Negócios

A Monsanto brasileira

Subsidiária da Suzano investe em biotecnologia e obtém  eucaliptos geneticamente modificados, 20% mais produtivos. É o início de uma nova era no setor de papel e celulose

A soja transgênica ajudou a transformar a americana Monsanto em uma potência global na área de biotecnologia. Somente essa patente rende à companhia cerca de US$ 1,5 bilhão por ano, vindo de agricultores ávidos por melhorar a produtividade e reduzir as despesas com herbicidas em suas lavouras. Os ecologistas costumam torcer o nariz para o assunto, mas o uso da biotecnologia no campo só fez crescer nos últimos 20 anos. A novidade, agora, é que, para aumentar o desconsolo dessa turma, além do cultivo de alimentos, a transgenia está ganhando força como um elemento de competitividade das empresas que dependem de insumos agrícolas. 

 

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Para o campo: segundo Mello (à esq.) e Ulian, vice-presidentes da FuturaGene,

a nova variedade de eucalipto chega ao mercado em 2016

 

É o caso da Suzano Papel e Celulose, segunda maior produtora global de celulose de eucalipto, com receita líquida de R$ 5,2 bilhões no ano passado. A companhia da família Feffer resolveu investir em biotecnologia com a aquisição da israelense FuturaGene, em 2010. Decorridos dois anos, a aposta começa a apresentar resultados. A empresa acaba de desenvolver um clone geneticamente modificado de eucalipto, específico para o solo e o clima do Brasil. “A FuturaGene tem potencial para ser ainda maior que a Suzano”, diz Eduardo José de Mello, vice-presidente de melhoramento genético da empresa. A planta batizada de “Evento H421” é capaz de dar origem a um eucalipto 20% mais produtivo, em matéria de celulose, e atinge o ponto de corte em apenas cinco anos, contra os sete atuais (veja quadro abaixo).

 

A pesquisa está em fase de certificação junto à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). “As primeiras florestas comerciais desse clone começam a ser plantadas em 2016”, afirma Eugênio Ulian, vice-presidente de assuntos regulatórios da FuturaGene. O campo de testes está localizado em uma fazenda pertencente à Suzano, nos arredores do município paulista de Itapetininga. Até agora, a Suzano ainda não obteve um centavo sequer com a FuturaGene. Ao contrário. Além de ter gasto US$ 83 milhões em sua aquisição, investe US$ 20 milhões por ano em pesquisas, dos quais US$ 7 milhões no Brasil. O modelo de negócio da companhia será diferente do adotado pela Monsanto. 


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Ciência verde-amarela: laboratório da sede da FuturaGene, em Itapetininga (SP),

é onde acontecem os principais estudos

 

Em vez de vender a semente, a FuturaGene vai licenciar a tecnologia. Mas isso não representaria algo como “entregar o ouro ao bandido”? Mello diz que não. “A tecnologia é uma parte muito importante do processo, mas não sua totalidade.” Para conseguir chegar ao estágio no qual se encontra o H421 é preciso um extenso trabalho de campo. “A competitividade da celulose brasileira está sendo desafiada por empresas do Uruguai, do Chile e até da China”, diz Ulian. A FuturaGene não se restringirá à melhoria genética do eucalipto. Para garantir um ritmo contínuo de descobertas em vários cultivos, a empresa montou uma rede de parcerias com centros de pesquisa e universidades dos EUA, da China e de Israel. 

 

No Brasil, a lista inclui a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), além da Embrapa. A ideia é atuar também na modificação da cana-de-açúcar. Na China, por exemplo, a FuturaGene integra os esforços da província de Gansu para erguer uma barreira verde, destinada a conter a desertificação da região. Os estudos que deram origem ao supereucalipto também poderão viabilizar a abertura de novas fronteiras para a espécie no Brasil, especialmente nas regiões de Cerrado. Em associação com a Embrapa, a FuturaGene está desenvolvendo um clone resistente ao alumínio, metal abundante na formação do solo do local. Hoje, o plantio na região requer o uso de calcário e outros corretivos. “Nossa variedade de eucalipto permitiria ocupar, por exemplo, áreas de pastagens degradadas”, afirma Ulian. 

 

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