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10 perguntas para Sebastião Salgado


O sr. tem acompanhado o governo Lula?
Sim. Acho que ele montou uma equipe boa, com Palocci, Dirceu, Meirelles…
Lula é um grande líder. Um cara honesto, com caráter e é ético. Mas acho que,
depois de dois anos, já passou da hora de ele começar a governar para a
grande maioria que votou nele.

O presidente se esqueceu do povo?
O que quero dizer é que o macroeconômico está bem, muito bem conduzido. A taxa de crescimento é razoável, a inflação está controlada. O que precisa ser feito é a reforma social. Nesses dois anos e meio o que se fez pelo social foi muito pouco. O barulho foi grande, mas ainda há uma enorme dívida social.

As empresas também devem ter um papel importante na reforma social?
Extremamente. Ainda mais num país pobre como o Brasil. O investimento público no País hoje é muito pequeno. Mais de 60% dos projetos sociais são feitos por empresas privadas. Nesse ponto, o Instituto Ethos tem feito um trabalho fundamental, que é o de estimular a consciência do social nas corporações.

O que o economista Sebastião Salgado achou da elevação dos juros no Brasil?
O Brasil tem um modelo econômico deformado. É obrigado a manter a taxa alta
para evitar o aquecimento da economia, que poderia fazer explodir a demanda interna e gerar inflação. Se tivéssemos um parque fabril capaz de atender o au-
mento de demanda interna, poderíamos reduzir juros. Mas esse não é o cenário. Então, com a possível combinação juros baixos e mercado aquecido, teríamos de
importar aos montes, o que prejudicaria a balança comercial do País. Para
equilibrá-la, dá-lhe exportação de matéria-prima, sem valor agregado, que não distribui renda e que amarra o Brasil, condenando nossa indústria ao atraso. É
mais cômodo aumentar os juros.

Mas há problemas em ser forte no agronegócio?
Do ponto de vista de superávit comercial, talvez não. Mas além do que eu já
falei sobre o atraso na indústria, há o prejuízo ao meio ambiente. Os agrotóxicos
na soja, por exemplo, detonam o subsolo brasileiro. O subsolo do Cerrado bra-
sileiro é dono de uma das maiores reservas de água do planeta. Mas os agro-
tóxicos estão matando o Cerrado.
 

Qual a saída para a economia deformada do Brasil?
O que todo mundo pede. Tentar mudar a linha de pensamento, incentivar pesquisas, trabalhar produtos com maior valor agregado, desonerar a produção, fazer as refor-
mas fiscais e tributárias, atrair investimento produtivo. Mas isso só vem com o tempo.

Como está a imagem do Brasil no exterior?
No geral, boa. Lula fez um grande trabalho nesse sentido, seguindo uma linha iniciada com sucesso por Fernando Henrique. O Brasil passou a ser respeitado e ouvido. Reclama uma vaga na ONU, briga com potências na OMC, discursa a favor dos pobres nas tribunas internacionais.

E em termos econômicos, o Brasil pode tirar proveito dessa imagem?
Acredito que sim. Brasil, China e Índia são os mercados com maiores condições de atrair investimentos. Basta continuar mostrando que a economia é estável e que há esforços para levar adiantes as reformas.

Esquerda ou Direita?
Esquerda. Direita, só a mão que eu uso para fotografar.

Bush ou Kerry?
Kerry. O mundo merece alguém um pouco mais inteligente