Negócios

Gerdau sem limites


Jorge Gerdau Johannpeter, o presidente da companhia siderúrgica Gerdau, foi um dos pioneiros do surfe no Brasil. Quando isso ainda não era moda, o jovem empresário gaúcho costumava pegar onda nas praias desertas de Santa Catarina. Na semana passada, aos 67 anos, mas ainda levando nos olhos um sorriso feliz de surfista, o Dr. Jorge, como é chamado, pegava uma outra onda ? a da transformação da sua empresa em uma poderosa multinacional, cheia de apetite, cujo desempenho financeiro e de mercado pode causar inveja em qualquer latitude. Na segunda-feira, 1º de novembro, a Gerdau confirmou a compra por US$ 266 milhões de quatro usinas produtoras de aço americanas que pertenciam à Cargill. A operação, anunciada em setembro, foi a última de uma série de cinco aquisições que desde 1999 transformaram a Gerdau no segundo produtor de aços longos dos Estados Unidos e um dos maiores do mundo, com uma tonelagem atual de 16 milhões. Dois dias depois de fechar o negócio americano, a Gerdau apresentou no Brasil o melhor balanço trimestral de sua história de 103 anos, somando nos primeiros nove meses de 2004 um lucro líquido de R$ 2,5 bilhões, três vezes maior do que no ano passado. Essa quantia, já espantosa, é ainda mais notável quando se tem em conta que 35% do lucro foi obtido no exterior, onde a empresa fez também 50% de seu faturamento global. Em uma época de ouro para a indústria do aço, com a maior demanda e os melhores preços dos últimos 50 anos, a Gerdau está surfando firme a onda de prosperidade. ?A alta do preço internacional do aço foi a grande mola propulsora do lucro?, explicou Oswaldo Schirmer, o vice-presidente de Finanças da empresa. O aço subiu 20% no Brasil e 60% no exterior. A empresa espera fechar o ano com faturamento de cerca de US$ 8 bilhões, dos quais US$ 3 bilhões virão dos EUA.

Quando se soma um lucro formidável a um forte processo de expansão internacional, inevitavelmente surge a pergunta: até quando isso vai durar? Ou, posto de outro forma, onde a Gerdau vai parar? Os analistas juram que a empresa vai seguir comprando no exterior e que mesmo aqui no Brasil devem ocorrer novidades. Afinal, o BNDES está propondo a formação de um grande bloco siderúrgico nacional para opor-se à onda de aquisições estrangeiras e a Gerdau é uma carta óbvia na mesa. ?Se o Brasil partir para um processo de consolidação a Gerdau não vai ficar de fora?, afirma Frederico Gerdau, vice-presidente do Grupo. O homem encarregado do planejamento global da companhia e da sua expansão externa ? Jorge Gerdau ? parece ter um visão clara do futuro. ?Estamos preocupados nos próximos anos em consolidar a nossa posição no continente americano?, avisa. ?Outras partes do mundo não estão no nosso radar.? Analistas apostam que o México é a próxima parada dos gaúchos. Ali funciona a maior economia da América Latina e uma na qual o duplo G do logo da Gerdau ainda não é conhecido. O presidente da empresa não confirma e nem desmente. ?Força é presença de mercado?, ensina. ?Para ser forte no mundo, você tem de ser alguém em algum lugar. Não adianta estar disperso.? A Gerdau escolheu ser forte na América, das tundras à Patagônia. O resto virá depois, se vier.

Com as compras já realizadas e os investimentos em curso no Brasil ? US$ 2 bilhões em três anos, tudo para exportação ?, a Gerdau saiu de um patamar de 4 milhões de toneladas há quatro anos e hoje está em 16 milhões. ?O grupo está mais sólido e menos endividado por tonelada?, afirma Gerdau. A companhia tem fábricas no Uruguai, Chile, Argentina, Canadá e Estados Unidos, e suas vendas globais, incluindo o faturamento no Brasil, já somam mais de R$ 17 bilhões. Trata-se, para todos os efeitos, de uma multinacional verde-amarela ? talvez a primeira digna desse nome. É certamente a única que tem 8 mil funcionários no exterior, subsidiária americana listada nas Bolsas de Toronto e Nova York e que opera com total desenvoltura no mercado financeiro internacional. Suas últimas aquisições foram realizadas com dinheiro captado diretamente no mercado de capitais dos Estados Unidos, usando a marca Gerdau Ameristeel. Quantas empresas brasileiras são capazes de organizar um road show com 56 apresentações nos EUA e levantar US$ 320 milhões, como a Gerdau terminoude fazer há duas semanas? Por essas e outras, na semana passada, ao visitar o Brasil, o francês Guy Dollé disse que a Gerdau é a única empresa brasileira capaz de participar do processo global de consolidação siderúrgica na condição de comprador. Dollé preside a Arcelor, segunda maior companhia de aço do mundo.

Fundada há 103 anos, em Porto Alegre, a Gerdau não parecia destinada ao grande mundo. Começou como Fábrica de Pregos Pontas de Paris, tendo por dono o imigrante alemão Johannes Heinrich Gerdau. A primeira e marcante reviravolta se deu com a entrada na família de Curt Johannpeter, o pai dos controladores atuais da companhia. Ele se casou com a neta de Johannes Gerdau e agregou ao negócio sua experiência do mundo financeiro. Johannpeter era executivo para América Latina do Deutshe Bank alemão e tratou de levar a empresa à Bolsa de Valores já em 1947, uma coisa raríssima. No mesmo ano a Gerdau fez sua primeira aquisição ? uma siderúrgica para abastecer a fábrica de pregos da família. ?Há um aspecto cultural na atuação internacional da empresa?, diz Jorge Gerdau. ?Quando meu pai entrou no negócio já trouxe percepções globalizadas.? Hoje em dia essa cultura de gestão distingue a Gerdau da maioria das companhias brasileiras. A experiência profunda com o mercado de capitais, a vocação cosmopolita do grupo e a paixão pelo planejamento permitiram que a partir dos ano 80 a empresa avançasse com naturalidade sobre o mercado internacional ? exportando e comprando empresas. Agora, com a onda de consolidação, essa experiência pode significar a diferença entre a continuidade e a extinção.

Dias atrás, durante a reunião em Buenos Aires do Congresso Latino-Americano de Siderurgia, ficou claro que todos os especialistas consideram a consolidação mundial da indústria inevitável. Acredita-se que dela restarão meia dúzia de gigantes, que ninguém ainda se atreve a identificar. Técnicos como Peter Marcus, uma das grandes autoridades mundiais em siderurgia, sustentam que qualquer um que produza menos de 30 milhões de toneladas por ano é peixe pequeno nesse mercado, passível de ser engolido. Talvez por isso a Gerdau, com 16 milhões, tenha pressa em se posicionar. ?Baseado apenas no Brasil, você não tem condição de atingir a escala internacional que o setor exige?, diz seu presidente. ?Ou a empresa vai para fora e atinge os patamares necessários à competição internacional, ou sua capacidade de atuar no Brasil fica comprometida?.

Em outras palavras, a expansão é mandatória. Contra ela trabalha, porém, uma enorme incógnita de mercado: ninguém sabe o tamanho da demanda nos próximos anos. A China, que aqueceu o mercado ao ponto de ebulição, atraindo um terço da demanda mundial e um terço das importações globais, prepara-se ela mesma para converter-se em exportadora de aço. Assim, o investimento de hoje corre o risco de converter-se na capacidade ociosa de amanhã. Ou não. O próprio Gerdau é cético quanto à possível competição chinesa no futuro. Diz que para exportar aço barato é preciso produzir minério de qualidade, algo que apenas Brasil, Rússia e Austrália fazem. O que falta aqui, e no restante da América Latina, é capital. Logo, diz Gerdau, a consolidação é necessária para dar capacidade competitiva às empresas latino-americanas. ?Temos de ocupar o espaço que a natureza nos deu?, diz o empresário. ?Se não o fizermos, alguém o fará.?

Com reportagem de Elaine Cotta

FOME DE AQUISIÇÕES INTERNACIONAIS
Como a Gerdau cresceu comprando empresas no Exterior desde os anos 80


1980
Uruguai: A primeira compra, da Laisa


1989
Canadá: Courtice Steel foi planejada


1999
EUA: A planta em NJ abriu mercado ianque


2002
Empresa local: Gerdau na Bolsa como americana


2004
Quatro compras: logo que se multiplica nos EUA