Negócios

Ricardo K perdeu R$ 2,8 bilhões em três meses. E continua sorrindo

A Brasil Telecom (BrT) é um dos titãs da telefonia no Brasil. Presta serviços locais nas regiões Sul, Centro-Oeste, e Norte, e atende 1,7 milhão de clientes na divisão de celulares. No terceiro trimestre de 2005, a empresa era avaliada em R$ 11,9 bilhões pelo mercado financeiro e vinha sendo indicada como uma das melhores alternativas de investimento por analistas do Brasil e do exterior. Mas isso mudou. Curiosamente, as ações desabaram depois que os fundos de pensão estatais assumiram o comando da empresa com um discurso moralizador ? durante quatro anos, as fundações travaram uma disputa com o grupo Opportunity. Na última semana, dezenas de relatórios foram distribuídos aos investidores e todos continham a mesma orientação: não comprem mais as ações da BrT. O motivo? Uma conferência realizada no dia 19 de dezembro, conduzida pelo novo presidente da empresa, Ricardo Knoepfelmacher. Nela, ele jogou um balde de água fria no otimismo dos investidores. Ricardo K, como é conhecido, revisou para baixo as estimativas de crescimento e distribuição de lucro aos acionistas, além de elevar os planos de investimentos para 2006 ? isso significa que a empresa vai gastar mais e remunerar menos seus sócios. O resultado foi a queda de mais de 20% das ações em dezembro, a maior da Bovespa, enquanto os papéis de outras empresas de telefonia ficaram estáveis. ?Estamos limpando a empresa, agindo com ética e transparência e, no final, vamos trazer mais valor para os acionistas?, garantiu Ricardo K.

O mercado reagiu muito mal. Com a débâcle das ações ordinárias e preferenciais da Brasil Telecom, a queda do valor de mercado da companhia chega a R$ 2,8 bilhões. Isso mesmo. Em 30 de setembro de 2005, data em que Ricardo K assumiu a gestão, o valor de mercado da Brasil Telecom era de R$ 11,9 bilhões. Na semana passada, era de R$ 9,1 bilhões, segundo o banco de dados da Economática. ?As previsões do novo bloco de controle não agradaram ao mercado?, disse à DINHEIRO Felipe Cunha, analista de telecomunicações do banco Brascan. Como essa análise foi praticamente consensual, muitos investidores começaram a se livrar dos papéis da BrT. ?Foi muito desapontador?, disse Stephen Graham, do banco suíço UBS. Com a chegada dos novos controladores, muitos imaginavam que as ações se valorizariam. Até porque a empresa vinha sendo penalizada pela sangrenta disputa entre todos os sócios: Opportunity, Telecom Italia, Citibank e fundos de pensão. A expectativa de alta cresceu quando a equipe de Ricardo K concluiu uma auditoria apontando prejuízos de R$ 361 milhões que teriam sido causados pelo Opportunity, com contratações desnecessárias. Ou seja: bastaria fechar os ralos para a empresa se valorizar. ?Essa auditoria criou um consenso no mercado de que a gestão anterior talvez não fosse a mais eficiente?, disse Ricardo Kobayashi, analista do Banco Pactual. ?Mas a suspeita não se confirmou, uma vez que o novo comando não aponta nenhuma economia significativa?. Outros analistas são ainda mais céticos. ?Esperávamos um corte de custos agressivo, mas a empresa acabou elevando as previsões de gastos?, comentou o analista Roger Oey, do Banif Investment Banking. Em meio a esse cenário, Ricardo K continua sorrindo e a Telecom Italia, que chegou a comprar a participação do Opportunity, ainda luta para assumir o controle.