Negócios

Olho mágico


A esfera da fotografia ao lado é o carro-chefe de um novo negócio em rápida expansão em Brasília. Trata-se de um olho mecânico, com capacidade de girar 360 graus, instalado no 28º andar do Congresso Nacional. Como o Big Brother da alegoria de George Orwell, tudo vê e tudo sabe numa distância de até 4 quilômetros. Da Praça dos Três Poderes até a Torre de Televisão, o olho é capaz de vigiar e filmar, em detalhes, os movimentos de qualquer cidadão que atravesse o centro nevrálgico do poder federal. O presidente da Câmara, João Paulo Cunha, está encantado com o poder do seu Big Brother. O ministro do Gabinete Civil, José Dirceu, também. Tanto que ele decidiu comprar seu próprio sistema. A 11 de novembro, deve ocorrer numa sala da Casa Civil um pregão de empresas para vender um novo sistema de vigilância da Presidência. Serão instalados olhos semelhantes nos palácios do Planalto, no do Alvorada, onde mora o presidente Lula, e do Jaburu, residência do vice José Alencar. A Granja do Torto também receberá o seu próprio sistema.

A previsão do edital de licitação é que sejam gastos R$ 1,4 milhão para compra de 225 câmeras e de 30 estações de monitoramento das imagens. Outros R$ 3,2 milhões são para aumentar o controle de acesso de pessoas e carros nas dependências da Presidência, com a instalação de novas portas com alarme, catracas e leitoras de cartão. Ao todo, o ministro Dirceu pretende investir R$ 4,6 milhões para a criação de seu próprio Big Brother. Em meados de 2005, quando tudo estiver instalado, Brasília terá o maior e mais complexo sistema de segurança do País. O que existe hoje, somente no Congresso Nacional, já chama a atenção. São mais de 400 câmeras instaladas, interligadas a um sistema de monitoramento na Câmara e outro no Senado. Há 190 funcionários se revezando 24 horas na vigilância das imagens. O sistema foi interligado à Polícia Federal, à Polícia Militar e ao Corpo de Bombeiros para que sejam acionados em caso de ocorrência de roubos ? ou de violência nas manifestações políticas. No total, foram investidos R$ 2 milhões.

Esse complexo de vigilância vem sendo construído há dez anos, quando foram instalados nas comissões temáticas da Câmara 40 aparelhos de vídeo, em VHS. Na ocasião, o objetivo era somente o de auxiliar os taquígrafos ? se tivessem qualquer dúvida na hora de transcrever os debates para os anais, bastaria que consultassem as fitas. Há três anos, o Senado foi atrás e instalou seu próprio sistema, com 30 câmeras externas e 120 internas. Custou R$ 817,7 mil. Em dezembro de 2003, João Paulo Cunha mandou instalar, por outros R$ 957,7 mil, mais 250 câmeras digitais para vigiar o movimento de visitantes. Venceu a licitação a Ansett, que pertence ao grupo Invensy, Londres, com faturamento de US$ 20 bilhões. O grande olho do alto do Congresso é parte do sistema. ?A intenção é prevenir qualquer ação criminosa?, explica o diretor do Departamento de Policia Legislativa, Gilmar de Morais. Antes do Big Brother, havia em média 300 ocorrências de furto por ano no Senado. Este ano, foram registrados 20 casos. Foi também com a ajuda do sistema que há um ano a polícia identificou (e prendeu) os manifestantes que quebraram os vidros do Congresso durante a votação da reforma da Previdência. Dias atrás, um visitante levou um projetor de imagens avaliado em R$ 3 mil. Em três dias a Polícia recuperou o aparelho. ?Os assaltantes flagrados pelas câmeras já tinham registro na delegacia?, festeja o diretor do Departamento de Polícia Legislativa do Senado, Claylton Zanlorenci. ?Nosso equipamento é valioso, mas precisa ser modernizado?, conta Claylton. Como se vê, o novo nicho de mercado está só começando. O próximo passo é aproveitar a onda federal para tentar vender sistemas similares para as grandes corporações privadas.