Negócios

Telemar diz Oi aos investidores


O primeiro encontro se deu há 40 dias num edifício imponente na Praia de Botafogo, onde funciona a sede da holding que controla a Telemar. Na sala de reuniões, cinco executivos do banco suíço UBS foram recebidos pelos três controladores da operadora de telefonia: Carlos Jereissati, do grupo La Fonte; Sérgio Andrade, da Andrade Gutierrez, e Fersen Lambranho, da GP Participações. Começava a nascer ali, com vista para a Baía da Guanabara, a maior operação da história do mercado de ações no País. É um negócio que, se vier a ser concretizado, mudará a face do capitalismo brasileiro ? e para melhor. O plano consiste em fazer com que a Telemar, a empresa mais negociada da Bovespa, passe a ter uma única classe de ações ? todas com os mesmos direitos.

Líder em todos os setores: Telemar é hoje a maior em linhas fixas, longa distância e celulares

O controle, hoje concentrado em poucas mãos, seria diluído em milhões de acionistas e a Telemar passaria a ser uma ?empresa sem dono?, a exemplo do que ocorre com multinacionais americanas, como Gillete e Citibank. ?A proposta transformará a Telemar na maior empresa de capital pulverizado da América Latina?, comemora Luiz Eduardo Falco, coordenador da operação e presidente da Oi, o braço de telefonia celular do grupo.

Na fase inicial do negócio, os atuais controladores da Telemar e os banqueiros do UBS decidiram propor ao mercado uma complexa troca de ações. A condição para seguir adiante é convencer os acionistas minoritários a transferir um prêmio aos controladores. ?Na prática, os principais sócios estão vendendo aos minoritários um direito de controle que hoje é só deles?, disse à DINHEIRO Marcelo Mesquita, economista do UBS. Hoje, a Telemar tem seis classes de ações. No topo do comando, há a holding onde La Fonte, Andrade Gutierrez e GP têm, cada um, 10,275% do capital ? o Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, também tem uma fração semelhante, mas não participa do conselho. Esses 10,275%, por sua vez, representam cerca de 1,6% do capital total da Telemar. Na nova empresa, que seria chamada de Oi Participações, com ações no Novo Mercado, esses 1,6% se transformariam em 3,18%. E para que isso aconteça, naturalmente, a participação dos minoritários tem de diminuir. ?O jogo tem soma positiva?, diz Mesquita, do UBS. ?Os minoritários teriam menos ações de uma empresa mais transparente e valiosa?.

Na prática, essa valorização já começou a acontecer. Na segunda-feira 17, dia do anúncio da operação, as ações ordinárias da Telemar subiram 26%. É natural que uma empresa menos sujeita a eventuais abusos de controladores valha mais. Os principais sócios, porém, determinaram um preço mínimo de saída. A operação, prevista para acontecer no dia 31 de julho, depende de uma valorização adicional das ações ? a Telemar, hoje avaliada em pouco mais de US$ 10 bilhões teria de chegar a US$ 15 bilhões. Com isso, La Fonte, Andrade, GP e Opportunity venderiam os seus 3,18% na Oi Participações por US$ 477 milhões, valor próximo, em dólar, ao que foi pago na privatização. ?Cada um sairá com R$ 1 bilhão?, disse à DINHEIRO um dos sócios da Telemar. ?É esse o número mágico?.

R$ 1 bilhão para cada: Jereissati, da La Fonte, Andrade, da AG, Lambranho, da GP, e Dantas, do Opportunity, venderiam, cada um, 10,275% do controle

Hoje, o sentimento predominante no mercado é de que a operação será concretizada, ainda que as ações tenham um pico a escalar. O analista Maurício Fernandes, da Merrill Lynch, previu que os papéis ordinários da Telemar irão saltar de R$ 65 para R$ 90 e reforçou a recomendação de compra. Andrew Campbell, do Credit Suisse, também viu com bons olhos o negócio. ?A transação deverá ser aprovada?, escreveu Campbell. O valor das ordinárias, na sua avaliação, pode ir até mais longe, chegando a R$ 112. ?É um bom negócio, que valoriza a companhia e os seus papéis?, endossa Valder Nogueira, analista do Santander. Uma voz dissonante, em meio ao otimismo, é a do analista Alexandre Garcia, da Ágora Senior. ?O preço das ações já deveria ter atingido o valor desejado?, avalia. Segundo ele, uma melhor estrutura acionária não basta. Seria preciso apresentar melhores perspectivas de lucro, num setor em que a telefonia fixa não cresce, os celulares têm margens baixas e a longa distância enfrenta uma competição predatória.

De qualquer forma, se vier a dar certo, a operação pode pacificar aquele que vem sendo o setor mais explosivo da economia, com disputas repercutindo até na política. Isso porque, durante um bom tempo, os controladores da Telemar acalentaram um outro plano, que era fundir a empresa com a Brasil Telecom, esta controlada por Dantas. Esse duelo entre o banqueiro baiano e seus ?sócios-rivais? na Telemar provocou uma série de estilhaços: acusações de espionagem, denúncias de financiamento eleitoral e até mesmo de favorecimento à empresa do filho do presidente Lula ? a Gamecorp, de Fábio Luís Lula da Silva, recebeu R$ 15 milhões da Telemar. Na visão de alguns analistas, foi a revelação do caso Gamecorp que inviabilizou a fusão. Outro plano que também foi tentado foi a venda do controle da Telemar para a Portugal Telecom. O negócio, porém, fracassou. ?Pediram muito mais do que a empresa valia?, diz uma fonte da Portugal Telecom. Sem essas duas alternativas, os sócios buscaram uma saída moderna, rentável e, sobretudo, bem menos conflituosa. Também por esse motivo a proposta foi recebida com entusiasmo no BNDES, um sócio com 25% das ações de controle da Telemar. ?Isso vai revolucionar o mercado de capitais?, disse o presidente Demian Fiocca a interlocutores. ?Muitas outras empresas vão migrar para o Novo Mercado?.

A Telemar, na verdade, não será a primeira empresa brasileira a partir para uma estrutura de comando pulverizado. Embraer, Lojas Renner e Perdigão ? para ficar nos grandes exemplos ? já aderiram ao Novo Mercado com estratégias semelhantes. Só que a Telemar faz muita diferença. Primeiro, porque é a empresa de maior negociação na Bovespa ? são mais de R$ 300 milhões de giro diário. Segundo porque é uma companhia que ficou marcada por polêmicas envolvendo seus sócios ao longo dos últimos anos e foi também chamada de ?telegangue? por ninguém menos que Luiz Carlos Mendonça de Barros, o ministro que conduziu a privatização. Afora os conflitos, há que se louvar o trabalho operacional feito na empresa. Foram unidas 16 subsidiárias numa só companhia a empresa se tornou a maior do País em telefonia fixa e em longa distância e, com a Oi, é a número um em telefonia celular em sua área de concessão, que engloba Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e todo o Nordeste. Só no ano passado, o grupo, que tem 15 milhões de linhas fixas, faturou nada menos que R$ 23,7 bilhões e também lucrou R$ 1,1 bilhão.

Essa operação Telemar, que já desperta o interesse de gestores de fundos internacionais como Fidelity e Alliance Capital, também pode levar outros empresários a migrar da ?velha Bovespa? para o Novo Mercado. Hoje, as empresas do modelo antigo, que são negociadas com ações ordinárias e preferenciais (sem direito a voto), têm uma relação entre preço e lucro de cinco vezes. As companhias do Novo Mercado, que dão os mesmos direitos a todos os acionistas, chegam a valer duas vezes mais. ?A beleza da operação é que o incentivo para a migração vem do próprio mercado?, diz Mesquita, do UBS. Se o exemplo da ?empresa sem dono? vier mesmo a ser seguido por outras grandes companhias, o Brasil terá um mercado acionário mais sólido e um capitalismo bem mais sadio.

COMO SERÁ A TROCA

Maria Di Andrea Hagge

Centro de operações: Empresa tem 15 milhões de linhas e é a que cobre mais estados do País

A operação simplificará a estrutura acionária. Hoje, existem seis ações diferentes da Telemar. Com o negócio, haverá apenas uma classe de ações ? e todos os investidores terão os mesmos direitos. Os papéis serão negociados no Novo Mercado e a oferta de ações será feita no Brasil e em Nova York.

?A nova empresa adotará o nome Oi

?Nenhum acionista terá mais de 20% do capital total

R$ 23,7 bilhões foi a receita da empresa no ano passado, que fechou o seu balanço com um lucro de R$ 1,1 bilhão