Negócios

Um sonho aos 81 anos

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utro dia o industrial Fuad Mattar, que nunca vestiu um jeans na vida, abriu o armário e ficou intrigado. Diante de seus mais de 50 ternos, feitos dos melhores tecidos e pendurados em degradê (beges, cinzas, marrons, marinhos e pretos, da esquerda para a direita), pela primeira vez ele não conseguiu identificar o que era Ermenegildo Zegna, o que era Dormeuil, o que era Loro Pianna e o que era Collezione Paramount. Pareciam todos de igual qualidade. Então ele foi conferir nas etiquetas. Um ou outro europeu ? os mais antigos. A maioria era mesmo Paramount, ou seja, confeccionada com tecidos saídos de suas próprias fábricas: um complexo de cinco plantas que empregam 3 mil pessoas e compõem a centenária Paramount Têxteis. ?Notei que há dez anos só uso produtos nossos. E eu sou exigente no vestir, sempre preferi ternos italianos e ingleses?, afirma Mattar, metido num belo risca-de-giz azul-marinho feito sob medida e lenço de seda no bolso do paletó. O empresário quer dizer que, em termos de matéria-prima, hoje não se vê diferença entre os seus costumes e os da famosa Zegna, da Itália. ?Eles têm um lanifício igual ao nosso?, garante, para em seguida se corrigir. ?Igual não. Mais velho. Nós investimos US$ 55 milhões nos últimos quatro anos, temos máquinas mais novas. A qualidade deles é impecável, não dá para negar. Só que a nossa também é. Falta-nos renome internacional.?

É por isso que, aos 81 anos, Mattar está ingressando num time de empresários ? como um dia fizeram Roberto Marinho, Abraham Kasinski e Olavo Monteiro (leia o quadro abaixo) ? que não temem empreender num momento da vida em que podiam perfeitamente estar descansando. Para conquistar o tal renome internacional (e, por tabela, mais clientes), o dono e presidente da Paramount vai tentar fortalecer sua marca dando-lhe mais vitrine. Mattar planeja criar uma rede de lojas onde venderá ternos sob medida ? confeccionados com fios Paramount, é claro. O nome já está escolhido e tem a ver com a linha de cortes de pura lã da companhia: Alfaiataria Collezione Paramount. O projeto de US$ 8 milhões (compra de maquinário e softwares) prevê 30 lojas franqueadas em três anos. A primeira, programada para março, ficará na alameda Franca, nos Jardins(SP). Mas antes, a partir do próximo dia 14, um embrião dessa investida varejista já estará funcionando na butique Daslu. ?Ainda temos questões técnicas a resolver?, diz José Caramelo, diretor superintendente da Paramount. ?Precisamos formatar o negócio de modo que seja possível misturar a produção industrial com o trabalho do artesão.? Luciane Robic, analista do IBModa, endossa o novo vôo da Paramount: ?Eles têm tudo na mão. São os únicos a produzir tecidos finos de qualidade no País. Essa experiência de balcão os tornará mais fortes e conhecidos.?

Mas não se trata de vaidade simplesmente. Por trás do plano varejista há também uma necessidade comercial. ?Estou indo para o comércio porque me obrigam, não tenho opção?, afirma Mattar. Ele se refere às pressões de seus clientes confeccionistas americanos que, com os chineses nos calcanhares e custos de produção na estratosfera, querem encomendar cada vez menos tecidos e mais roupas acabadas. ?Hoje eles compram de nós, mandam fazer as roupas na Colômbia, na Argélia, e querem que acompanhemos o processo. Não posso ficar responsável por uma fábrica na Argélia que nem é minha. É mais fácil eu mesmo produzir?, diz Mattar. Portanto, mostrar a cara na fachada de uma rede de lojas é um desdobramento de uma estratégia maior. A Paramount quer virar uma grife ? e exportar para o mundo todo.

Isso será menos difícil do que parece. Os italianos da Zegna já fizeram esse caminho. A empresa foi fundada em 1910 como fabricante de tecidos. Nos anos 60 ingressou na confecção e em seguida no varejo. ?A Zegna ainda fornece cortes para Christian Dior, Gucci e outras grifes, mas hoje só 10% do faturamento [E 634 milhões em 2004] vêm dos tecidos. A maior parte da receita é composta pela venda de roupas prontas e acessórios [perfumes, sapatos, bolsas]?, informa Daniel Brett, representante da marca italiana no Brasil. Em casos extremos, como o da francesa Dormeuil, o lado fabril até desapareceu. Restou a marca ? forte, glamourosa e desejada. ?Deus queira que isso não aconteça a Paramount, porque eu sou apaixonado pela área industrial?, diz Mattar.

Filho de um imigrante libanês que começou como mascate e fez fortuna no ramo têxtil, Mattar nasceu em um casarão vizinho ao palacete dos Matarazzo, na Avenida Paulista. Começou a trabalhar na fábrica do pai aos 24 anos, no setor de estamparia ? uma escolha feita a dedo. ?Eu passava o dia indo e vindo em volta de uma mesa de 50 metros de comprimento. Como sempre gostei de esporte, aquilo era uma maravilha.? Paulo Skaf, presidente da Fiesp e vice do conselho de administração da Paramount, diz que, mesmo agora, aos 81 anos, Mattar é capaz de se lançar ao chão e mandar 20 flexões de braço ininterruptas antes de começar uma partida de tênis. ?Acomodação é a palavra que ele mais detesta?, afirma Skaf. ?O Mattar tem um estilo bonito, elegante. O voleio dele perto da rede é perfeito?, elogia Maria Esther Bueno, bicampeã em Wimbledon e parceira nas quadras dos clubes Paulistano e Harmonia.

Foi a paixão pelo tênis que abriu a Mattar as portas de outro bom negócio: a licença exclusiva para produzir e comercializar itens da francesa Lacoste no Brasil. ?Nos anos 60, conheci o Bernard e o Michel Lacoste, filhos do fundador René Lacoste, em Roland Garros. Ficamos amigos e, em 1978, peguei a marca?, relembra. ?Perdi dinheiro por sete anos com ela. Só deu certo quando inventei a primeira loja Lacoste do mundo, aqui em São Paulo. O Bernard não gosta que eu diga isso, mas é a pura verdade. Antes eles só vendiam em multimarca.? A Lacoste, que responde por 15% do faturamento de R$ 420 milhões (2005) da Paramount, está passando por mudanças no País. Cerca de R$ 4,5 milhões serão investidos na abertura de dez novos pontos de venda exclusivos este ano. E as 50 lojas já existentes começam a adotar o novo padrão de arquitetura criado pela matriz com o objetivo de rejuvenescer a imagem da marca. Rejuvenescer pero no mucho. Para Mattar, que recorta das revistas anúncios ?mais ousados? dos concorrentes e manda para o amigo Bernard, ?a Lacoste é exageradamente conservadora?. ?Eu digo a ele: Bernard, nas campanhas da Lacoste não pode nem beijo na boca. Só que as outras marcas já estão no beijo na boca entre duas moças. Precisamos evoluir, Bernard?, ri o veterano industrial.

Paramount em números
Um mergulho na maior fabricante de fios e tecidos finos do País

Fundação
1893

Fábricas
5

Funcionários
3 mil

Produtos
tops de lã, fios, tecidos e vestuário

Marcas
Collezione Paramount, Lansul, Pingouin e Lacoste

Faturamento
R$ 420 milhões (2005)