Negócios

Um CEO em fuga

Aprenda com o americano Jared Heyman, fundador da Infosurv, como abrir mão do comando e sair mundo afora gozando as delícias da vida, sem deixar sua empresa quebrar 

O som das ondas quebrando na praia. O sol brilhando em um céu azul durante o dia e a fogueira contrastando com as estrelas à noite. O sonho de escapar das paredes apertadas do escritório e viver sem destino, desbravando terras estrangeiras. A imagem é quase um clichê de tão desejada, mas são poucos os que conseguem transformar a visão em fato. O executivo americano Jared Heyman, 34 anos, decidiu que ia fazer exatamente isso. Em meados de 2010, o fundador da Infosurv – companhia de pesquisas de mercado baseada em Atlanta, capital do Estado americano da Geórgia – anunciou à sua espantada equipe que ia iniciar um período sabático de um ano para viajar ao redor do mundo.

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Meu escritório é na praia: em Florianópolis, Jared Heyman decidiu mudar
o curso de sua carreira e se dedicar às start-ups em vez de
gerenciar o dia a dia dos negócios.

“Estava muito ocupado na época, mas percebi que tinha de dizer um basta”, afirmou Heyman, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. “Sempre haveria um impedimento, eu nunca estaria completamente livre ou pronto.” Ele não sabia, mas seria esse o início de uma jornada que o transportaria  para mais de 30 destinos ao longo de 18 meses e que alteraria profundamente não só sua visão de carreira como todo o rumo que traçara para sua vida profissional. O périplo de Heyman é um exemplo para os  empresários que temem deixar a empresa que fundaram para um período de reflexão. 

“Se há uma coisa que aprendi sobre mim mesmo é que sou um empreendedor de coração”, diz Heyman. “Agora eu estou pronto para começar tudo de novo.” Durante o sabático, Heyman planejou seu sustento a partir de sua porção nos lucros da companhia. Em busca de tranquilidade, assumiu o compromisso de se afastar completamente da direção dos negócios, exceto por um e-mail semanal e um telefonema de vez em quando. Ao sair para o aeroporto, deixou no comando o experiente Carl Fusco, 56 anos, como diretor em exercício, em troca de carta branca operacional e um aumento salarial. 

 

As primeiras etapas da jornada tiveram lugar na América do Norte, com passagens pelo frio do Canadá, pelas rochas do Grand Canyon e pelo calor da Califórnia. Em seguida vieram a Itália e as paradisíacas ilhas gregas. O executivo manteve ativas várias redes sociais para documentar seus passos. Em breve, uma enxurrada de tweets, posts, vídeos e fotos de Heyman se divertindo passou a circular pelo escritório da Infosurv. Muita gente não gostou. O sentimento predominante era o do “estamos trabalhando duro aqui enquanto ele está curtindo a Europa”. Decisões importantes foram tomadas em sua ausência, como a melhoria das contribuições à aposentadoria. 

 

Ao contrário de Heyman, que preferia pagar salários baixos a jovens com fome de subir na carreira, Fusco decidiu procurar um profissional top de linha, com remuneração elevada, para gerir o setor de tecnologia e evitar eventos como a queda de servidores, como a que tirou a companhia da internet durante dias. Os negócios atingiram um novo patamar após a saída do fundador da direção da companhia. Algo difícil de digerir para o ego do empresário. “Temos estilos distintos”, diz Heyman, diplomático. “Mas evitei me preocupar demais com a forma como a empresa estava sendo gerenciada pelo Carl (Fusco).” Diferenças à parte, Heyman logo passaria a ter outras preocupações quando desembarcou no Brasil, que ele conhecera pela primeira vez em 2002.  

 

Sua primeira parada foi o Rio de Janeiro. Lá, alugou um apartamento e passou a frequentar as praias, as festas e a noite carioca. Essa rotina se repetiria ao longo dos quatro meses em que permaneceu no País. Esteve em Florianópolis, onde curtia seus dias pilotando uma motocicleta alugada à beira-mar, praticando surfe e treinando o português com as garotas locais (leia a entrevista ao final da reportagem). Foi também para destinos turísticos e paradisíacos do Brasil, como as praias de Jericoacoara e Canoa Quebrada, no Ceará. Conheceu Fortaleza, Salvador e a ilha de Fernando de Noronha. E, por fim, aventurou-se na selva amazônica, a partir de Manaus. 

 

“Provavelmente vi mais do Brasil do que 99% dos brasileiros”, afirma Heyman. No Brasil, os anos imersos no trabalho desde a criação da Infosurv, em 1998, passaram a soar como uma lembrança cada vez mais distante. “Uma das coisas mais estranhas da viagem é como ela altera a sua perspectiva”, diz Heyman. O americano relata que, numa rotina normal, um dia é um longo período: dez horas de trabalho, três refeições, duas horas de treino, uma hora de convívio com os amigos. Já durante a viagem, sentiu o tempo voar. “A estadia no Brasil passou como um flash”, afirma. “Tudo o que tenho para comprovar que ela existiu é um bronzeado, algumas centenas de fotos, ótimas lembranças e novos amigos.” 

 

A experiência no País fez Heyman mudar seus planos. Em vez de voltar logo, resolveu estender a viagem até quando tivesse vontade. E decidiu que não voltaria mais a gerir o dia a dia da Infosurv. “Percebi que, no sangue, sou um cara de start-ups, um empresário, e não alguém que gerencia o negócio.” Ao entender isso, retornou rapidamente para Atlanta, onde providenciou uma participação na companhia para Fusco, que passou a ter a direção estratégica dos negócios. Trabalho feito, Heyman caiu novamente na estrada. Andou, pedalou e pilotou paragliders por Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia e Peru. 

 

Foi para o Havaí experimentar o surfe local e depois embarcou para o sudeste da Ásia. Atualmente, já faz cerca de dois meses que Heyman está em Bali, na Indonésia, se preparando para a próxima etapa da sua vida – o retorno ao mercado. Segue como proprietário da Infosurv, que registrou recorde de receita e de lucro em 2011 – ironicamente, no período em que esteve longe do comando. “Quando saí da empresa, ela atingiu um novo nível de maturidade, passando de uma gestão baseada no fundador para uma direção profissional, um salto que nem todas conseguem dar com sucesso”, afirma. “Sem meu envolvimento, novos líderes surgiram e exibiram um nível de independência, motivação e criatividade que eu acho inspirador.” 

 

Na análise de Heyman, hoje o sentimento dominante em sua cabeça é o de realização. “A jornada foi um sucesso porque a equipe no escritório me deu confiança total”, diz. Esse é um luxo que poucos empresários podem usufruir.” Heyman desfrutou da vantagem de que, nos EUA, o período sabático é uma experiência bem mais consolidada do que no Brasil. O legendário Steve Jobs, fundador da Apple, passou sete meses na Índia no início de sua carreira. “No Brasil, a maior parte das empresas ainda tem um certo preconceito”, afirma William Monteath, diretor da consultoria americana Robert Half, especializada em recursos humanos. 

 

Além disso, nos EUA, a maioria de quem corre atrás do sabático o faz após períodos de estresse ou pela necessidade de repensar a vida. Por aqui, o motivo mais comum para encarar a experiência é a busca dos executivos por um idioma estrangeiro, normalmente por meio da imersão em outro país. “São profissionais que sentem que estão perdendo oportunidades e buscam se aperfeiçoar”, diz Mariciane Gemin, sócia-gerente da consultoria Asap. Para Marcelo Cuellar, headhunter da consultoria britânica Michael Page, o sabático é como afiar um machado. “Com o tempo, o machado vai perdendo o fio”, afirma. “Se você não o afia, vai gastar mais energia para ter menos resultado.” 

 

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 “Aprendi a estruturar uma empresa sem mim”

 

Enquanto se ocupa com ginástica, ioga, leitura e diversão, Jared Heyman, aos poucos, prepara a transição para o que chama de “estilo de vida pós-sabático”. Direto da casa que divide com a atual namorada em Bali (Indonésia), ele conversou com a DINHEIRO:    

 

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Como é hoje sua rotina em Bali?

Ultimamente, sinto que tenho vivido a transição do “viajar” para o “viver no exterior”. Profissionalmente, ainda me limito à comunicação via e-email com os líderes da Infosurv. Equilibro o meu tempo entre os exercícios físicos, a ioga, a leitura e o relaxamento.  Ler é o meu novo passatempo favorito, principalmente revistas e alguns livros de negócios. Estou no último capítulo da biografia de Steve Jobs. Para relaxar, gosto de nadar, cozinhar, jogar gamão e conversar com amigos via Skype.

 

Quando o seu sabático deve acabar? 

Minha mãe também está ansiosa (risos). Não tenho uma data específica. Em vez disso, estou em uma transição suave do estilo de vida sabático para o pós-sabático. A cada semana gasto um pouco mais de tempo com trabalho e um pouco menos em lazer. Já tenho aquela “coceira” por um envolvimento maior nos negócios. Tenho várias ideias para start-ups, mas não consigo me imaginar gastando 50 horas por semana no escritório. Pelo menos, não ainda.

 

Que lições você aprendeu com sua experiência? 

Minhas maiores lições foram sobre como estruturar uma empresa que possa prosperar sem mim. Como empresário, minha filosofia é que a criação de uma empresa que possa crescer comigo é boa, mas a criação de uma empresa que possa prosperar sem mim é ótima. Aprendi como montar uma equipe de liderança forte, com habilidades complementares, e a construir valores organizacionais que podem sobreviver a seu arquiteto. Foi importante aprender como criar métricas de desempenho claras e um equilíbrio de poder dentro da empresa que me permita dormir bem à noite.

 

Você ainda se lembra do português que aprendeu no Brasil?

Sim, eu ainda falo um pouquinho de português. Infelizmente só sei as palavras suficientes para falar com as gatinhas no bar! (risos) 

 

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