Negócios

Xô, entulho

Camargo Corrêa implanta sistema online para vender as sobras de seus canteiros de obras 

Imagine quanto de entulho deve gerar obras do porte das hidrelétricas de Jirau, em Rondônia e em Belo Monte, no Pará. A construtora paulista Camargo Corrêa, que faz parte de um conglomerado que fatura mais de R$ 17 bilhões por ano, sabe bem o tamanho do problema. Em 2011, o entulho dos canteiros de suas 32 obras atingiu 22,8 mil toneladas. O descarte desse lixo, que à primeira vista pode parecer um problema, no entanto, passou a ser mais uma fonte de renda para a empresa. Desde agosto do ano passado, a Camargo Corrêa vem desenvolvendo um projeto-piloto que gerencia a oferta e a demanda do entulho gerado nesses empreendimentos. O sistema denominado Bolsa de Resíduos funciona como um canal direto entre a construtora e os possíveis compradores do material.  

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Kalil Farran, da Camargo Corrêa: ”A Bolsa de Resíduos é um exemplo de oportunidade

de negócio sustentável”

 

Inicialmente, foram colocadas à venda as sobras das obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, do consócio da Refinaria do Nordeste, em Pernambuco e da construção da Ferrosul, em Goiás. Com a bolsa, nos três últimos meses de 2011, a receita adquirida com a venda dos resíduos aumentou 80%, se comparada ao mesmo período de 2010. O resultado foi a confirmação que a companhia esperava para estender o projeto para outras nove obras. “Ser ambientalmente correto não quer dizer que você tem de gastar mais”, diz Kalil Farran, gerente executivo de sustentabilidade de Camargo Corrêa. “A Bolsa de Resíduos é um exemplo de oportunidade de negócio sustentável.” 

 

A intenção do executivo é de que, até o final de 2013, todos os projetos executados pela empresa estejam “cobertos” pela Bolsa de Resíduos, incluindo os realizados na Argentina, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Equador, Moçambique e Angola. A comercialização das sobras de materiais sempre esteve na agenda da companhia, tanto que todos os seus empreendimentos já contavam com estrutura e funcionários preparados para fazer a coleta seletiva e a preparação do lixo para descarte. Dessa forma, segundo Farran, o investimento inicial para implantar a Bolsa de Resíduos foi de apenas R$ 250 mil. “Apenas ajustamos os ponteiros unindo o entulho de todas as obras em uma só oferta”, diz Farran. 

 

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Hidrelétrica de Jirau: a obra em Rondônia gera anualmente 18 mil toneladas de entulho, que já estão

sendo cadastradas na Bolsa de Resíduos.

 

Com esse sistema, todos os detritos são cadastrados em um portal online, no qual a construtora pode negociar diretamente com os clientes finais, eliminando os chamados atravessadores, que pagam menos por comprarem pequenas quantidades. Negociando em volumes maiores, a Camargo Corrêa pôde praticar preços, em média, 200% mais altos do que anteriormente. Farran estima que a receita gerada pela venda desses resíduos aumente para R$ 2,5 milhões, 80% a mais que a do ano passado, quando as 32 obras já estiverem cadastradas. O valor é uma ninharia para uma companhia do porte da Camargo Corrêa, mas significativo para pequenas cooperativas que atuam nessa área. 

 

Além do retorno financeiro, uma das motivações da Camargo Corrêa em buscar novas alternativas para lidar com a geração de entulho foi a aprovação, em agosto de 2010, da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A lei responsabiliza as empresas pelo descarte correto dos resíduos gerados por elas e prevê o fim dos lixões até 2014. Para se adaptar a essa nova realidade, a Camargo Corrêa chegou a oferecer o entulho de suas obras em bolsas de resíduos de entidades empresariais, mas não se satisfez com a rotatividade de vendas. “Precisávamos de uma operação mais dinâmica”, diz Ricardo Sampaio Fernandes, coordenador de meio ambiente da construtora.

 

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