Negócios

A solução da GE para a crise energética

A gigante americana inaugura uma nova divisão, apostando no interesse das empresas em gerar a própria eletricidade. Uma tendência que faz sentido para as companhias brasileiras preocupadas com a atual infraestrutura do País

A executiva americana Lorraine Bolsinger cumpre uma agenda de dar inveja aos melhores mochileiros. Presidente da GE Distributed Power, uma divisão da gigante General Electric voltada para a venda de equipamentos para a geração de energia elétrica, ela estava em fevereiro deste ano em Jacarta, capital da Indonésia, passou pelo México no mês seguinte, e no dia 9 de abril se encontrava em Buenos Aires, um dia antes de uma greve geral na Argentina paralisar os aeroportos da capital portenha. Ao tomar conhecimento do problema, antecipou para a mesma noite a viagem que estava agendada para o dia seguinte ao Brasil, de forma que assegurasse a sua presença em São Paulo durante toda a quinta-feira 10. 

 

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Lorraine Bolsinger: “As empresas brasileiras estão agressivas

para aproveitar as oportunidades de autogeração de energia”

 

A necessidade de sua presença no Brasil, assim como em todos os outros países emergentes de sua rota – que se estenderá ainda pela África e que só terminará no fim do ano, na China –, vem de uma importante nova estratégia da GE. Em cada um desses lugares, Lorraine está anunciando a clientes o lançamento da divisão de energia distribuída da empresa, que fará investimentos mundiais de US$ 1,4 bilhão nos próximos quatro anos. A GE pretende fornecer os motores e as turbinas para esses projetos de autogeração de energia, que têm grande potencial de sair do papel nos países emergentes. Afinal, nessas geografias as empresas não podem contar com sistemas nacionais de energia tão confiáveis para atender à demanda corporativa. 

 

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Immelt, CEO mundial: o executivo reafirmou à presidenta

Dilma Rousseff o compromisso de investir US$ 1,3 bilhão no Brasil 

 

No Brasil, em especial, há oportunidades de vendas de equipamentos para plataformas de petróleo que precisam gerar a própria energia ou para empresas instaladas em áreas de difícil acesso. “Conversei com alguns clientes brasileiros nas últimas horas e todos estão muito agressivos em aproveitar as oportunidades de fazer autogeração de energia”, disse Lorraine. “Também vejo oportunidade de utilizar aterros sanitários para produzir gás que será usado como energia, e em biogás, área em que o Brasil tem grande conhecimento com a produção do etanol.” De fato, dificilmente haveria momento mais propício para a visita de Lorraine ao País. 

 

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Lorraine Bolsinger: ”As empresas brasileiras estão agressivas para aproveitar

as oportunidades de autogeração de energia”

 

O Ministério de Minas e Energia mudou o risco de racionamento de energia de “baixíssimo” para “baixo”. E, segundo estudos da consultoria PSR, anunciados no início de abril, o risco de ser necessário um corte superior a 4% da demanda teria chegado a 46%. Isso exigiria desligar 12 milhões de residências. “A energia virou um problema que preocupa todos os setores”, diz Carlos Faria, presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace). “Há também grandes problemas de qualidade. Em 2012, o consumidor ficou em média 19 horas sem energia. Muito mais do que as 12 horas médias de 2001, quando houve apagão.” 

 

Os números de 2013 ainda não foram divulgados pelo governo. Não é de se estranhar que, numa conjuntura como essa, mais empresas comecem a pensar em autogeração. “Em países muito grandes, como o Brasil, é importante ter alternativas próprias de geração para dar conta de picos de energia e para certas eventualidades, como se o clima não ajudar”, diz Reinaldo Garcia, CEO da GE para a América Latina. “É como aconteceu em alguns países, que pularam a etapa de investimento na universalização da telefonia fixa para avançar na instalação de redes de telefonia móvel. O mesmo vai acontecer com a energia distribuída.”

 

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O interesse da GE pela demanda mundial por autogeração é facilmente compreensível. “Em um painel do último Fórum Econômico Mundial, em Davos, participei de uma pesquisa para estimar o tamanho do mercado de energia distribuída e o consenso foi de que ele chegaria a 25% do total mundial, em 2020”, afirmou Lorraine à DINHEIRO. “Será uma evolução e tanto, já que hoje devemos estar em cerca de 2%.” O objetivo da GE com a nova divisão será atender à crescente demanda das empresas por fontes de geração no ponto de uso. Trata-se de um mercado que movimentou projetos de US$ 150 bilhões, em 2012. 

 

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Garcia, CEO para a América latina: ”Alguns países pularão a etapa

de finalizar o sistema integrado para avançar em energia distribuída”

 

A expectativa é de que, até 2020, a geração de energia distribuída represente 200 GW da capacidade instalada, e atinja US$ 200 bilhões em investimentos anuais. Isso significará um crescimento 40% maior do que a evolução esperada da demanda global por energia nesse período. A divisão GE Distributed Power já nasce com uma operação em solo brasileiro. Em 2011, a empresa inaugurou, em Petrópolis (RJ), um centro de serviços para turbinas aeroderivadas e voltadas para o setor de óleo e gás, com investimentos de US$ 10 milhões. Haverá novos investimentos neste ano. 

 

“Vamos ampliar a operação no Brasil, já antecipando um aumento da capacidade instalada local”, afirmou Lorraine. “Também estamos avaliando se aumentaremos o portfólio de motores de geração de gás. Provavelmente teremos mais investimentos ainda neste ano.” O centro de pesquisas de R$ 500 milhões que a GE está construindo na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, também deve ajudar na evolução tecnológica dos equipamentos para a nova divisão. Mas, independentemente de novos aportes, a nova divisão da GE já nasceu fechando negócios. 

 

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Na segunda-feira 14, anunciou um contrato de venda de quatro turbinas aeroderivadas para a Modec (Mitsui Ocean Development and Engineering Co) – empresa do grupo japonês Mitsui especializada na construção de embarcações para transporte e extração de petróleo em alto-mar. Com o investimento, poderá gerar 85 MW de energia para a sua unidade de exploração de petróleo em águas que atingem até 2.240 metros de profundidade na área do pré-sal da costa carioca. É o suficiente para abastecer uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Já o grupo português ENC Energy construiu em Juiz de Fora (MG) uma usina de biogás, em outubro de 2013. 

 

“Instalamos um motor da GE movido a biogás de aterro sanitário e teremos dois outros até o fim deste ano, para atingirmos a capacidade de gerar energia para até 57 mil habitantes”, afirma José Esteves, gestor de negócios da ENC Power, empresa do grupo ENC Energy. Novos clientes como esses serão de grande importância para as operações da GE Brasil, que passa por um momento delicado. O CEO mundial, Jeff Immelt, garantiu no fim de março à presidenta Dilma Rousseff, que a empresa manterá a sua aposta no País – que envolve US$ 1,3 bilhão de investimentos até 2016. Mas, apesar dos aportes, a empresa não tem conseguido colher, nos últimos dois anos, o que esperava do Brasil. 

 

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Fora do eixo: máquinas da GE são usadas para gerar energia em plataformas de petróleo

(à dir.) e na Floresta Amazônica, em Urucu (AM) 

 

O centro de pesquisas no Rio de Janeiro, que seria inaugurado durante a visita de Immelt, só terá um lançamento oficial no segundo semestre. A fábrica de locomotivas, em Contagem (MG), que ampliou a sua capacidade de produção para 120 unidades por ano, só recebeu encomendas para 47 delas no ano passado. E na área de petróleo surgiram diversos problemas, à medida que as principais companhias brasileiras do setor, como a Petrobras e o grupo EBX, de Eike Batista, passam por dificuldades. 

 

A GE chegou a comprar uma participação de 0,8% no EBX, em 2012, por US$ 300 milhões, o que obrigou a americana a dar uma baixa contábil de US$ 108 milhões em seu balanço global, um ano depois. Com tudo isso, o faturamento da GE Brasil ficou estável em US$ 3,3 bilhões, em 2013. Ao que parece, depois de ver frustradas algumas de suas apostas no potencial de crescimento do Brasil, agora, a companhia fundada por Thomas Edison conta com as deficiências estruturais de energia elétrica brasileiras para incrementar os seus negócios locais. A expectativa é de que a sua nova divisão possa dar a energia que falta para as operações locais da empresa retomarem o ritmo de crescimento dos anos anteriores.

 

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