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O golpe final da Gurgel

Quando o martelo bater no leilão de falência judicial da Gurgel Motores, no próximo dia 3, em Rio Claro (SP) estará selado definitivamente o fim da história da única indústria automobilística genuinamente nacional. A empresa, que nasceu em 1969 do sonho do engenheiro João Amaral Gurgel, teve sua falência decretada há 10 anos. Hoje, o que resta dela é o prédio da sede, que abriga o galpão fabril (uma área de 17 alqueires em estado precário de conservação), três imóveis em Rio Claro, algumas salas de escritório em Fortaleza (CE) e um ?pacote? de créditos referentes a tributos federais cobrados indevidamente da montadora. Somando tudo, o leilão poderá levantar R$ 25 milhões, 10% da dívida total da Gurgel. O síndico da massa falida, Jaime Marangoni, diz que o dinheiro dará para acertar as contas com os ex-funcionários. O resto? ?É impagável?, diz Marangoni.

A família Gurgel queixa-se da demora para a realização do leilão. ?Deixaram estragar tudo e agora estão fazendo leilão de sucata?, denuncia Maria Cristina Gurgel, filha do fundador da montadora. Os bens da família estão protegidos. Não podem, segundo o síndico da massa falida, entrar no pagamento dos R$ 225 milhões restantes da dívida. ?É uma pena ver a Gurgel acabar dessa maneira. O momento desfavorável da economia nos anos 80 talvez tenha sido o principal empecilho para a continuidade do sonho do carro nacional?, comenta José Eduardo Favaretto, consultor da área automobilística. ?Mas João Gurgel, que tinha boas idéias para o mercado, também não soube aproveitar benesses como os incentivos fiscais dados pelo governo?. Sim, João Gurgel tinha boas idéias. Quando foi decretada a falência, ele estava prestes a lançar o projeto Delta. Tratava-se de um veículo econômico no preço, no consumo de combustível e na manutenção. Era o embrião do carro popular.

Após o leilão, as únicas lembranças de um tempo de heroísmo na indústria automobilística brasileira estarão guardadas na garagem de Ricardo Amaral Gurgel, sobrinho do fundador. Lá, estão estacionados um jeep X-10 e um XEF, carro de banco único com capacidade para três passageiros. Ricardo pagou R$ 5 mil pelo XEF que, restaurado, pode valer até R$ 20 mil. Os carros Gurgel, de agora em diante, serão peça de colecionador.