Negócios

Aldemir Bendine

Ao abrir o capital da BB Seguridade, o presidente do Banco do Brasil realizou a maior venda de ações de 2013 e tornou-se a exceção em um ano tenebroso para a bolsa 

Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, bateu o martelo em uma reunião na primeira quinzena de abril deste ano. “O preço de lançamento da BB Seguridade será de R$ 17 por ação”, disse ele. O que estava em discussão era crucial: quanto o banco pediria pelos 600 milhões de ações da empresa criada no fim de 2012 para concentrar as atividades de seguros, previdência e capitalização do BB. Sua declaração provocou calafrios nos banqueiros de investimento que, divididos em cinco times, se desdobravam em apresentações para investidores brasileiros e internacionais. Depois de sentir o pulso do mercado, eles estavam convencidos de que seria temerário ir além de R$ 16 por ação. 

 

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Ademir Bendine, presidente do Banco do Brasil: “Queremos que 25%

das receitas do BB venham dos seguros, e os investidores reconheceram

o valor dessa proposta”

 

Um preço mais alto poderia afugentar participantes importantes e comprometer o lançamento. No entanto, bendine manteve-se firme. um real A MAIS no preço não faria diferença apenas pelos R$ 600 milhões adicionais que entrariam nos cofres do BB. “Esse preço defenderia o patrimônio do acionista e, em última análise, do Tesouro”, diz ele. Poucos dias depois, em 27 de abril, Bendine pôde se dar ao luxo de comemorar sua persistência. Ao tocar o sino no pregão da BM&FBovespa, no centro de São Paulo, ele estabeleceu alguns recordes. O lançamento captou R$ 11,5 bilhões, a maior abertura de capital do mundo em sete meses e o quarto maior lançamento de ações da história da bolsa. 

 

A oferta pública inicial contou com a participação de 114 mil investidores, 103 mil deles pessoas físicas. Mais do que isso, a operação garantiu ao BB um lucro não recorrente de R$ 4,8 bilhões no segundo trimestre. Esses números são ainda mais significativos devido ao mau humor do mercado. Sem a BB Seguridade, as demais 14 vendas de ações levantaram R$ 8,3 bilhões até o fim de novembro, menor valor em dez anos. Por ter orquestrado essa captação, Bendine foi considerado o EMPREENDEDOR DO ANO NAS FINANÇAS em 2013. A preocupação com o acionista tem sido uma constante em seu trabalho. Bendine preside o BB desde 2009. 

 

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Maior do mundo IPO da BB Seguridade captou R$ 11,5 bilhões e atraiu 114 mil investidores

 

A longa permanência desse palmeirense apaixonado no cargo explica-se por dois motivos. O primeiro é a disciplina em seguir as orientações do governo, acionista controlador do banco. Em 2008, uma das medidas para combater os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira foi a expansão do crédito. As pontas de lança dessa ofensiva foram BB e Caixa Econômica Federal. Segundo dados do Banco Central, em junho de 2009 o BB respondia por 19% do total de empréstimos concedidos pelos bancos. Em junho de 2013 a fatia havia subido para 21%. Uma expansão de dois pontos percentuais pode parecer modesta mas, nesse período, o crédito mais que dobrou, de R$ 1,1 trilhão em 2009 para R$ 2,5 trilhões em 2013. 

 

Esse movimento deve continuar, com ênfase na base da pirâmide. Na segunda-feira 25, o BB anunciou uma parceria com os Correios para ampliar as atividades do Banco Postal, oferecendo empréstimos, cartões e serviços em todo o País. A segunda justificativa é a ausência de uma agenda pessoal. Profissional competente, Bendine é conhecido internamente no banco como Dida e é respeitado pela corporação. Ele consegue manter o delicado equilíbrio entre o BB companhia aberta e o BB instrumento de política econômica. Prestes a completar 50 anos no dia 10 de dezembro, o banco, onde começou como menor aprendiz aos 14 anos, é o primeiro e único empregador deste devoto de Nossa Senhora Aparecida nascido em Paraguaçu Paulista, oeste do Estado de São Paulo. 

 

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Passados sete meses da abertura de capital da BB Seguridade, as estimativas de Bendine podem até ser consideradas modestas. Nesse período, a bolsa sofreu devido ao cenário incerto. A conjugação de três fatores – um crescimento fraco da economia brasileira, juros em alta e incertezas em relação ao programa de ajuda à economia americana do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos – cobrou caro dos investidores. Desde o lançamento da BB Seguridade, o Índice Bovespa amarga uma desvalorização de 4,4%. Já os papéis da empresa valorizaram-se 48%, tendo fechado a R$ 25,15 na quinta-feira 28. Os analistas ainda estão entusiasmados. 

 

Em um relatório de 21 de novembro, Regina Longo Sanchez, do banco Itaú BBA, elevou o preço-alvo da ação para R$ 31,20, o que indica uma valorização potencial de 24%.“A BB Seguridade é nossa principal recomendação entre bancos e seguradoras da América Latina.” Criada em 20 de dezembro de 2012, a BB Seguridade surgiu da reestruturação das atividades de seguros, previdência privada e capitalização do Banco do Brasil, iniciada em 2009, e que visava organizar negócios dispersos que funcionavam com pouca coordenação entre si. Ao fim do processo, haviam sido costuradas parcerias com empresas líderes em seus segmentos (leia quadro ao final da reportagem). 

 

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Banco Postal: Bendine comandou a arrancada do BB nos empréstimos, movimento que deve

ganhar velocidade com o acordo fechado com os Correios no fim de novembro

 

O resultado foi uma empresa que lucrou R$ 1,55 bilhão nos nove primeiros meses de 2013, um crescimento de 21% em relação a 2012. Sanchez, do Itaú BBA, estima que esse ritmo deve continuar até 2017, quando, por suas estimativas, a BB Seguridade será uma empresa de quase R$ 5 bilhões de lucro anual. Não por acaso, os primeiros esboços da reestruturação, ainda em 2009, já previam a listagem em bolsa. “Sabíamos que, quando a reestruturação estivesse concluída, nossa proposta de valor seria muito atrativa para os investidores”, diz Bendine. 

 

O mercado segurador vem crescendo aceleradamente com base em produtos como seguros-garantia, que protegem eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos, e, na outra ponta do arco, apólices destinadas às grandes obras de infraestrutura. Não por acaso, a concorrência vem dedicando mais e mais esforços a esse negócio. Já há alguns anos, o Bradesco estabeleceu como meta que um terço de seus resultados venha de seguros, previdência e capitalização. Atualmente, a BB Seguridade responde por 20% da receita do grupo e a meta é elevar essa proporção para 25% nos próximos cinco anos. “A BB Seguridade garante mais diversificação e menos volatilidade nos resultados gerais do grupo, o que também eleva o valor de mercado do BB como um todo.” 

 

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