Negócios

Audi sem Senna

O mercado brasileiro assistirá, nos próximos dias, ao rompimento de um dos casamentos mais bem-sucedidos do setor automotivo: a montadora alemã Audi vai se separar da Senna Import, fundada por Ayrton e comandada por seu irmão, Leonardo. Ambas constituíam a Audi-Senna, companhia que respondia pelas operações de venda, marketing e assistência técnica da fabricante de veículos desde 2000. A Audi chegou a convocar uma entrevista coletiva para oficializar o divórcio na semana passada, mas os detalhes jurídicos do distrato não ficaram prontos a tempo. Oficialmente, elas informam que ?estão em processo de renegociação?. Segundo se apura, entretanto, a joint-venture deixará de existir. A Audi AG irá adquirir os 49% de ações da sócia, em um negócio estimado em centenas de milhões de reais ? ninguém se arrisca a precisar o valor. Quando assinado, o contrato de constituição da Audi-Senna já previa a opção preferencial de compra por parte do parceiro quatro anos depois. O prazo venceu. A família Senna, junto com Ubirajara Guimarães, sócio da importadora, não pretendia desfazer o casamento, mas os alemães mostraram-se irredutíveis. Fontes ligadas à diretoria da Senna Import informaram à DINHEIRO que Leonardo pensou em comprar os 51% da Audi. Os alemães recusaram. Reconhecido como mago na consolidação do marketing da marca, ele ficou abatido, afirmando a amigos sua desilusão com o epílogo da sociedade. Teria desabafado: ?Não posso fazer nada. A marca Audi é deles, não minha?. Se os contornos dessa decisão empresarial parecem comuns na vida corporativa, o descarte da Senna Import está causando perplexidade. ?A Audi só tem status de Mercedes-Benz e BMW no Brasil. E isso foi construído apenas pelo Leonardo e pelo Bira (Ubirajara)?, opina um alto executivo da concorrência. E detalhe: o imbróglio ocorre em um momento de queda nas vendas de seu carro-chefe, o A3. Por deixar de ser fabricado em 2006, o consumidor tem hesitado em adquirir um modelo de R$ 70 mil (básico) para vê-lo descontinuado logo depois. Reflexo disso é a curva de vendas: em 2001, 11,4 mil unidades de Audi A3 foram vendidas. Ano passado, quando surgiu o novo A3, despencou a 5,7 mil. Para 2005, a expectativa é emplacar, no máximo, 4,5 mil veículos.

O noivado entre Audi e Senna Import consumou-se em 1994, quando Ayrton Senna criou a importadora. As relações estreitaram-se com os resultados positivos, a ponto de as duas ?casarem-se? seis anos depois já com casa própria ? a fábrica VW/Audi de São José dos Pinhais (PR). Ali nascia a Audi-Senna e o primeira dificuldade: o dinheiro investido na planta (US$ 750 milhões) não tinha um único centavo da Senna, o que restringia sua participação no planejamento de produção. Cabia-lhe distribuir os veículos às 35 concessionárias e ?trabalhar? a marca. E nisso, enfim, ela foi primorosa. Pendurou carro em helicóptero no centro de São Paulo, realizou desfiles de moda no Salão do Automóvel, inventou crash-test (teste de colisão) para atestar a segurança do veículo. Mais: alugou uma balsa para passear nos litorais paulista e carioca, repleta de carros e convidados vip, para badalar os lançamentos. Leonardo Senna pintou e bordou com as quatro argolas e, diga-se, teve o apoio irrestrito da Audi, sobretudo porque suas tacadas sempre obtiveram êxito. Do ?zero?, a Audi foi alçada à condição de montadora com altíssimo valor agregado de sofisticação.

Em 2004, a Audi apresentou o novo A3 na Europa e decidiu não trazê-lo para a linha de montagem brasileira. A ação soou como um cruzado no fígado da Senna Import. Havia a alternativa de reestilizar o nacional, mas a Audi alemã foi insensível, justificando o baixo volume. Além disso, a Volkswagen, legitimamente, resolveu usar as instalações da fábrica para proliferar a família Fox. Este foi o começo do fim. Responsável por mais de 80% das vendas, contudo, o sumiço do A3 será um problema e tanto para a Audi. Comenta-se que os concessionários já se assanham a reclamar do encolhimento dos negócios. Como ficariam os investimentos que previam um volume a ser reduzido em 80% a partir de 2006? Para a Senna Import, que jamais participou da ação de expurgar o A3, a responsabilidade de arcar solidariamente com eventuais indenizações à rede seria uma encrenca e tanto. Resultado: a despeito da frustração, o amargo sabor do divórcio pode ter sido uma ótima solução.

Há quem diga, porém, que a estratégia da Audi é diferente: ela compraria os 49% da Senna Import no período de baixa nas vendas para ressarci-la com uma cifra modesta. Em seguida, a montadora reveria a decisão de não fabricar o novo A3. Explica-se: esse carro vai ganhar a América. Atualmente, vender qualquer veículo europeu no mercado americano é impraticável em razão do câmbio entre euro e dólar, em que a moeda européia supervalorizada diminui a competitividade de seus produtos. Adivinhe qual país produziria o belo (e novo) médio da Audi?

A NOVA GERAÇAO QUE NÃO VEM

A3 BRASILEIRO
Com baixo volume de vendas, ele
terá a produção paralisada em 2006

A3 ALEMÃO
Mais caro que o nacional, que já vende
pouco, o novo não será feito por aqui