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O desabafo de Chico Lopes

O ex-presidente do Banco Central, em entrevista exclusiva à DINHEIRO, resgata a memória de sua turbulenta e meteórica passagem pelo BC e conta como superou os traumas de um período em que chegou a ser preso

O economista mineiro Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, ex-presidente do Banco Central, mais conhecido como Chico Lopes nos meios políticos e empresariais, é um homem discreto, de poucas palavras. Raramente é visto em eventos sociais. Desde os tempos em que era uma figura pública, faz o possível para não chamar a atenção. Tímido, ele mesmo admite que prefere não ser reconhecido nas ruas quando sai de casa para comer um pão na chapa e tomar uma taça de café com leite na padaria da esquina, como faz quase todos os dias. Atualmente, Lopes passa boa parte do tempo recluso em seu confortável apartamento no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde o único objeto com menos de 20 anos de idade é uma televisão Sony de LCD de 48 polegadas. 

 

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As lembranças de seu passado estão presentes por toda parte. Há porta-retratos com fotos antigas, meio amareladas, de viagens de férias com sua mulher, Araci Pugliese, a “Ciça”, com a filha do primeiro casamento, Estefânia, e com os dois enteados, Bruno e Sérgio, quando ainda eram crianças. “Essa aqui é a Ciça”, apontou,sorrindo, a um dos quadros pendurados na parede, numa demonstração incomum de afeto para um senhor de 67 anos, quase sempre sisudo.Era um desenho feito à mão com o rosto de sua companheira. É nesse apartamento que Chico Lopes leva uma vida reservada e modesta. A rotina contrasta com os tempos em que era um dos mais respeitados diretores do BC, onde entrou em 1995, e de quando se tornou um homem forte da economia ao assumir o comando da instituição, em janeiro de 1999, no lugar do economista Gustavo Franco. 

 

Na presidência do BC, ele foi acusado de tráfico de influência e de favorecer dois bancos durante a crise cambial daquele ano, o Marka e o FonteCindam, que teriam recebido informações privilegiadas de sua consultoria, a Macrométrica. Chico Lopes ficou menos de 20 dias no cargo, mas foi tempo suficiente para deixar sua marca. Substituiu o câmbio fixo pelo sistema flutuante ao implementar a controvertida banda diagonal endógena, uma complexa equação que tentava controlar a flexibilização da moeda. Seus feitos lhe renderam notoriedade – para o bem e para o mal. Lopes se tornou uma das figuras públicas mais comentadas do País ao espantar os riscos de uma crise sistêmica, mas acabou envolvido em um assombroso escândalo político. 

 

Há quem diga que Lopes é um herói injustiçado e que sem a intervenção do BC, orquestrada por ele, o Marka e o FonteCindam não teriam honrado suas posições na bolsa, provocando um colapso no mercado brasileiro. Em um capítulo dramático de sua trajetória pública – talvez o pior deles –, a fotografia de Chico Lopes chegou a ser estampada nas primeiras páginas dos jornais, e ele foi pintado como um criminoso, quando saiu preso da CPI dos Bancos por se negar a dizer tudo o que sabia. Foi solto horas depois, ao pagar fiança de R$ 300. “O Chico foi vítima de um massacre da opinião pública”, definiu seu principal advogado de defesa, Luís Guilherme Vieira. 

 

“A vida dele se dividiu em duas partes: antes e depois de assumir o BC.” A última decisão do processo contra Lopes saiu em 2011. A sentença de dez anos de prisão em regime fechado foi revertida para seis anos, em liberdade. O episódio, no entanto, foi longo o bastante para provocar uma reviravolta em sua vida. Embora seja conhecido como professor Chico Lopes, atualmente ele não leciona em nenhuma universidade. A decisão de se afastar das salas de aula, segundo pessoas próximas a ele, foi motivada pela necessidade de se proteger dos questionamentos dos alunos sobre seu passado no BC.De tempos em tempos, ele ainda é convidado a dar palestras a estudantes de economia. 

 

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Passagem meteórica: Chico Lopes assumiu o BC no lugar de Gustavo Franco

em janeiro de 1999. Ficou menos de 20 dias no cargo

 

“O Chico é um grande economista, mas suas histórias são polêmicas demais para um docente”, afirmou um professor da PUC, seu colega há mais de 30 anos. “Colocá-lo em uma sala de aula cheia de jovens curiosos não faria bem para ele. Seria uma crueldade.” Em seu atual refúgio domiciliar, um dos quartos foi transformado em escritório, sem nenhum empregado – algo impensável 15 anos atrás, quando mantinha 50 funcionários em sua consultoria, instalada em um andar inteiro na avenida Graça Aranha, no centro da cidade.Hoje, a única funcionária remanescente da Macrométrica, dona Zélia, ajuda a organizar sua agenda, mas também não bate ponto. 

 

No pequeno home-office solitário, o economista ainda presta consultoria para um grupo de empresas, como a siderúrgica Arcelor Mittal, a concessionária de rodovias CCR e, até pouco tempo atrás, a Usiminas. “Se eu fosse jornalista, eu seria, digamos, um freelancer”, disse ele, ao explicar sua nova rotina de trabalho. “A vida está mais tranquila. Gosto assim.” O sinal mais visível de que Lopes parece ter feito as pazes com o passado é a própria percepção das pessoas mais próximas a ele. De tão zen, o daltônico Chico Lopes ganhou o carinhoso apelido de Kagemusha entre os colegas. O nome faz alusão ao filme japonês A sombra do guerreiro, de 1980, que conta a história de um herói samurai do século 16. 

 

“Se eu pudesse definir o Chico em uma palavra, seria: diferente”, diz o economista Amilcar Nogueira, amigo de Lopes da PUC. “É uma pessoa diplomática, que transmite confiança e serenidade.” A vida de Chico Lopes mudou, mas seu perfil conciliador e diplomático, características que herdou de seu pai, Lucas Lopes, ministro da Fazenda no governo Kubitschek, continua visível. Assim como nos tempos do BC, evita fazer críticas ásperas. De fala mansa, com sorriso tímido diante do flash da câmera fotográfica, prefere cultivar o estereótipo de professor de economia ao de político aposentado. “Conheço bem o Chico Lopes. 

 

Não tenho dúvida de que é um dos mais notáveis economistas de que o País dispõe”, definiu Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney. Em entrevista à DINHEIRO, em seu apartamento no Rio, Chico Lopes conta como tem conduzido sua vida longe dos holofotes da mídia, faz uma autocrítica de sua atuação no BC e comenta os principais temas atuais da economia. A julgar pela tranquilidade com que trata o passado, o ex-presidente do BC parece ter superado as cicatrizes do calvário que viveu, sem grandes rancores ou ressentimentos. 

 

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“O trabalho era monstruoso e gerou riscos tremendos, que a gente ignorou. Tocamos em frente”

 

Chico Lopes conversou com a DINHEIRO no dia 13 de maio, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Leia os principais trechos da entrevista:

 

O sr. é o único ex-presidente do Banco Central que não aparece na galeria de antigos titulares da instituição. Por quê? 

Acho que é por pura burocracia. Na verdade, eu nunca cheguei a ser efetivado legalmente no cargo. Eu era presidente em exercício, fui sabatinado pelo Senado, mas tinha de tomar posse em uma cerimônia que acabou não acontecendo. Então, por isso, a burocracia considera que nunca fui presidente. Uma questão de formalidade. Não importa o que eu fiz, se criei o Copom ou não. Para eles, o que vale é o que está escrito no papel. Lamento.

 

Se pudesse voltar no tempo, o sr. agiria de formadiferente da que agiu quando esteve no BC? Sua relação com os bancos Marka e FonteCindam seria outra?

Se eu tivesse esse poder, com certeza não teria sido presidente do Banco Central. Isso me causou muitos prejuízos à carreira e danos à minha vida pessoal. Mas, se pudesse voltar ao passado sendo presidente do BC, talvez tivesse calculado melhor os riscos e as consequências de algumas medidas que tivemos de tomar. Nós fizemos o Proer para salvar os bancos, antes mesmo de chegar à presidência, e todos os diretores daquela época foram processados. Não existia legislação para o Proer. O trabalho de construção institucional que precisava ser feito foi monstruoso e gerou riscos tremendos, que a gente ignorou. Apenas tocamos as medidas em frente. 

 

Que medidas?

Muitas. Quando assumi a presidência do BC, eu estava muito focado naquilo que era necessário fazer. Simplesmente coloquei em prática, sem pensar em tudo aquilo que aconteceria na sequência. Mas deixe isso para lá. São coisas da vida. Não temos como mudar o que já passou. Tudo o que aconteceu serviu de experiência. 

 

O sr. mantém contato com Salvatore Cacciola, dono do falido banco Marka, o único que ficou preso por quatro anos, ou com os outros acusados daquela época?

Não vamos falar sobre isso. Vamos falar mais sobre a macroeconomia.

 

“Lula deu uma baita sorte. Pegou o País com bases prontas”

 

Por que o sr., durante muito tempo, foi um personagem tão impopular?

Porque eu fiz o tinha de ser feito. Assumi com a missão de fazer o câmbio flutuar. Isso foi feito. Do tripé que me propus a colocar em prática, conclui dois: o câmbio flutuante e o Copom. Faltou o ajuste fiscal, que é algo mais amplo. Não tive tempo. Tudo o que fizemos foi bom para a economia e está aí até hoje. A gente assumia riscos na construção institucional e na resolução de problemas graves que estavam na economia desde a época da inflação. Agora, não existem mais esses problemas. O BC e o governo operam um mecanismo que já está montado, funcionando. 

 

Por que a população não tem essa percepção positiva a respeito dessas medidas?

Ser presidente do BC, atualmente, é muito mais fácil do que na minha época. As instituições, de uns tempos para cá, estão consolidadas. Mas sobre a percepção do povo, acredito que a maioria da população está cuidando da própria vida, não está preocupada com o que acontece no BC. Um dia, os historiadores vão avaliar melhor a minha vida e tudo o que aconteceu. Além disso, quanto menos relevantes os economistas forem, melhor. O economista britânico John Maynard Keynes dizia que um país feliz é um país onde economistas não são particularmente importantes. Eles têm a mesma importância dos dentistas. São pessoas úteis, não são notáveis.

 

O sr. se considera vítima das reformas lançadas pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso?

Não, de forma alguma. A questão é que as pessoas se concentram demais no problema de hoje e perdem a perspectiva histórica. Por isso, a avaliação do governo Fernando Henrique Cardoso era muito desfavorável no final do seu mandato. Só falam que houve apagão, que houve uma gestão ruim, sem reconhecer que ali houve um avanço institucional muito grande. Mas isso é normal. Governos com altos índices de aprovação, muito populares em final de mandato e que saem consagrados pela população, como o de Hugo Chávez, na Venezuela, pode apostar que escondem algo de errado. Promover reformas num país sempre gera desgaste e certa impopularidade. Isso explica alguns problemas que enfrentei nesses anos todos. Por isso também, a aprovação ao governo do Fernando Henrique era baixa quando passou a faixa para o presidente Lula.

 

Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou o governo com a popularidade altíssima… 

Lula saiu muito bem avaliado porque deu sorte. Napoleão Bonaparte dizia que a principal qualidade que ele buscava em um general era que fosse um cara de sorte. O Lula deu uma baita sorte porque, sem tirar o mérito dele, pegou um país com as bases prontas. Acho que o governo Lula simplesmente consolidou tudo aquilo. Com o ministro Antonio Palocci na Fazenda, não mexeu na equipe do Banco Central. E tudo continuou na mesma linha. O governo Dilma é que está mexendo. Às vezes, essas medidas não são explicadas muito bem. Não fica claro se eles realmente sabem o que estão fazendo. Mas o importante é que, com sorte ou sem sorte, as instituições resistem. 

 

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Do Senado para a cadeia: no episódio mais dramático de sua vida pública,

Lopes foi preso após depoimento na CPI dos Bancos. Horas depois,

pagou fiança de R$ 300 e foi libertado   

 

Faltou sorte para o sr.?

Sim, faltou um pouco. Quando eu fui presidente do BC, estávamos enfrentando uma série de crises tremendas. Houve o calote da Rússia, a crise do México, a quebradeira dos asiáticos, fomos atacados por especuladores… A flutuação cambial foi uma decisão muito importante. As crises internacionais, aliadas à falta de sorte, nos prejudicaram bastante. 

 

Por que sua consultoria, a Macrométrica, que tinha mais de 50 funcionários, hoje não tem sequer um escritório?

Tem, sim. Meu escritório é na nuvem. Executo todas as minhas funções aqui de casa, por telefone. Quando meus clientes me chamam, vou até eles. Em relação aos funcionários, realmente não pude mantê-los. Acho que o problema é que não tenho nenhuma vocação para ser empresário. Não sei demitir. Lidar com pessoas não é fácil. No auge da Macrométrica, tínhamos festinhas de aniversário toda semana, com bolinho e tudo. Eram muitos funcionários.

 

O Copom é seu maior legado?

Quando eu cheguei lá, antes de se criar o Copom, se decidia a taxa Selic em alguns minutos, em uma conversa informal de elevador. Os economistas desciam de elevador com o presidente e um perguntava para o outro: o que vamos fazer com a taxa de juros? Alguém chutava um número e perguntava para o presidente se estava bom. Pronto. Era assim que funcionava.Além disso, a taxa Selic era mensal. Um número muito doido. E a gente transformou-a em uma taxa anual. Para montar o Copom, criei uma equação no Banco Central, a TCB, que o mercado chama de taxa do Chico, era um mecanismo que calibrava a Selic. O Copom funciona da mesma forma, definindo a taxa básica de juros. Sempre com a ideia de independência.

 

Foi difícil?

Sim, foi muito complicado no início. Os economistas do BC não davam a mínima importância ao Copom,quando eu o criei. Então, eu tinha que sair catando-os pelo braço nos corredores para compor a mesa e promover as reuniões. No início, os encontros eram gravados. Em certa época, parou. Não sei como está hoje.

 

“Antes, a Selic era definida em uma conversa de elevador”

 

O sr. ainda responde a processos?

Sim, existem vários processos administrativos ainda rolando. Eu não sei direito os detalhes. Não fico o tempo todo acompanhando para poder continuar minha vida normalmente. Muitos deles nem dizem respeito a mim.

 

O que o sr. guarda de bom e de ruim daquela época?

Existe muito dos dois. A vida é assim. Tem coisa boa e coisa ruim. É complicado. Tem de saber tocar. O meu maior troféu no BC é o Copom. Demos também mais transparência à instituição. Passamos a publicar dados fiscais frequentes e mais consistentes. Isso não existia antes. Era tudo imaginado. A gente fez o Proer. Todos estavam quebrados, o banco Nacional, o Bamerindus. Houve um fortalecimento enorme do sistema bancário. Hoje, tudo funciona bonitinho. 

 

De que maneira a presidenta Dilma está influenciando o BC?

Houve algumas mudanças importantes. As novas regras para a caderneta de poupança são um exemplo disso. Foi importante. As alterações foram muito bem-feitas, de forma muito simples. O Brasil tem uma demanda por renda, por distribuição de renda. Ou seja, existem algumas mexidas que ainda faltam fazer, mas isso vem com o tempo. Tanto Lula quanto Dilma avançaram muito na área social e a consolidação desse processo é fundamental. 

 

O sr. defende as políticas sociais do governo?

Tem gente que acha que a situação saiu do controle. Mas eu penso que isso não passa de um pessimismo exagerado. 

 

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Relações perigosas: o banqueiro Salvatore Cacciola, do Marka, teria se beneficiado

de informações repassadas pela Macrométrica. Cumpriu uma pena de quatro anos

 

Se as instituições são sólidas e a estrutura da economia está segura, por que o PIB do Brasil não cresce mais?

Temos de ser realistas. Não podemos achar que o Brasil virou um tigre asiático e vai crescer 7% ao ano. Não existe isso. Nunca existiu no Brasil. Aquele crescimento de 7% que vimos no País foi um efeito estatístico. A gente cresceu zero, depois sete, depois dois duas vezes seguidas. Então, nossa realidade é 3,5% ou 4%. É o que podemos crescer. No longo prazo, com a população crescendo abaixo de 1% ao ano, podemos chegar a 5%, quem sabe.

 

O sr. concorda com as estatísticas em relação à economia brasileira?

Existem algumas esquisitices nos números do IBGE. Mas não é culpa deles. Eles usam uma metodologia de Primeiro Mundo com uma base de dados de Terceiro Mundo. Não existe coleta de dados. Não existe qualidade. Um exemplo disso é o Produto Interno Bruto. Como dois terços da economia são da área de serviços, uma atividade muito difícil de ser medida, acho que o crescimento do PIB calculado pelo IBGE é subestimado sistematicamente. O Brasil cresce mais do que o IBGE calcula, talvez um ponto percentual abaixo do resultado oficial, assim como eu acho que a China cresce menos do que eles dizem. Quando os chineses garantem que cresceram 9% num ano, pode apostar que não cresceram mais do que 7%. E o pior é o que os economistas tomam esses números como referência, sem saber como esses números são obtidos. E o IBGE também não explica direito.

 

O que deve mudar na política econômica?

É preciso aceitar que a gente não precisa mais ter um superávit primário de 3% do PIB. Nenhum país normal do mundo tem um superávit desses. A média é muito mais baixa. O Brasil pode perfeitamente trabalhar entre 2% e 2,5%. Agora, o governo tem uma certa dificuldade em explicitar isso e fica promovendo manobras contábeis para se ajustar a esse número. O que é muito ruim. 

 

Qual sua avaliação dos governos Lula e Dilma na economia?

A entrada do Lula foi ótima para a economia. Primeiro, porque mostrou que o personagem mais radical da política, um sindicalista e metalúrgico, não ia mudar o que estava funcionando bem. Uma crítica que se pode fazer ao governo Lula é que a decisão de não mexer na economia fez com que a gente ficasse nessa situação de ter um BC de Primeiro Mundo num País que não é de Primeiro Mundo. Daí começou a ocorrer algumas distorções, com a apreciação absurda do câmbio, matando tudo quanto é empresa por aí. E a Dilma, agora, precisa mostrar o que pretende fazer. 

 

Por que países vizinhos, como a Argentina, não seguiram o mesmo modelo do BC brasileiro?

O grande legado do governo Fernando Henrique, não apenas em razão da minha passagem pelo BC, foi a construção de instituições. Acho que isso é fundamental, é o que hoje diferencia o Brasil de países como a Argentina. Não existe Copom lá. Não existe um mecanismo de controle fiscal, nem uma lei de responsabilidade fiscal. Isso tem de ser preservado e a sociedade tem consciência disso. Por isso, tenho um otimismo grande em relação ao Brasil para os próximos dez ou 20 anos. 

 

Mas o BC não é completamente independente, não acha?

Na prática, a independência do Banco Central é conquistada a cada dia, a cada mês. Não adianta ter uma lei que diz que o BC é independente. A independência tem de ser mantida e preservada com credibilidade. E fazer a coisa séria.

 

E o BC tem feito a coisa certa?

Sim, eu acho que a atual equipe do BC está fazendo a coisa correta. Os governos sempre tentam interferir. A equipe do ministro Pedro Malan vivia mandando recado para o Copom. Isso é normal. O presidente Ronald Reagan, nos Estados Unidos, sempre ameaçava o Paul Volcker, presidente do Fed, o BC americano. Isso está tudo registrado na história. É algo normal. 

 

Então, por que o BC parece se curvar às pressões do governo, emalgumas ocasiões?

A forma de atuar do BC mantém um espaço grande para a independência. A rigor, se a presidenta Dilma quiser forçar o BC a tomar uma decisão, ela tem de chegar nos nove membros do Copom e convencer cada um ou conquistar a maioria. Não é tão simples assim. Se algum membro do Copom se recusar a cumprir uma ordem do presidente da República, não acontece nada.A mecânica do Copom foi criada exatamente para garantir essa independência. Mesmo quando criamos o comitê, e alguém sugeria na véspera que devíamos discutir qual seria a nova taxa Selic, eu não deixava. Não podia ter lobby. A decisão tinha de ser tomada no dia, com base em questões técnicas. Por isso, com esse sistema, não existe uma ameaça ao BC nos dias de hoje. As instituições grudaram na economia. A sociedade não aceitaria um governo que descaracterizasse a atuação do BC.

 

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Em paz com o passado: ”A vida é assim. Tem coisa boa e coisa ruim.

Existe muito dos dois. É complicado. Tem de saber tocar”

 

As recentes decisões de reduzir os juros foram corretas?

Eu acho que a redução da Selic foi um movimento correto. Creio que o nível de 7,25% é compatível com a realidade da economia e deixou o dólar ir a R$ 2. Acho que está perfeito. O BC fez, recentemente, uma manobra corajosa ao reduzir a taxa de juros ao patamar mínimo histórico, mesmo sendo os maiores do mundo. A gente montou um BC de Primeiro Mundo, mas nós não estamos na Suécia, estamos no Brasil. Então, não se pode administrar o Brasil achando que está na Europa. Em minha opinião, havia uma deformação no BC durante alguns anos, quando se aplicava uma política fiscal muito rigorosa, com uma inflação de 4,5%, levando a taxa de juros a níveis muitos altos e deixando o câmbio se apreciar de maneira perversa. Quando a cotação do dólar caiu a quase R$ 1,50, muitas empresas fecharam. 

 

Por que, desde sempre, o BC não deixa o câmbio flutuante flutuar de verdade?

No Brasil, o câmbio nunca flutuou realmente. Se a cotação fosse livre, o BC não teria acumulado tanta reserva. Como o BC passou anos acumulando dólar, não deixou o câmbio flutuar. Mas, quase sempre, estava deixando flutuar para baixo. A meu ver, essa posição não foi correta. Por outro lado, se o BCdeixasse de atuar no mercado do câmbio, o dólar teria chegado a R$ 1,10. Seria ainda mais complicado. 

 

E os juros?

A única solução para isso era reduzir as taxas de juros. Num mundo em que os juros beiram zero, não dá para pagar de 10% a 12% ao ano. Quem deixava o dinheiro na caderneta de poupança não precisava fazer mais nada. O ganho real era superior ao de qualquer outro país. Então, o Brasil se tornou o paraíso dos rentistas. Enquanto o mundo falava da eutanásia dos rentistas, no Brasil era o contrário.

 

A inflação não ameaça o juro baixo?

Houve uma situação particular que foi um choque de preços agrícolas muito fortes. A soja, por exemplo, passou de US$ 10 para US$ 18. Além disso, a mudança do câmbio teve um impacto significativo. Quando o dólar sai de R$ 1,50 e vai a R$ 2, causa um choque inflacionário importante.O Tombini (Alexandre Tombini, presidente do BC) chamou isso de convergência não linear, uma inflação que vai subir e descer. Houve uma conjuntura que causou a alta da inflação.

 

Além dos juros, como segurar a alta dos preços?

As medidas contra a inflação, como as anunciadas pela presidente Dilma Rousseff, de baixar a conta de luz, foram medidas boas. Mas, por outro lado, deixaram a impressão de desespero. Isso foi ruim. Parece que foram medidas imediatistas, meio sem lógica e populistas. A gente já passou dessa fase.