Negócios

Vitelcom: celular de marca própria

Os brasileiros conhecem o conceito de marcas próprias desde o Plano Real, quando os varejistas começaram a colocar nas prateleiras produtos de consumo com as suas marcas. Pois agora essa idéia transbordou das prateleiras e chegou ao mercado global de comunicação. No ano passado, a Telefonica Móviles, braço para a telefonia celular da gigante espanhola Telefonica, começou a oferecer a seus clientes espanhóis aparelhos com a marca Telefonica, a preços entre 40 e 60 euros abaixo dos praticados pelo mercado. A iniciativa foi um sucesso e causou terremoto no mercado de terminais. Em doze meses a Telefonica vendeu 720 mil terminais com sua marca, conquistou 15% do mercado espanhol e induziu uma queda de 20% nos preços cobrados pelas outras empresas. Na esteira do sucesso espanhol, a idéia foi exportada pela Telefonica para México, Argentina e Chile, e agora pode chegar ao Brasil.

Afinal, em todos esses países a fabricação dos celulares Telefonica está a cargo da espanhola Vitelcom, que industrializa terminais em Málaga, na Espanha, e Cancún, no México. Pois a mesma Vitelcom venceu uma concorrência internacional promovida pela Vivo para produzir e fornecer no Brasil, a partir de outubro, um lote de 1,5 milhão de terminais. Serão dois modelos de celulares de baixo custo voltados para o mercado popular, que podem ou não ser vendidos com a marca Vivo. A operadora diz que não tem planos de introduzir a marca própria no Brasil, mas a bem-sucedida experiência da Telefonica ? dona de 50% da Vivo, em parceria com a Portugal Telecom ? pode pesar a favor da idéia. Por enquanto, o projeto se encontra em fase pré-industrial. ?Ainda não decidimos se a fabricação será em Minas ou em Manaus?, explica Carlos Gauch, veterano executivo brasileiro da indústria de tecnologia que dirige os negócios da Vitelcom no México e tocará a operação no Brasil.

Se a estratégia de marca própria da Telefonica é um sucesso mundial, isso se deve em grande medida à ousadia do catalão Carlos Carrero, um self made man de 42 anos que fez fortuna importando eletrônicos da Coréia para o mercado europeu. Em 2001 ele aceitou um convite da Telefonica para desenvolver e produzir na Espanha a próxima geração de celulares, a 3G, capaz de receber e transmitir em banda larga imagens de alta densidade. Tratava-se, como sempre no caso da Telefonica, de transferir para fornecedores espanhóis a maior parte das suas encomendas internacionais. Àquela altura não existia um fabricante espanhol de celulares. Para viabilizar o projeto, a Telefonica assinou com a Vitelcom um contrato de fornecimento de 10 anos. Em troca, Carrero e seus sócios montaram um time de pesquisadores espanhóis capaz de desenhar celulares de última geração, desenvolveram fornecedores em tempo recorde e montaram em 12 meses, no parque tecnológico de Andaluzia, em Málaga, uma fábrica para produzir 6 milhões de celulares por ano. Apenas a planta custou 60 milhões de euros. Sem custos de marketing e propaganda, e produzindo sob orientação de seu único cliente, a Vitelcom conseguiu baixar os preços dos terminais, permitindo à Telefonica uma forte redução de custos. A parceria vingou. Hoje a Vitelcom tem mil funcionários, fatura 400 milhões de euros e cresce 30% ao ano, de carona na expansão mundial da Telefonica. Mas, ao contrário dos seus concorrentes, não tem marca ? e depende para sobreviver de um único cliente. ?Enquanto o mercado estiver crescendo a esta velocidade não temos com que nos preocupar?, diz Carrero, casado com um brasileira. ?Se a situação mudar, pensaremos no assunto.?