Negócios

A Renner quer ser a rainha do fast-fashion

Com uma nova marca, a varejista gaúcha de moda inspira-se no modelo da japonesa Uniqlo e adota o sistema de franquias pela primeira vez em sua história

O executivo José Galló, presidente da varejista gaúcha de vestuários Renner, acredita que o jeito mais fácil de resolver um problema é na base da conversa. “Quando preciso de alguma coisa, chamo o responsável em um canto e falo o que deve ser feito”, afirma Galló. “É muito mais rápido.” Ele costuma se reunir todas as segundas-feiras pela manhã com os principais executivos da companhia, que trabalham juntos em um mesmo salão, para um bate-papo sobre os rumos do negócio. Nessas conversas, que não duram mais do que uma hora, o executivo apresenta novas ideias, repassa tarefas e define objetivos. Galló não gosta de perder tempo, daí sua aversão a qualquer tipo de memorando ou e-mails. 

 

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José Galló, presidente da Renner: ”O diferencial é fazer a moda rápida com os produtos certos”

 

“No mundo da moda, é preciso ter agilidade”, afirma. Essa preocupação com a velocidade tem um motivo. Até 2021, ele pretende dobrar o tamanho da Renner, segunda maior varejista de moda do Brasil, com um faturamento de R$ 3,9 bilhões no ano passado. Sua ambição não é pequena: dominar o mercado de fast-fashion, modelo de atuação no qual o objetivo é levar prêt-à-porter para os consumidores a preços baixos e o mais rapidamente possível. Sua maior aposta está em um segmento ainda pouco explorado pela Renner: o de lojas segmentadas. Galló espera inaugurar, nos próximos oito anos, no mínimo, 400 lojas da Youcom, marca lançada neste ano voltada para o público jovem. 

 

O projeto começou em 2012, quando a Renner abriu cinco lojas com a marca Blue Steel. A ideia era fazer um teste para ver se a novidade emplacava. O sucesso da iniciativa fez a varejista enxergar possibilidades maiores nesse segmento. A marca Blue Steel permanece, mas será vendida somente nas lojas da Renner. A opção por manter duas marcas se dá por conta de outra novidade que será instituída por Galló. Pela primeira vez em sua história quase centenária, a Renner vai adotar o modelo de franquias para se expandir. Segundo o executivo, isso só é possível com uma marca exclusiva. “Ninguém abriria uma loja sabendo que a mesma roupa é vendida na Renner”, afirma Galló. 

 

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Top model: a Uniqlo, do bilionário japonês Tadashi Yanai, aposta

em novas tecnologias para criar coleções exclusivas

 

As primeiras lojas franqueadas devem ser inauguradas em três anos. Inicialmente, a empresa vai trabalhar apenas com unidades próprias. As lojas da Youcom, mais do que uma jogada de marketing, representam um modelo de atuação inédito para a companhia. Ao contrário das tradicionais lojas de departamento, nas quais é possível encontrar roupas para todos os gostos, a Youcom foca no público jovem de classe média – suas lojas serão menores. A ideia é produzir coleções mais ousadas e autorais. Não espere, no entanto, que a Renner busque parcerias com grandes estilistas, a exemplo do que fazem concorrentes como a Riachuelo e a C&A. Ela usará seu próprio time de designers. 

 

O objetivo não é copiar coleções de grifes famosas, mas criar sua própria moda. Por esse motivo, a Youcom terá uma estrutura separada da Renner, completamente independente. Essa nova forma de atuar, segundo Galló, é motivada por mudanças pelas quais passa o setor de fast-fashion. A fórmula baseada em levar o prêt-à-porter para a loja no menor tempo possível, oferecendo aos consumidores novidades toda semana, já não é mais um diferencial. O modelo foi consagrado pela Zara, rede que pertence ao grupo Inditex, do bilionário espanhol Amancio Ortega. Sua estratégia é copiada por praticamente todas as outras varejistas de moda casual. Hoje, essa estratégia é praticamente um pré-requisito para atuar nesse setor, mas não suficiente. 

 

“As pessoas se acostumaram com isso”, afirma Galló. Mais do que seguir as tendências e copiá-las rapidamente, o que se exige dos varejistas atualmente é a criação de coleções inéditas e o desenvolvimento de tecnologias. “As empresas mais bem-sucedidas no varejo atualmente são as que estão buscando inovações fora do setor de lojas de departamento”, diz Galló. É o caso da japonesa Uniqlo, uma das referências utilizadas pelo executivo para elaborar seu plano de crescimento. O fundador da companhia, o bilionário Tadashi Yanai, foi eleito uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Apesar de também ser considerada uma empresa de fast-fashion, a Uniqlo é quase uma antítese da Zara. 

 

A Renner pretende inaugurar no mínimo 400 lojas

da Youcom nos próximos oito anos 

 

Enquanto a espanhola se esforça para reduzir ao máximo o tempo de criação e produção de uma peça de roupa, os japoneses demoram cerca de um ano para lançar uma coleção. Esse tempo maior de criação, no entanto, resulta em conceitos bem elaborados e duradouros, de modo que seja possível fazer pequenas “atualizações” nas peças para garantir que as novidades cheguem às lojas toda semana. A força da Uniqlo não está somente no acompanhamento das tendências. A empresa também procura lançar modas. Para isso, Yanai garante total liberdade aos estilistas e privilegia a criatividade, levando a arte das passarelas diretamente para o mundo da moda casual. Outra importante característica da Uniqlo é o desenvolvimento de novos tecidos. 

 

Yanai costuma dizer que sua empresa, na verdade, não atua no setor de moda, mas sim no de tecnologia. Além de buscar matérias-primas inovadoras, Yanai também é ávido por criar maneiras inusitadas de apresentar seus produtos nos pontos de vendas. As lojas da varejista japonesa são conhecidas por abusar de displays eletrônicos, por exemplo. Para Galló, esses são justamente os pontos-chave para o sucesso no varejo. “Uma empresa de moda precisa criar roupas que reflitam as tendências sociais, entregá-las aos consumidores de forma coordenada, em ambientes práticos e agradáveis, com preços competitivos”, diz. “O diferencial não é fazer o fast-fashion. É fazer a moda rápida com os produtos certos.” 

 

Essa tendência fast-fashion está se espalhando rapidamente por todo o varejo de vestuário. As principais concorrentes da Renner também estão trabalhando para conquistar consumidores mais exigentes. A C&A, líder de mercado, por exemplo, aposta em parcerias com grandes estilistas. Só no primeiro semestre deste ano, a varejista lançará cinco coleções assinadas por nomes como Carina Duek e Isabella Giobbi, além de roupas em parcerias com marcas como Santa Lolla e Ágatha. Nos últimos três anos, a empresa colocou em suas lojas uma média de quatro coleções assinadas por ano. “O perfil do consumidor está mudando”, afirma Olivia Margarido, analista de varejo da consultoria Lafis.

 

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Prêt-à-porter: a Zara, do espanhol Amancio Ortega, foi a pioneira

do modelo, copiado por seus concorrentes

 

“As pessoas estão mais informadas e, com o aumento da renda, demandam produtos que antes não estavam ao alcance, como roupas de marca.” A Riachuelo, terceira maior empresa do setor, por sua vez, aposta num ritmo acelerado de abertura de lojas. O plano é de praticamente dobrar o número de lojas nos próximos três anos, chegando a 330 pontos de venda. Para isso, a empresa vai aumentar em 66% o volume de investimentos este ano, que chegará ao montante de R$ 450 milhões. Segundo Tulio Queiroz, diretor de relações com investidores da Riachuelo, esse mesmo nível de investimentos deve ser mantido nos próximos anos. Outra ameaça aos planos da Renner são as concorrentes estrangeiras. 

 

A britânica Topshop, considerada a empresa mais fashion do mundo da moda casual, já abriu uma unidade em São Paulo, no ano passado. A sueca H&M, a segunda maior do mundo, colocou a América Latina como prioridade de crescimento. Neste ano, abriu uma loja no Chile. Ainda não há planos confirmados de começar a operar no Brasil, mas um porta-voz da companhia afirmou recentemente que o mercado brasileiro é um dos alvos. Para Galló, no entanto, essas empresas vão sofrer para crescer no País. “Fazer negócios aqui é muito mais difícil do que lá fora”, afirma o executivo. Por outro lado, ele acredita que há um grande mercado ainda inexplorado. Juntas, as cinco maiores empresas do setor de fast-fashion possuem apenas 11% de participação. “Ainda há muito espaço para crescer”, diz Galló. Mas é melhor ser rápido, porque, no mundo da moda, o chique de hoje pode se tornar o brega de amanhã. 

 

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