redução do custo de energia para a indústria. No mundo todo, o consumidor industrial paga menos que o residencial. A menor diferença é no Brasil. No mundo, a premissa é a de que uma energia barata para a indústria beneficia o consumidor através de um produto mais barato. Acho, portanto, que isso tem de ser revisto. O Brasil tem de continuar barateando a energia para o industrial e, indiretamente, para o residencial. Mas essa é uma decisão política. É fácil para mim, como empresário, falar, mas eu entendo que a decisão política é complicada.

DINHEIRO – As hidrelétricas a fio d'água, sem reservatório, não fazem sentido?

ODEBRECHT – Em alguns lugares, em que gerariam um alagamento desnecessário, as hidrelétricas a fio d’água fazem sentido. As hidrelétricas do Rio Madeira tinham de ser fio d'água, pois o alagamento não compensaria o ganho de energia. Já Belo Monte, não. Ali, se o projeto original tivesse sido seguido, teríamos o dobro de energia com o mesmo nível de investimento, com um reservatório administrável. É fácil falar agora. Se já foi um parto aprovar Belo Monte do jeito que está, teria sido impossível aprovar Belo Monte no projeto original.

DINHEIRO – No futebol, o sr. é Bahia ou Vitória?

ODEBRECHT – Não conto.

DINHEIRO – A imprensa baiana publicou no ano passado que o sr. seria presidente do Bahia…

ODEBRECHT – Não, não conto questões pessoais.

DINHEIRO – Qual foi um grande ensinamento do seu avô e do seu pai?

ODEBRECHT – Do meu avô foram vários. Se eu tiver de resumir, é a cultural empresarial da Odebrecht. Não é só uma cultura empresarial, mas de vida. Do meu pai, o que sempre me impressionou, é a ideia de que você não pode admitir falha de caráter numa pessoa.

DINHEIRO – O sr. ainda recebe algum puxão de orelha deles?

ODEBRECHT – Estamos sempre aprendendo. Eu espero pode puxar as orelhas das minhas filhas até 80 ou 90 anos de idade.