Negócios

Solae de grão em grão


O Brasil figura entre os maiores produtores e exportadores de soja. Apesar disso, ela nunca teve um grande apelo entre os brasileiros. A exceção é a sua versão em óleo, largamente usada em temperos e frituras. Mas o que muita gente não sabe é que a soja está presente em diversos alimentos. A lista inclui embutidos (salsicha e mortadela, por exemplo), iogurtes, biscoitos, barra de cereal, margarina, sorvetes e sucos de frutas. O segmento de maior visibilidade é o de bebidas à base do grão. De 2004 para 2005 ele cresceu 20% e movimentou cerca de US$ 400 milhões na América Latina, metade disso no Brasil. Foi justamente esse crescimento que atraiu a atenção da The Solae Company, principal fornecedora mundial de proteína de soja. Fruto da associação entre Dupont e Bunge, a empresa, com apenas três anos de mercado, andava fazendo a festa na Ásia, onde o grão é um dos principais itens do cardápio. A idéia seguinte era explorar Europa e Estados Unidos e somente depois de conquistar esses mercados partir para outros países e regiões. Mas o boom do consumo de alimentos à base de soja na América Latina mudou o cronograma e os planos de invasão da Solae. O foco passou a ser a parte de baixo das Américas e o Brasil em especial. Hoje, da receita mundial de US$ 1 bilhão da Solae, R$ 331 milhões são obtidos no mercado brasileiro.

O que faz exatamente a Solae? Ela é especializada em fornecer lecitina e proteína isolada de soja para a indústria. Trata-se da parte nobre do grão, obtida por meio de um processo de refino. Sua cotação oscila entre US$ 3 e US$ 7 (o quilo) contra os US$ 0,22 cobrados pelo grão in natura. Esse composto garante uma receita mundial de US$ 1 bilhão à Solae, dos quais R$ 331 milhões são obtidos no Brasil. O sucesso da Solae é fruto de um modelo de negócio bastante original. Ao invés de ficar esperando que os clientes batam à sua porta, os técnicos que dão expediente na fábrica situada em Esteio (RS) passam o dia desenvolvendo novas aplicações para a proteína. O resultado é oferecido ao mercado. Uma delas é o bife de soja, que deverá chegar às gôndolas dos supermercados até o final do ano. Em alguns casos, a companhia também banca os custos de pesquisas para os clientes. Foi assim com o processo de eliminação da gordura trans (farta de colesterol ruim) dos alimentos, que consumiu US$ 500 mil. Todo esse esforço é para transformar a marca Solae em sinônimo de categoria, a exemplo do que a DuPont fez com o nylon, o teflon e a lycra. ?Queremos ser a Intel da área de alimentos à base de soja?, explica Jordan Vile Tosoni Rizetto, diretor de marketing da Solae para a América Latina. Assim como a empresa americana fabricante de chips para computador, a Solae coloca sua assinatura (uma ramo de três folhas de cor laranja) na embalagem dos produtos que levam seu composto.

De acordo com o executivo, o crescimento desse setor está ligado ao fim do preconceito em relação à soja, especialmente nos países ocidentais. Na Ásia, o grão é um dos principais itens do cardápio. A resistência por aqui devia-se ao sabor considerado enjoativo. Mas isso é coisa do passado. Pesquisa da consultoria Nielsen indica que 13% dos latino-americanos compram regularmente bebidas de soja, percentual inferior apenas ao registrado na Ásia (27%) e acima da América do Norte (10%) e da Europa (6%). ?Os brasileiros já percebem as vantagens nutricionais da proteína?, destaca o diretor da Solae. E não se trata apenas dos ?bichos-grilo? ou daqueles que riscaram a carne de seu cardápio. Levantamento feito pela consultoria Health Focus mostra que 44% dos consumidores já escolhem os alimentos em função de sua relação com a saúde. Que o diga a Ades, controlada pela anglo-holandesa Unilever. Foi ela que lançou as bebidas à base de soja por aqui. ?Hoje, temos 71% de um nicho que movimenta R$ 358 milhões por ano?, diz Fernanda Tamate, gerente de produto da Ades. E quanto mais o mercado cresce, melhor para a Solae.