Negócios

Peugeot sem Peugeot

Tudo mudou na centenária montadora francesa. Criticada por erros sucessivos na gestão, a família fundadora é afastada do comando executivo, um português assume como CEO e sócios chineses ditam o rumo da companhia. E agora?

A montadora francesa Peugeot foi comandada com mão de ferro por seus fundadores por mais de um século. A gestão da família Peugeot, no entanto, vinha sendo criticada desde 2008, quando a crise financeira mundial fez a empresa mergulhar em uma severa crise. Sob pressão do governo do presidente François Hollande, preocupado com os resultados negativos, o clã decidiu recuar, na semana passada. Em uma operação avaliada em US$ 4 bilhões, a chinesa Dongfeng, segunda maior montadora do país asiático, entrou no bloco de controle da companhia francesa, com uma participação de 14%. 

 

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Dança das cadeiras:o presidente do conselho da Peugeot, Philippe Varin (acima),

dará lugar ao português Carlos Tavares (ao centro), ex-executivo da rival Renault.

O herdeiro do clã, Thierry Peugeot (ao lado), terá, pela primeira vez,

de compartilhar o controle

 

Para isso, os sócios-fundadores reduziram sua parcela na empresa de 25,4% para os mesmos 14% – com isso, passaram de comandantes a apenas acionistas, dividindo o poder de decisão com os sócios. O governo francês completa o bloco de controladores, também com 14%. O negócio abre novas perspectivas para a companhia, segunda maior montadora da Europa em volume de vendas, que registrou um prejuízo de US$ 3,1 bilhões no ano passado. O afastamento dos fundadores do comando executivo da empresa, criada em 1896 por Armand Peugeot, é o capítulo mais recente de uma disputa familiar que se arrasta desde meados do ano passado. 

 

De um lado, Thierry Peugeot, sobrinho-neto de Armand e presidente do conselho da PSA Peugeot Citroën, holding que controla os negócios da família, defendia a permanência dos fundadores na direção. Seu primo Robert, por outro lado, era favorável à entrada de novos investidores. Thierry chegou a enviar uma carta ao primo mostrando preocupação com a “estratégia de saída” que estava sendo montada. “O desfecho é muito ruim”, escreveu Thierry, segundo o jornal americano The Wall Street Journal. Ao anunciar o acordo, na terça-feira 18, o executivo mudou o discurso e aparentou comemorar a entrada dos chineses no bloco de controle. 

 

“Abrimos perspectivas de desenvolvimento ambiciosas”, disse Thierry. O que pesou a favor de Robert foi o fraco desempenho da montadora nos últimos dois anos e sua inabilidade de competir em um mercado cada vez mais globalizado. Apesar de ocupar a segunda posição no mercado europeu em volume de vendas, o tamanho da Peugeot é pequeno se comparado ao de empresas globalizadas como Ford, GM e Volkswagen. O conservadorismo da família fundadora é apontado como o principal culpado por esse cenário. Enquanto as rivais correram para conquistar mercados fora de seus países de origem, os Peugeot gastaram bilhões de dólares recomprando ações para manter o controle da companhia. 

 

Eles teriam, inclusive, rejeitado alianças estratégicas com empresas como a japonesa Mitsubishi e a alemã BMW. Sem ganhar escala internacionalmente, a montadora francesa se viu em uma situação muito delicada a partir de 2008, quando a crise econômica mundial e, posteriormente, a crise da dívida europeia afetaram sensivelmente as vendas de carros no Velho Continente. O resultado desse erro estratégico fica claro quando se olha para as fábricas da montadora. A empresa opera muito abaixo de sua capacidade instalada. 

 

Ao mesmo tempo, as vendas seguem em queda – no ano passado, caíram 4,9% no mundo. Em 2012, em uma tentativa de modernizar sua operação, a Peugeot fez uma ampla aliança com a americana General Motors. A parceria, no entanto, não foi para a frente. No ano passado, a GM se recusou a aumentar os investimentos e, em dezembro, vendeu a participação de 7% que detinha na empresa francesa. “Para ter resultados positivos, a única saída é vender mais”, diz o consultor e ex-vice-presidente da GM, André Beer. “A PSA vai entrar num dos maiores mercados do mundo, a China, e terá a chance de melhorar o seu desempenho.” 

 

Em nota enviada à Bolsa de Hong Kong, a Dongfeng informou que as vendas das três marcas, Dongfeng, Peugeot e Citroën, devem chegar a 1,5 milhão unidades, somente na China, em 2020. No ano passado, as três montadoras, somadas, emplacaram 850 mil carros. Na quinta-feira 20, o executivo português Carlos Tavares, que era o segundo na linha de comando da arquirrival Renault, assumiu a responsabilidade pelas operações do grupo no mundo. No fim de março, Tavares vai acumular também o cargo de presidente do conselho de administração da montadora, sucedendo Philippe Varin, um dos mais respeitados executivos franceses. 

 

No Brasil, apesar dos planos de investir R$ 3,7 bilhões para ampliar a capacidade de sua fábrica em Porto Real, no Rio de Janeiro, a Peugeot também vem derrapando. “Com a crise na Europa, a montadora tirou o pé do acelerador”, diz o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, Bartolomeu Citeli. “A situação da PSA nos maiores mercados da América Latina, Brasil e Argentina, também não justifica um aumento de produção.” Hoje, ela ocupa apenas a 9ª posição no mercado nacional e as perspectivas não são animadoras. No ano passado, as vendas do grupo no País caíram cerca de 15%.

 

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Colaborou: Ana Paula Machado

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